Boas Vindas à 23ª edição da Bienal do Livro

Anhembi -São Paulo/SP

22/08/14

Creio que não caiba a mim, aqui, discorrer sobre a História do livro. Ou mesmo dizer de sua importância para a Humanidade, ou listar um cânone de supostas relevâncias autorais.
A mim cabe, talvez, me arriscar a trazer para o lado pessoal considerações que acompanham minha trajetória profissional como Diretor Regional do Sesc São Paulo.

Portanto, cabe dizer que minha lembrança passeia por entre as páginas dos livros que se deixaram abrir em minhas mãos. Eles fazem parte de minha carne e dela se apoderam com suas ilusões.

Daquelas palavras dispostas lado a lado, uma a uma, formando imagens difusas, ou mesmo daquelas figuras enigmáticas que tentavam ilustrar uma passagem ou outra, sobrou somente quase toda a minha memória. Não tão certeira quanto um romance bem construído, mas cheia de esquecimentos e de uma poesia arranjada pela minha própria vida.

Poesia não no sentido simples da rima, mas aquela que dita ritmos, cadências inesperadas, fórmulas inusitadas de juntar um mundo tão etéreo quanto os sentimentos que jogamos pelo tempo ou que guardamos nas gavetas.

Para ser sincero, um livro nunca me disse nada de seu presente momentâneo. É sempre um objeto, simplesmente; às vezes até um estorvo, ou uma ajuda que apara um defeito da mesa, ou a altura do monitor do computador. Algo sólido como uma pedra intocada, feroz como uma navalha em suas folhas.

Mas, ao me deparar e me deter diante de todos aqueles signos ordenados, aquelas manchas nas páginas, o livro se transforma e, no processo da linguagem, dá sentido à sua existência. Não à toa o livro já foi amaldiçoado, queimado em praça pública, escondido de pensamentos que não alcançavam aquele tanto que trazia codificado.

Não à toa ruíram as estantes de Alexandria, aqueceram o Holocausto e outras tantas violentas governanças. E não à toa sacralizou seus mistérios, tornando a palavra o ser.

E só quando eu o abro, quando eu o desvendo com meus olhos de ler as linhas e entrelinhas, é que o livro se torna essa maravilhosa magia. Transmutam dessas formas, novos mundos, novas ordens, novas outras incansáveis diversidades.

Coisa que não se explica é essa de ser leitor. De ter tanta compreensão presa num canto do cérebro, ou no meio da boca. De estar nesse silêncio morno percorrendo caminhos, saudando os fracassos que o anti-herói derrubou para neles tropeçarmos.

Aprendendo sem ser, sendo sem ter; desvencilhando no escuro o saber que vacila de uma certeza a outra, de uma outra dúvida que fatalmente surgirá.

Coisa que não se explica é essa de abrir os olhos para aquilo que não está, para o que não se vê inteiramente e só se percebe em fragmentos distorcidos, em fonemas e sintaxes. É ver o nada transformar-se em tudo. É, portanto, ver, com nossos próprios olhos, um mito nascer dentro de nós.

Assim, penso no livro como uma ponte, uma porta, um acesso à criação humana, a suas fragilidades que me tornam forte. Penso no livro como num sopro, uma brisa que me atinge num dia pela manhã, despreocupado com tanta responsabilidade, solto feito um animal que me ensina.

Penso no livro como um elo entre um mundo em construção e o leitor, este EU pronto a mudar. Talvez por isso, no trabalho que desenvolvemos no Sesc, apontamos nossos esforços para a formação de leitores.

Temos as Edições Sesc SP, que nos abre as portas para participar desta Bienal do Livro; uma parceria que permite mostrar nosso trabalho cultural na condição de desenvolver, este ano, toda a programação da área no evento.

E quando fazemos um livro – e nosso catálogo já nos dá alegria! – fazemos com um intuito libertário; com um desejo da leitura espalhada pelos cantos de nosso dia a dia.

Quando fazemos um livro, pretendemos criar uma caixa misteriosa de sabedoria; tirar os arreios que nos estragam os dentes; ver nascer, quem sabe, a esperança no inesperado.

Talvez eu não esteja bem certo para que serve um livro, nem sua história, nem quais são os cânones. Nesta incerteza, sigo com ele, seja embaixo do braço, seja na estante, ou seja, ainda, numa liberdade que dia a dia ele vai me anunciando.

Boa Bienal do Livro a todos!

Obrigado!

Danilo Santos de Miranda
Diretor Regional do Sesc no Estado de São Paulo