Comemoração dos 50 anos da Fundação das Artes de São Caetano do Sul

Sala São Paulo

25/04/18

 

O dia de hoje nos transporta diretamente a 1968 que, definitivamente, não foi um ano qualquer. Foi uma ocasião em que movimentos de massa ganharam uma nova escala e levantaram novas bandeiras.

Daquele momento em diante, a política e a cultura tornaram-se mais próximas do que nunca. Talvez por conta das transformações sociais e tecnológicas, ou pelo novo impulso dos meios de comunicação.

Mas nada do que aconteceu poderia ter sido se não fosse uma espécie de catarse coletiva, um sentimento geral de poder popular que angariou uma amplitude excepcional.

Esse espírito do tempo não nasceu e também não morreu lá.

Como disse Zuenir Ventura, “1968 não acaba de não acabar. Meio século depois a fixação nele continua tão grande que ele não parece um ano, mas um personagem inesquecível que teima em não sair de cena”.

O imaginário da juventude foi forjado junto com os eventos, que se sucediam freneticamente. Muitas das questões formuladas no calor da hora ainda nos acompanham meio século depois.

E nem tudo foram flores.

Na França, as manifestações estudantis, convertidas em greve geral, arrefeceram com a falta de um campo comum entre estudantes e trabalhadores. Verdades e pós-verdades. Prefixos se ajeitam a nos dar valores que não imaginamos.

Nos Estados Unidos, o aumento das manifestações anti-guerra, após o recrudescimento da Guerra do Vietnã, gerou uma escalada da repressão. A morte de Martin Luther King foi um dos resultados da onda de ódio, que parecia querer engolir as vozes dissonantes.

No Brasil, 68 marcou o início de uma das piores fases do autoritarismo. Período em que artistas e intelectuais padeceram de violência e perseguições cujos ecos ainda ressoam aqui e ali.

Hoje, em um momento em que o fantasma das ameaças paira de novo sobre nós, resta perguntar se suas causas também não continuam, ainda, a nos assombrar.

Já temos história suficiente para saber que se a democracia ainda não basta, precisamos então de mais democracia. Precisamos garantir a representatividade de nosso sistema político e ampliar possibilidades de participação direta.

Com 68 precisamos aprender também que a democracia não se reduz apenas ao ato de votar. E que é necessário unir-se para dar realidade aos sonhos.

Hoje estamos aqui para comemorar uma iniciativa que soube explorar as potências daquele momento. Iniciativa que, começando em 68, continua mais viva do que nunca. Porque soube se reinventar, sempre que necessário.

Isso só poderia ocorrer por meio de um direcionamento consistente. Ao longo de seu meio século de existência, a Fundação das Artes nutriu uma visão especialmente rica da educação.

Seu vigor vem de uma proposta que excede os estudos, apostando na formação dos alunos por meio da prática e por meio do nobre propósito de criar espaços de diálogo com a cidade.

Há muito, o extraordinário raio de influência da Fundação transformou-a num patrimônio nacional. Sua atuação, além de estimular outras iniciativas, formou inúmeros profissionais que fazem nossa cultura ser o que ela é.

Também presente em São Caetano desde o final da década de 60, por meio da atuação em espaços públicos, e, a partir de 1980, com a inauguração de um centro cultural e desportivo, é uma enorme alegria para o Sesc poder ter na Fundação um parceiro permanente.

Essa atuação conjunta, que resulta em muitas ações para os diferentes públicos, é fruto de um diálogo amplo, de trocas entre duas iniciativas que encontraram seu lugar enfrentando os percalços do trabalho com a cultura.

Vida longa à Fundação das Artes!

Muito obrigado!

Danilo Santos de Miranda
Diretor Regional do Sesc São Paulo