Recuperação e Preservação do Patrimônio Industrial

SESC Vila Mariana

03/07/12

Bom dia!

Gostaria de cumprimentar a todos os presentes à abertura do VI Colóquio Latino-americano sobre Recuperação e Preservação do Patrimônio Industrial.

Este colóquio é uma realização do TICCIH - The International Comitee for the Conservation of Industrial Heritage, com apoio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, do Centro Universitário Belas Artes, da Cinemateca Brasileira e do SESC São Paulo.
A indústria é o símbolo do desenvolvimento do século XX. No Brasil e, em especial, em São Paulo, o capital uniu-se a projetos que trouxeram o crescimento aliado à força de trabalho de milhares de brasileiros e estrangeiros que, aqui, aportaram, colaborando para a construção da maior cidade do país.

No entanto, nos últimos anos, com a globalização e a mudança das tendências de produção, dando maior ênfase ao setor de serviços, o legado da indústria passa a abarcar, entre outros aspectos, a história de seus edifícios, assim como das relações sociais, econômicas e técnicas que os cercam, cabendo a nós saber qual é a melhor forma para que essas construções ganhem vida na contemporaneidade.

Redigida na Rússia, em 2003, a Carta de Nizhny Tagil1 afirma que o patrimônio industrial “compreende os vestígios da cultura industrial que possuem valor histórico, tecnológico, social, arquitetônico ou científico”, envolvendo tanto bens materiais quanto imateriais, relacionados ao edifício industrial em si mesmo, como o seu entorno e a paisagem criada ao seu redor.

Este encontro é uma oportunidade de refletir sobre a amplitude das responsabilidades cultural, científica e ética, demandadas por intervenções em bens culturais, com ênfase no patrimônio industrial.

Nesse sentido, esse patrimônio, constituído por edifícios e/ou complexos arquitetônicos únicos, não poderia estar sujeito a caprichos ou modismos, capazes de transformá-lo definitivamente em falso testemunho.

É necessário pensar quais são os objetivos do restauro e, sobretudo, a quem a preservação está servindo, tendo em vista o legado deixado por esse patrimônio às gerações atuais e futuras.

O restauro e a preservação do patrimônio industrial permitem ao público aproximar-se das histórias ali vividas, refletindo sobre sua importância para a sociedade em aspectos diversos, como arquitetura, urbanismo, economia, tecnologia, relações de trabalho, entre outros.

Cabe igualmente pensar nas razões que opõem, por um lado, o interesse crescente pelos monumentos industriais e, por outro, a intensa descaracterização, quando não a destruição parcial ou completa desses complexos, não raros travestidos por uma incessante e inócua busca pelo novo.

Para o SESC, que tem na Pompeia seu exemplo de restauro do patrimônio industrial e no Belenzinho um modelo de reformulação de um complexo industrial, com enfoque em suas funções socioculturais e educativas, este encontro é uma excelente oportunidade para que a avidez, sob qualquer motivação, não se sobreponha à experiência humana, apagando definitivamente marcas de tempos que não voltarão.

Inaugurado em 1982, o SESC Pompeia é resultado de uma arrojada ideia de equipamento destinado ao lazer urbano, um patrimônio cultural, cuja preservação não foi feita apenas para salvar uma edificação do passado – uma antiga fábrica de tambores -, mas para ressignificar essa construção, adequando-a às suas novas formas de utilização, atribuindo-lhe novos significados: o fazer cultural e a fruição da cultura.

Entre 1998 e 2006, o Belenzinho constituiu-se como uma unidade provisória do SESC, onde, antes, funcionava, desde a década de 1930, a fiação S.A Moinho Santista Indústrias Gerais – Lanifício. Esse momento é entendido pela instituição como oportunidade para estabelecer os primeiros contatos com a comunidade local, apresentando-lhe os valores e os modos de ser e fazer do SESC em relação aos seus campos de atuação.

Após quatro anos de trabalho, em dezembro de 2010, foi inaugurado o espaço definitivo do SESC Belenzinho, a maior unidade em área construída no Estado de São Paulo, com 37.171m2. Um complexo cultural e poliesportivo, cuja principal característica do projeto arquitetônico é integrar-se como um espaço aberto ao encontro e à convivência de diferentes grupos de pessoas e faixas etárias.

Por isso, a entrada conduz a uma praça central, que pode ser divisada como um prolongamento da rua, e adiante estão as piscinas externas, visíveis tanto por quem está do lado de fora como por quem dentro da unidade, integrando-se como paisagem do bairro. A mesma fluidez pode ser percebida nos espaços de alimentação, na biblioteca, nas práticas esportivas e de lazer.

A transformação, neste caso, passa pela reapropriação de espaços para sociabilidade, convivência, fruição das artes e práticas físico-esportivas e, sobretudo, pela possibilidade de o indivíduo ter autonomia de escolha para o seu tempo livre, associando-a à ampliação de alternativas para o seu conhecimento pessoal e vivência coletiva.

Para o SESC São Paulo, a recuperação e a preservação de bens culturais permitem ao indivíduo ver concretizados seus direitos à história e à memória. Para isso, a ressignificação do uso de um complexo arquitetônico deve estar associada à promoção da cultura e da educação, bem como ao incentivo da convivialidade entre as pessoas, fatores primordiais à ação da instituição, os quais ela procura realizar a cada dia.

Obrigado.


Danilo Santos de Miranda
Diretor Regional do SESC São Paulo


1   Publicada no site do TICCIH Internacional a versão em português da CARTA DE NIZHNY TAGIL SOBRE O PATRIMÔNIO INDUSTRIAL. The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage (TICCIH).  Julh