Nise da Silveira: A Revolução pelo Afeto

25/11/2022

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Após passar pelo CCBB do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte, exposição em homenagem a grande nome da psiquiatria brasileira chega à capital paulista, onde fica aberta ao público do dia 8 de dezembro até 26 de março de 2023.

A partir do dia 8 de Dezembro, o Sesc São Paulo traz à capital paulista a mostra Nise da Silveira: a revolução pelo afeto, que celebra e discute o legado da psiquiatra alagoana responsável por uma profunda transformação no campo da saúde mental.


A curadoria do Estúdio M’Baraká, com consultoria do psiquiatra Dr. Vitor Pordeus e do museólogo Eurípedes Júnior, propõe uma experiência a partir de três eixos principais: contexto, dor & afeto, que levanta questões do debate sobre loucura e “normalidade”, assim como pontua o princípio da resistência aos métodos violentos dos hospitais psiquiátricos; ser mulher, ser revolucionária, que enfoca a trajetória pioneira e combativa de Nise da Silveira; e Engenho de Dentro: inconsciente e território, com maior ênfase nas obras realizadas pelos artistas-pacientes de Nise na instituição carioca e os caminhos abertos pela psicologia analítica.


A expografia de Diogo Rezende, designer e sócio do Estúdio M’Baraká, traz ambientes preenchidos por sobreposições que contrastam a frieza da instituição de clausura – sob constante vigilância – com o calor, a humanidade e a liberdade do trabalho que a doutora Nise realizou nos ateliês do Engenho de Dentro, hospital psiquiátrico na capital do Rio de Janeiro, hoje renomeado em sua homenagem. Esse tensionamento é perceptível, por exemplo, ao se percorrer um trecho da mostra em que os precursores da arteterapia e os tratamentos psiquiátricos agressivos aparecem enquanto contemporâneos de uma mesma época.


Atenta às discussões e pesquisas não só da psiquiatria, mas dos estudos científicos ligados à subjetividade, Nise da Silveira contribuiu para reposicionar o debate sobre internação e tratamento
da esquizofrenia. Para isso, incluiu as práticas com materiais expressivos na rotina dos internos que
estavam sob sua responsabilidade, observando tanto o modo como manejavam ferramentas artísticas e realizavam suas obras quanto as imagens que surgiam desse trabalho criativo. “A Nise criou um método clínico centrado no afeto. Ela é herdeira de Juliano Moreira, de Baruch Espinoza, de Sigmund Freud, de Carl Gustav Jung. Jung foi aluno de Freud e professor da Nise, na Suíça. Homens revolucionários, que abandonaram a ideia do corpo máquina e trabalharamcom a abordagem centrada na subjetividade, na emoção, na identidade, na simbologia, nas narrativas que restauram as memórias. A nossa dificuldade hoje é não deixar o afeto se apagar em um momento em que tudo virou máquina”, situa o consultor Dr. Vitor Pordeus, que trabalhou no Instituto Municipal Nise da Silveira, de 2009 a 2016, e é um dos fundadores do Hotel da Loucura. Além de conhecer a trajetória de Nise, condecorada como Heroína da Pátria em 2022 pelo Congresso Nacional, os visitantes do Sesc Belenzinho vão apreciar de perto as obras deemblemáticos artistas do acervo do Museu de Imagens do Inconsciente, como Adelina Gomes, Emygdio de Barros, Carlos Pertrius e Fernando Diniz. Junto a elas, também há produções de artistas contemporâneos como Lygia Clark e Carlos Vergara. Dentre as novidades desta edição da mostra em São Paulo, estão quatro obras de Aurora Cursino dos Santos e três obras de Ubirajara Ferreira Braga, todas do acervo do Museu Osório César.


Para Isabel Seixas, produtora e sócia do Estúdio M’Baraká, “a exposição busca apresentar
essa personagem e sua importância simbólica ontem e hoje. Nise é uma mulher revolucionária e representa um pensamento vanguardista brasileiro na ciência e, pela especificidade de seu trabalho, consequentemente, nas artes. Nise da Silveira (devemos reverberar esse nome) permitiria múltiplas abordagens – valorizar seu gesto revolucionário, a partir do afeto, é potente nos dias de hoje”.

Sobre Nise da Silveira


Nise da Silveira nasceu em Maceió, no dia 15 de fevereiro de 1905, filha de um professor de
matemática e jornalista com uma pianista. Desse modo, cresceu em uma casa que prezava pela
cultura e pelo afeto, frequentada por gente da imprensa, estrangeiros e artistas. A futura psiquiatra
estudou no Liceu alagoano e, em 1921, foi para a Faculdade da Bahia, em Salvador. Ingressou no
curso de medicina aos 15 anos e se formou em 1926, sendo a única mulher entre 157 homens
daquela turma. Nessa época, também se casou com o médico sanitarista Mário Magalhães, colega
de faculdade com quem viveria até o fim da vida. Juntos, optaram por não ter filhos e, assim,
dedicar-se prioritariamente à medicina.


Em 1927, já sem a mãe e sofrendo pelo falecimento do pai, Nise decidiu se mudar para o Rio de Janeiro com seu companheiro, pois lá teriam melhores oportunidades de trabalho. No ano de 1933, enquanto finalizava sua especialização em psiquiatria, colaborou com a clínica neurológica de Antônio Austregésilo. Ao concluir essa etapa de formação, foi aprovada em concurso e começou a trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospital da Praia Vermelha.
Na década de 1930, militou no Partido Comunista Brasileiro, mas foi expulsa da célula sob a
acusação de trotskismo. Seu engajamento levou a uma denúncia por posse de livros marxistas, o
que ocasionou a prisão de Nise da Silveira em 1936. Dessa época até meados da década de 1940,
permaneceu com o marido em condição semiclandestina, afastada do serviço público.
Ao retomar suas atividades, em 1944, foi integrada ao Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II,
no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, onde combateu técnicas agressivas utilizadas nos
pacientes da saúde mental. Nesse contexto, criou ateliês de pintura e modelagem para estimular a
vinculação dos sujeitos por meio da expressão simbólica. Assim, tornou-se revolucionária em seu
campo de atuação, alcançando resultados reconhecidos internacionalmente pela comunidade
médica e científica.


Em 1952, Nise fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, espaço que
ainda hoje exerce a função de resguardar o legado da visionária e de ser um centro de estudo e
pesquisa que preserva os trabalhos produzidos nos ateliês psiquiátricos. Em 1956, surgiu ainda a
Casa das Palmeiras, clínica voltada à reabilitação de antigos pacientes de instituições psiquiátricas.
Nesse percurso, a médica também se aproximou dos estudos jungianos das mandalas, uma vez que essas imagens eram recorrentes na produção dos internos que acompanhava. Já em 1954, iniciou uma troca de correspondência com Carl Gustav Jung que resultaria em um diálogo bastante produtivo para seu trabalho. Jung deu importante estímulo a Nise para que ela realizasse uma mostra com a obra de seus pacientes.


Assim, em 1957, ocorreu a exposição “A arte e a esquizofrenia”, que ocupou cinco salas do
II Congresso Internacional de Psiquiatria, realizado em Zurique. Na ocasião, o mentor da psicologia analítica incentivou Nise a estudar mitologia como forma de ampliar as ferramentas de leitura de seu trabalho. A psiquiatra então embarcou em um período formativo no Instituto Carl Gustav Jung, na Suíça, que ocorreu em duas fases – de 1957 a 1958, e de 1961 a 1962.

Ao retornar ao Brasil, criou o Grupo de Estudos Carl Jung, que presidiu até 1968. Nesse mesmo ano, publicou a primeira edição do livro Jung: vida e obra.


Ainda em vida, Nise da Silveira recebeu diversas homenagens e prêmios, como a Ordem de
Rio Branco
, pelo Ministério das Relações Exteriores, em 1987; o Prêmio Ciccillo Matarazzo, na
categoria Personalidade do Ano, da Associação Brasileira de Críticos de Arte, em 1992; a Medalha
Chico Mendes
, do Tortura Nunca Mais, em 1993; e a Ordem Nacional do Mérito Educativo, pelo
Ministério da Educação e do Desporto, em 1993.


Já aos 94 anos, em 1999, a alagoana veio à óbito devido a uma pneumonia, deixando um
imenso legado para humanidade, que nunca será esquecido.


Sobre o Sesc São Paulo


Com 76 anos de atuação, o Sesc – Serviço Social do Comércio – conta com uma rede de 45 unidades
operacionais no estado de São Paulo e desenvolve ações com o objetivo de promover bem-estar e
qualidade de vida aos trabalhadores do comércio, serviços, turismo e para toda a sociedade.
Mantido pelos empresários do setor, o Sesc é uma entidade privada que atua nas dimensões físicoesportiva, meio ambiente, saúde, odontologia, turismo social, artes, alimentação e segurança
alimentar, inclusão, diversidade e cidadania. As iniciativas da instituição partem das perspectivas
cultural e educativa voltadas para todas as faixas etárias, com o objetivo de contribuir para
experiências mais duradouras e significativas. São atendidas nas unidades do estado de São Paulo
até 30 milhões de pessoas por ano. Hoje, aproximadamente 50 organizações nacionais e
internacionais do campo das artes, esportes, cultura, saúde, meio ambiente, turismo, serviço social
e direitos humanos contam com representantes do Sesc São Paulo em suas instâncias consultivas e
deliberativas. Saiba mais em sescsp.org.br/sobreosesc. 


Serviço:

Nise da Silveira: A Revolução pelo Afeto


Local: Sesc Belenzinho
Período expositivo: 8 de dezembro de 2022 a 26 de março de 2023
Horário de funcionamento: Terça a sábado, das 10h às 21h. Domingos e Feriados, das 10h às 18h
Acessibilidade: Rampas, elevadores, pisos tátil, banheiros adaptados e outros equipamentos
acessíveis.
Classificação indicativa: Livre
Entrada gratuita
Estacionamento: De terça a sábado, das 9h às 21h. Domingos e feriados, das 9h às 18h
(Valores do estacionamento: credenciados plenos do Sesc: R$ 5,50 a primeira hora e R$ 2,00 por
hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$ 12,00 a primeira hora e R$ 3,00 por hora adicional.)

AGENDAMENTO DE VISITAS EDUCATIVAS
E-mail: agendamento.belenzinho@sescsp.org.br

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