Uma nova história

15/01/2019

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Texto: Camilo Gomide
Fotos: Flavia Valsani

A venezuelana Marifer Vargas e sua filha Miranda Briceno, de apenas 13 anos, chegaram ao Brasil no dia 2 de agosto de 2017. Mas, a julgar pela desenvoltura, parecem estar aqui há muitos anos. Em São Paulo, encontraram Carlos Escalona, companheiro de Marifer, padrasto de Miranda, que já estava no país há cerca de um ano e meio, e foram para um abrigo da Missão Paz, no bairro do Glicério (centro da cidade). Ficaram lá por cerca de um mês até Carlos conseguir um emprego fixo e ser possível bancar o aluguel de um apartamento para todos, na zona leste da capital.

Graças a contatos feitos no centro que os acolheu, Marifer não demorou muito a arrumar trabalho. Ela dá aulas de espanhol na própria entidade e para alunos particulares indicados por pessoas da Missão. Nesse sentido, para ela a mudança não foi tão brusca: na Venezuela, Marifer trabalhava como professora de geografia. Fazia apenas dois meses que ela estava no Brasil quando conversou com a reportagem, e ela não parecia estranhar muito a vida no novo país.

Ela disse não estar sofrendo muito para se adaptar. Acha o povo brasileiro parecido com o venezuelano. Nem a língua, que ela ainda não domina, parece ser problema. “O mais difícil é aprender a deixar as pessoas queridas para trás. Sinto muitas saudades da minha família, mas me sentir estranha aqui, isso não aconteceu. O calor humano, a comida, a forma como fomos recebidas aqui na Missão Paz, tudo isso nos fez sentir em casa”, diz.

A Missão Paz é uma comunidade de religiosos presente em mais de trinta países que se dedica a acolher pessoas em situação de refúgio. A Congregação chegou a São Paulo na década de 1940, onde hoje auxilia imigrantes com cursos, na busca por trabalho e em questões burocráticas.

A menina Miranda também parece estar à vontade com a nova vida. Uma das primeiras providências da família foi procurar uma escola para ela. Miranda diz ter ficado intimidada com o primeiro dia de aula, mas que não demorou muito para superar esse sentimento. Tinha medo de ficar perdida nas aulas e de ser vista como uma estranha. A recepção a surpreendeu. “Hoje me sinto confortável na escola, tenho amigas e amigos brasileiros e já não sou mais ‘a pessoa nova’”, conta. Tanto os professores como os colegas ajudam-na a superar a barreira da língua. Atualmente, ela consegue entender bem o que é dito em aula. Toma notas ainda em castelhano, mas arrisca se comunicar e escrever nas provas em português. Miranda brinca que “as línguas são primas”.

Tudo para trás

A história de Marifer, Miranda e Carlos é um exemplo de família de refugiados que foge ao estereótipo. Apesar de uma mudança forçada, o refúgio pode se apresentar na vida das pessoas como uma nova oportunidade.

A origem da palavra “refúgio” remete a “fuga”. O termo, que vem do latim, tem entre seus sinônimos “saída”, “escapatória e “retirada”. Na definição da ONU (Organização das Nações Unidas), adotada em 1951, refugiado é aquele que, por temer ser perseguido por motivos étnicos, religiosos, políticos ou sociais, abandona seu país. Na prática, o refugiado é alguém cuja melhor opção para ter uma vida digna (e até para sobreviver, em muitos casos) foi deixar tudo para trás e recomeçar do zero.

Os dados mais recentes da ONU mostram que o número de deslocamentos forçados por guerras, perseguições e violência atingiu patamares recordes. Em 2016, 65,6 milhões de pessoas foram deslocadas para fora de seus países ou para outras regiões dos mesmos (os chamados deslocamentos internos) em busca de proteção. Foram 300 mil pessoas a mais em comparação com o ano anterior.

De um dia para o outro, mulheres são separadas de seus maridos; e filhos, de seus pais. Famílias são desfeitas. Amigos são perdidos. Em nome da sobrevivência, casas são abandonadas às pressas, com móveis, carros e todos os pertences deixados para trás.

No Brasil

O Estado brasileiro é signatário dos principais tratados internacionais de direitos humanos, entre eles a Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, criada em 1951 e protocolada em 1967. Além disso, por iniciativa própria o Brasil criou, em 1997, sua lei de refúgio (lei nº 9.474/97), alinhada com princípios internacionais. A legislação segue o entendimento de que todo caso de “violação generalizada de direitos humanos” dá direito ao refúgio. Em 22 de novembro de 2017, entrou em vigor a Lei de Migração que regulamenta diversos pontos da legislação e garante a sua aplicação. A nova lei garante mais direitos a estrangeiros, facilitando sua regularização, como também a criação de visto humanitário.

A lei brasileira instituiu um órgão de atendimento, o Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), e um conjunto de direitos do refugiado. No Brasil, qualquer pessoa em situação de refúgio tem assegurados documentos básicos, como identidade, carteira de trabalho e permissão para livre circulação por todo o território nacional.

Além dos órgãos estatais, existem diversas ONGs (nacionais e internacionais) e fundações que assistem aos refugiados que chegam ao Brasil. Essas instituições dão abrigo, comida, aulas de português, auxiliam com a documentação e na busca por empregos. Algumas conseguem prestar algum auxílio financeiro, mas em caráter provisório e de valor modesto.

Ao contrário do que acontece em alguns países europeus, o governo brasileiro não possui bolsa para refugiados. Nesse contexto, entidades como Cáritas e, no caso de São Paulo, Missão Paz, Centro de Referência para o Imigrante, Centro Social Nossa Senhora Aparecida, entre outras, desempenham papel fundamental no acolhimento, assistência e educação.

Vida nova

A chegada ao novo país envolve uma série de questões. As mais urgentes são abrigo e alimentação. Em cidades grandes, como São Paulo, existem casas de acolhimento municipal e estadual, além de ONGs que oferecem assistência básica aos recém-chegado. O passo seguinte é solicitar a formalização do pedido de refúgio ao governo brasileiro, o que, no caso de São Paulo, poderá ser realizado na Cáritas Arquidiocese de São Paulo ou diretamente em posto da Polícia Federal.

A adaptação não é fácil. São muitas as barreiras que precisam ser vencidas: a língua, a cultura, a dificuldade de se reinserir no mercado de trabalho e o preconceito. Além disso, é preciso superar os traumas de uma mudança abruta, quase sempre violenta. “O refúgio é uma migração forçada. Em 95% dos casos a pessoa não teve tempo de pensar nessa viagem, deixa a família, presencia violações de direitos, agressões físicas e mortes. É muito comum que essa pessoa precise de amparo psicológico”, diz Maria Cristina Morelli, coordenadora do Centro de Referência para Refugiados da Cáritas Brasileira.

Nesta edição da Cadernos Sesc de Cidadania, ouvimos famílias e pessoas que fugiram de situações conflituosas e estão reconstruindo suas vidas no Brasil. Suas histórias são contadas nas páginas a seguir.


Carlos Escalona, Marifer Vargas e Miranda Briceno
Venezuela

Carlos Escalona buscou refúgio no Brasil em junho de 2016. Chegou a Manaus de ônibus, sozinho, com apenas 80 dólares no bolso. Tinha uma passagem de avião comprada para Fortaleza, onde residiam alguns amigos seus, que iriam hospedá-lo por um tempo. Teve que pagar uma multa por excesso de bagagem que consumiu praticamente todo o dinheiro que carregava, mas chegou, enfim, ao seu destino.

Na Venezuela, Carlos trabalhava como coordenador de produção da filial do canal de TV estatal da cidade de Maracay, capital do estado de Aragua, no centro-norte do país. Alguns meses antes de sua viagem sem volta ao Brasil, Carlos havia contestado irregularidades em orçamentos que precisavam de sua aprovação. Da primeira vez, os responsáveis pelas contas desconversaram. Nas seguintes, tentaram suborná-lo.

Carlos denunciou o caso ao seu chefe, mas a pressão vinha de instâncias superiores. Não aceitou o esquema e passou a ser perseguido na empresa: deixou de participar de decisões importantes, seus salários começaram a atrasar. Um dia, ao chegar em casa, foi abordado por um grupo armado. A princípio, achou tratar-se de um assalto, mas logo percebeu que não estavam interessados em nenhum de seus pertences. Levaram-no a um lugar remoto onde o espancaram e fizeram ameaças a ele e à sua família. Em meio à agressão, diziam coisas relacionadas ao trabalho. Depois da surra, largaram-no em um terreno baldio.

Seguiram-se ao episódio intimidações por telefone. Carlos entrou em paranoia, não conseguia dormir, mal saía de casa e se desfez do celular. Temia pela própria vida e pela de seus familiares. Com a ajuda do irmão, mandou os pais para o Equador. O passo seguinte foi planejar a própria fuga. Carlos morava na Venezuela com a namorada, Marifer Vargas, e a enteada, de 13 anos. O plano do casal era ele ir na frente, pedir refúgio, procurar trabalho e arrumar um lugar para os três morarem.

Carlos mudou-se para São Paulo em março de 2017 em busca de outras oportunidades de trabalho. Em Fortaleza, onde conseguiu o refúgio e tirou sua carteira de trabalho sem complicações, trabalhou em projetos culturais com uma ONG, mas estava à procura de algo mais próximo do que fazia na Venezuela. Em São Paulo, morou por seis meses em dois abrigos diferentes. Nesse tempo, conseguiu alguns trabalhos provisórios, um deles na equipe de filmagem de um centro cultural que estava inaugurando. A maioria, no entanto, eram funções que jamais pensou que desempenharia, como lavar louça e limpar carpetes.

Carlos é um homem educado e sorridente. Fala português bem, com pouco sotaque, de forma clara e pausada. Não evitou os assuntos da perseguição, do sequestro e da violência que sofreu e não escamoteou a dor. Contudo, aparenta ter superado o episódio. “É um processo que é lento, mas a gente tem que ter paciência. Eu falo para elas: a vida que a gente tinha na Venezuela ficou lá. Tínhamos conforto, a família estava mais próxima, mas aqui somos só nós três e temos que começar do zero. É uma nova chance que a vida dá, e nem sempre ela dá essa oportunidade. Tem que ter essa consciência para passar por um processo tão traumático.”

Além da perseguição sofrida pelo companheiro, dois motivos foram decisivos para Marifer na decisão de se refugiar no Brasil: o sentimento de insegurança e a falta de liberdade. Nos últimos anos, ela relata ter percebido um aumento na violência e no número de assaltos. Já não se sentia segura para sair sozinha, ou com a filha, na rua depois das 17h.

Quando a mãe diz isso, Miranda assente com a cabeça, em silêncio. Pergunto o que ela pensa em fazer no futuro. Ela responde que hoje se vê diante de um abecedário de possibilidades, mas que, talvez, vire professora, como o pai e a mãe, ou jornalista, como Carlos. Ou, ainda, escritora. Pergunto, então, como foi ter passado por tudo isso. Miranda me diz que, para ela, a vida é como um livro. “Eu tenho o meu livro da Venezuela, que eu terminei. Agora eu tenho esse livro novo. Eu estou na primeira página e eles estão me ajudando a entendê-lo.”


Nisreen Alkubaise
Iraque

Nisreen Alkubaise é uma mulher iraquiana de 55 anos, desinibida, expansiva e falante. Gosta de se vestir bem e tinge os cabelos de loiro. Tem cinco filhos – três homens e duas mulheres – e seis netos. No Iraque, levava uma vida de alto padrão. Nisreen morava em um bairro de classe alta em Bagdá e era diretora de uma escola infantil particular conhecida na cidade. Seu marido era general da Força Aérea iraquiana.

“Nunca pensei que precisaria deixar minha vida para trás e sair do país, porque, para mim, a vida estava muito linda. Não precisava de nada. Mas todo iraquiano sofre, todo dia tem uma guerra no Iraque”, diz. Na década de 1980, Nisreen perdeu familiares e um irmão no conflito contra o Irã, que durou até 1988. Em 1990, o Iraque invadiu o Kuwait, gerando a tensão que culminaria na Guerra do Golfo, entre os iraquianos e os EUA.

No comecinho dos anos 2000, pressentindo um novo conflito, Nisreen e o marido acharam melhor tirar os filhos mais velhos (um de 16 e outro de 18) do país. “Meu marido era do Exército e não queria ver os filhos indo para a guerra”, conta. Como o cunhado morava em São Paulo, foi esse o destino dos garotos.
O pressentimento da família se justificou com a invasão americana ao Iraque, em 2003. Para Nisreen, esse foi o pior momento da história recente de seu país. Os americanos bombardearam Bagdá e ela viu seu bairro vir abaixo. Com a queda de Saddam Hussein, o Iraque virou terra de ninguém. Os poucos que restaram nas cidades estavam à mercê de milícias e de bandos que sequestravam, roubavam e matavam.

Certo dia, levando a filha mais velha para a escola, Nisreen percebeu que estava sendo seguida por um carro. Conseguiu se refugiar na casa de um vizinho. Passou horas sitiada, até conseguir que o irmão e um grupo de segurança privada viessem em seu socorro. Mais tarde, descobriu que a dupla que eram sequestradores. Foi uma situação decisiva para a família, mas ainda levaria mais um ano até que se convencessem de que o melhor a fazer era deixar o Iraque.

Em 2005, Nisreen, o marido, o filho mais novo e a filha mais nova foram até a Jordânia, de onde solicitaram o refúgio à embaixada brasileira. Demorou ainda cerca de onze meses para que conseguissem a permissão em definitivo. No dia 26 de julho de 2006 chegaram, finalmente, ao Brasil. Algum tempo depois, a filha mais velha e o marido vieram.

Nisreen descreve sua família como uma tradicional família muçulmana, fechada em seus costumes. Pelo seu relato, contudo, percebe-se que, em grande medida, eles se integraram bem à cultura brasileira. Os dois filhos mais velhos casaram-se e tiveram filhos com mulheres brasileiras., por exemplo. “A vida dos meus filhos é praticamente brasileira. Eles são brasileiros, as mulheres são brasileiras e os filhos são brasileiros”, afirma Nisreen.

Para a filha mais nova, que cursa  faculdade de odontologia, no entanto, a situação é diferente. Casar-se com um brasileiro está fora de cogitação.

Todos os homens trabalham com comércio, tocam as próprias lojas. Nisreem cuida da casa e, vez ou outra, participa de eventos em que divulga a culinária árabe – diz, sem esconder o orgulho, ser uma cozinheira de mão cheia.

A filha casada também se dedica aos cuidados do lar. A mais nova trabalha em um consultório odontológico. Ela afirma ter tudo o que precisa no Brasil e não pensa em voltar para o Iraque: “Em qualquer lugar onde há uma vida com trabalho e comida, você está bem. Essa será sua casa”, pondera ela, otimista.


Sylvie Mutiene Ngkang
República Democrática do Congo

Sylvie Mutiene Ngkang não faz ideia do lugar em que desembarcou no Brasil, no dia 18 de dezembro de 2013. Depois de 40 dias num navio, Sylvie aportou em uma cidade estranha com um bebê de um ano no colo, o menino Winne, e mais a filha Jessy, de três anos. Ela se lembra de pegar um táxi e de, cerca de duas horas depois, chegar ao centro de São Paulo, pedindo ajuda como podia, com gestos e em francês.

Procurava um lugar para passar aquela noite e um meio de trocar o dinheiro congolês que tinha pela moeda local. Foi levada até um africano que falava sua língua e tinha um hotel na região central. Ela explicou ao homem que vinha fugida do Congo e que precisava de abrigo. Ele deixou Sylvie e as crianças dormirem na recepção do hotel aquela noite e no dia seguinte levou-os ao Centro de Referência para Refugiados Cáritas.

Sylvie fugiu do Congo depois de ter sua casa invadida por militares do governo de Joseph Kabila, presidente eleito em 2006, mas que tem sido questionado por posições antidemocráticas. O marido de Sylvie, Jean, militante do partido de oposição UDPS (União para a Democracia e o Progresso Social), havia desaparecido depois de uma manifestação contrária a Kabila. Horas antes de os soldados baterem à sua porta ela recebeu uma ligação do esposo. Jean estava nervoso, disse a ela que tinha sido preso, que conseguira escapar, e que era para ela sair de casa. “Eu não fui e naquela noite eles vieram procurar meu marido. A violência que eu vi me deixou assustada. Eu só pensei em salvar meus pequenos”, diz. Passou um tempo com os filhos no interior, mas não se sentia segura. Foi quando decidiu partir para o Brasil.

Desde aquele telefonema, Sylvie não teve notícias do marido. Para ela, Jean tinha morrido. Ela contou com a ajuda da Cáritas para procurar emprego, mas também fez buscas por iniciativa própria, se apresentando de porta em porta às pessoas. Conseguia alguns bicos, mas nada definitivo.

Certo dia, precisou de remédios para o filho doente, mas não tinha dinheiro para comprar. Foi até a Cáritas pedir auxílio. Enquanto esperava o atendimento, ouviu uma funcionária dizer o nome do seu marido. Levantou na hora e foi até a bancada dizer que queria se encontrar com aquele homem que a mulher tinha mencionado, que achava que era seu Jean. Ligaram para o albergue que constava no registro daquele nome, mas ele não estava no momento. Deixaram um recado para que ele comparecesse no dia seguinte à Cáritas.

Jean e Sylvie se reencontraram no Brasil por um incrível acaso e voltaram a viver juntos. Depois do encontro na Cáritas, juntaram esforços para conseguir pagar um aluguel e sair do abrigo. Tiveram outra filha, Beatrice Gabriela, e Sylvie conseguiu um emprego fixo na creche em que deixava a caçula. Com o dinheiro, alugaram um quarto e sala. Nessa mesma época, Sylvie começou um curso de copeira hospitalar.

Logo a creche fechou e tiveram que se virar de novo. Sylvie acabou conseguindo um trabalho fixo em um hospital no Tatuapé, na zona leste de São Paulo. Arrumaram uma casa maior e próxima dali uma escola para as crianças.

Há quatro anos no Brasil, Sylvie fala português claramente, mas com um sotaque marcante. Os filhos falam como brasileiros. Winne, que chegou com apenas um ano de idade, foi alfabetizado aqui. Mal fala francês, mas entende.

Sylvie ainda sonha em voltar para o Congo, sente muita falta da família. Tem tentado diminuir essa saudade trazendo os parentes para viver no Brasil. Já trouxe a mãe e um irmão, mas ainda falta muita gente (são oito irmãos ao todo, mais o pai).

A vida não é fácil no Brasil, mas, para Sylvie, ainda está melhor do que lá. “Aqui eu posso trabalhar e sustentar minha família, lá é muito difícil arrumar emprego. A gente nunca está totalmente satisfeita, eu ainda não achei tudo o que eu procuro, mas a vida continua, e a luta também”.


Leonor e Daniela Solano
Colômbia

Daniela Solano tinha apenas 12 anos quando o pai contou a ela e às irmãs que teriam de se mudar para o Brasil, onde a mãe, Leonor, os esperava. Há meses eles vagavam pela Colômbia, se hospedando na casa de amigos e parentes, em diferentes cidades.

As meninas sabiam que algo não ia bem, mas não sabiam exatamente o quê. A mãe tinha viajado de “férias” para o Brasil e sua volta era sempre adiada. Naquele momento, o pai disse a elas que passariam em Silvia, povoado onde moravam, arrumariam as malas e partiriam sem avisar a ninguém, deixando tudo para trás.

Leonor e o marido chegaram a Silvia em 1995 com três filhas pequenas para ajudar na reconstrução de comunidades indígenas da região afetadas por um terremoto. Acabaram ficando. Continuaram trabalhando com a comunidade, tiveram mais uma filha e não tinham planos de sair.

No início dos anos 2000, o conflito entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), os grupos paramilitares de direita e o Estado colombiano se intensificou. A situação era mais delicada no interior do país, como no vilarejo de Silvia.

Mesmo sem tomar partido, Leonor e o marido se viram presos em meio ao fogo cruzado. Pela natureza do projeto social que desenvolviam, hospedavam diferentes pessoas em casa. Algumas delas, descobririam mais tarde, vinculadas às milícias rivais. Logo passaram a receber ameaças.

Em 2002, a irmã de Leonor, que morava em São Paulo, deu a ela uma passagem para o Brasil para que ela pudesse espairecer por um tempo. O marido e as filhas começaram, então, o périplo pela Colômbia, esperando que a poeira baixasse em Silvia. As intimidações, no entanto, continuaram, e ambos já não se sentiam seguros. Aconselhada pela irmã, Leonor procurou a Polícia Federal brasileira e pediu refúgio. O resto da família veio aos poucos, à medida que conseguiam dinheiro para pagar as passagens.

Nos primeiros meses, moraram com a irmã de Leonor, em Aldeia da Serra, em Santana de Parnaíba, nos arredores da capital paulista. Leonor teve muita dificuldade em arranjar trabalho. Começou a se virar dando aulas de espanhol, o que a sustenta até hoje. Com um pouco mais de estabilidade, conseguiram alugar um apartamento no centro de São Paulo.

Ainda nos primeiros anos no Brasil, o casamento de Leonor terminou. O marido se afastou e Leonor criou praticamente sozinha as quatro filhas. O dinheiro era contado e as meninas foram estudar em escolas públicas. Daniela foi perseguida por um grupo de colegas, que chegaram a ameaçá-la fisicamente. Graças à amizade com um professor de escola, conseguiram bolsas para voltar à instituição. Foram tempos complicados, mas superados.

Em fevereiro de 2016, Daniela voltou à Colômbia pela primeira vez desde a partida. Seu plano era refazer a rota que ela, o pai e as irmãs fizeram nos meses em que perambularam pelo país e passar um tempo em Silvia. Havia uma certa expectativa de reencontrar um território quase mítico, que ficara na memória, e de poder, finalmente, se despedir daquelas pessoas e daquele lugar. Ficou na Colômbia por seis meses e quase não voltou. “Foi muito importante para fazer as pazes comigo e com esses fantasmas da infância”, diz.

Ao entrar em contato com as origens colombianas, ela pode perceber, também, a sua parte brasileira. Ela diz, com tom de brincadeira, mas com certa seriedade, que teve uma crise de identidade: “Eu vim em uma idade importante e já estou no Brasil há tantos anos que eu me sinto metade brasileira. Eu cresci e fiz raízes aqui também”.

Para Leonor, o mais difícil no processo de refúgio foi, justamente, se identificar em outro tecido social. Para ela, um refugiado é alguém desenraizado de sua terra. “Você fica no ar, perde sua identidade, porque não tem referências. Você chega a um lugar onde tudo é diferente e você não tem um espaço ainda, está totalmente perdido. Assim chega um refugiado. Eu ainda tive a minha irmã para me ajudar. Contudo, quando você é obrigado a sair do seu lugar, a sua condição é diferente, seu estado emocional é outro. Não é a mesma coisa que decidir por vontade própria mudar de país. Não é como uma aventura. Mas nós mulheres somos fortes. Nós somos fortes. Reinventamos a vida, é o que fazemos”.

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