Mascarades | Bienal Sesc de Dança

02/09/2025

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Foto: Queila Fernandez

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Entrevista com Ndoho Ange | Interpretação

Como foi o processo de interpretar Mascarades, obra de Betty Tchomanga?
Há um provérbio haitiano que diz: “Atrás da montanha, há uma montanha”. Minha experiência com Mascarades lembra isso. É um processo que vivi como um ritual: você avança, tropeça, passa um limiar, descobre outra paisagem. Tudo o que eu aprecio está lá, a voz que é levada ao limite, o texto que surge do corpo, o movimento repetido que cansa e que abre. E a peça é generosa, deixa espaço para que cada um contribua. Eu coloquei nela minhas montanhas, minhas risadas e minhas dúvidas. E encontrei espaços de profunda alegria. Cresci com o mito de Mami Wata, e o que me atrai nela é justamente essa ambivalência: um ser atraente e indescritível, livre em suas contradições. Admirei profundamente, na direção de Betty, esse descentramento do mito. Ir ao encontro de Mami Wata não como uma projeção de nossos fantasmas, mas como uma presença em si mesma, sem procurar seduzir ou se justificar. No palco, é isso que exploro: um espaço onde Mami Wata não é um objeto de desejo, mas um ser que se revela. Ela é um território em movimento, um convite a questionar a relação que eu tenho com o meu corpo, o meu canto interior.

As imagens que emergem, do mito ao humano, representam mensagens ocultas que precisam ser decifradas. Há sempre mais para ver do que o que está visível.

Foto: Queila Fernandez
Foto: Queila Fernandez

A coreografia parte de um movimento, o salto. De que maneira você trabalha essa pulsação e que imagens emergem na performance?
Esse movimento contínuo me remete à frase de Trismegisto: “O que está em cima é como o que está em baixo”. Na espiritualidade egípcia antiga, essa ideia existe no casal Nut e Geb, deusa do céu e deus da terra. Eles encarnam a ligação inseparável entre o que está acima e o que está abaixo. Para mim, o salto repetido é como entrar nesse mito vivo: sentir a pulsação do solo, da terra, para me elevar em direção ao céu. Meu corpo se torna um canal, uma ponte entre esses dois mundos. É um gesto aparentemente simples, mas, ao repeti-lo, torna-se exaustivo e poético. Há um ponto em que o corpo se liberta, encontra um segundo fôlego, muda de vibração. Sinto um vaivém constante entre o enraizamento e a elevação. E é aí que o corpo se metamorfoseia e ressoa: o que está no alto é tal como o que está no baixo. Para mim, as imagens que emergem, do mito ao humano, representam mensagens ocultas que precisam ser decifradas. Elas nos lembram que há sempre mais para ver do que o que está visível.

Como você enxerga o papel da dança na sociedade atual e o que ela pode mobilizar ou revelar sobre nossos tempos?
É difícil para mim dizer exatamente, pois ainda não tenho distância suficiente. Mas percebo que a dança pode ser ao mesmo tempo um ato de resistência, um espaço de diálogo, um ritual. É um lugar onde o corpo retoma seu lugar, onde pode se expressar. Hoje, vejo que há mais espaços para isso: lugares, maneiras de pensar e criar a dança fora dos contextos tradicionais. É uma forma de devolver o poder ao gesto. Acredito que há uma espécie de urgência. Uma urgência de se manifestar e de se curar individual e coletivamente.

Foto: Queila Fernandez

Sinopse

Mascarades

A figura mitológica de Mami Wata (Mãe Água ), deusa das águas e das profundezas da noite, permeia o espetáculo. Divindade em forma de sereia, ela está presente em culturas de matriz africana – no Brasil, tem sua versão em Iemanjá – e carrega uma série de ambiguidades. É, ao mesmo tempo, ícone de beleza e de monstruosidade, repleta de poder e de sexualidade. O solo criado pela franco-camaronesa Betty Tchomanga examina as camadas dessa personagem e os símbolos que ela evoca. A coreografia se constrói a partir de um único movimento: o salto. Essa pulsação é trabalhada pela intérprete (nas sessões daqui, Ndoho Ange está em cena) como um gesto visceral e repetitivo, acompanhado de batidas de música eletrônica. A vibração e as expressões desse corpo pulsante fazem surgir uma infinidade de imagens e facetas, que passam do mitológico ao humano e exalam metáforas sobre o desejo e o prazer.


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Interview with Ndoho Ange | Performer

How was the process of performing Mascarades, a work by Betty Tchomanga?
There’s a Haitian proverb that says, “Behind the mountain, there is another mountain.” My experience with Mascarades feels like that. It has been a process I lived as a ritual — you move forward, stumble, cross a threshold, and discover another landscape. Everything I love is there: the voice taken to its limits, the text that emerges from the body, the repeated movement that exhausts and opens. And the show is generous, leaving space for each of us to contribute. I brought my own mountains, my laughter, and my doubts into it, and I found spaces of deep joy. I grew up with the myth of Mami Wata, and what attracts me to her is precisely her ambivalence — a captivating, indescribable being, free in her contradictions. I deeply admired Betty’s direction in decentering the myth, approaching Mami Wata not as a projection of our fears or fantasies, but as a presence in her own right, not seeking to seduce or justify herself. That is what I explore on stage: a space where Mami Wata is not an object of desire, but a being who reveals herself. She is a territory in motion, an invitation to question my relationship with my body and my inner voice.

The emerging images, from myth to human, are hidden messages waiting to be deciphered. There is always more to see than what is visible

Foto: Queila Fernandez
Foto: Queila Fernandez

The choreography revolves around a single movement — the jump. How do you work with this pulsation, and what images emerge in performance?
This continuous movement reminds me of the phrase by Hermes Trismegistus: “As above, so below.” In ancient Egyptian spirituality, this idea appears in the deities Nut and Geb — goddess of the sky and god of the earth — who embody the inseparable link between what is above and what is below. For me, the repeated jump is like entering that living myth: feeling the pulse of the ground, of the earth, to rise toward the sky. My body becomes a channel, a bridge between these two worlds. It is an apparently simple gesture that, through repetition, becomes both exhausting and poetic. At a certain point, the body lets go, finds a second wind, and shifts its vibration. I feel a constant oscillation between grounding and elevation. That is when the body metamorphoses and resonates — what is above mirrors what is below. For me, the emerging images, from myth to human, are hidden messages waiting to be deciphered. They remind us that there is always more to see than what is visible.

How do you see the role of dance in today’s society and what can it mobilize or reveal about our times?
It is hard for me to say exactly, as I don’t yet have enough distance. But I sense that dance can be both an act of resistance and a space for dialogue and ritual. It is a place where the body reclaims its agency, where it can truly express itself. Today, I see more spaces for this — new ways and places to create and think about dance outside traditional contexts. It is a way of restoring power to gesture. I believe there is a sense of urgency — an urgency to express ourselves, to heal both individually and collectively.

Synopsis

Mascarades

The mythological figure of Mami Wata — Mother of Water —, goddess of the waters and the night’s depths, permeates this piece. A mermaid-shaped deity present in African diasporic cultures, she shares roots with Brazil’s Yemanjá and embodies deep ambiguities, being at once an icon of beauty and monstrosity, power and sexuality. The solo by French-Cameroonian artist Betty Tchomanga explores the many layers and symbols of this character. The choreography is structured around a single movement — the jump. This pulsation is performed by the interpreter (in Brazil, Ndoho Ange) as a visceral, repetitive gesture, set to electronic beats. The vibration and expressions of this pulsating body generate myriad images and facets that traverse the mythical and the human, exuding metaphors of desire and pleasure.

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