Bibliotecas vivas

30/01/2026

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Lugar de encontros, bibliotecas se fortalecem como espaços onde o fomento à leitura convive com a promoção da cidadania e o acolhimento de pessoas diversas

Leia a edição de Fevereiro/26 da Revista E na íntegra.

POR LÚCIA NASCIMENTO

No famoso conto “A Biblioteca de Babel”, do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), um bibliotecário praticamente cego conduz leitores e leitoras por uma infinita e misteriosa biblioteca. Formada por galerias hexagonais com numerosas estantes, a Biblioteca de Babel contém todos os livros do mundo e serve como metáfora de uma realidade a ser decifrada. Ela é o universo: interminável, infinito.

Apesar de as bibliotecas continuarem sendo detentoras de alguns dos maiores acervos de livros que os seres humanos podem acessar, é também verdade que o papel social delas se transformou muito nas últimas décadas. Mais do que disponibilizarem obras gratuitamente para a população, elas também têm se firmado como um lugar de encontro, onde a leitura e a fruição são incentivadas e o acesso à cidadania se consolida. 

“Uma frase de que eu gosto muito diz que as bibliotecas ruins oferecem acervo e as bibliotecas boas oferecem serviços. Mas as bibliotecas excelentes são para as pessoas. As pessoas precisam ser a finalidade das bibliotecas no mundo de hoje”, pondera Sueli Nemem, supervisora geral do Sistema Municipal de Bibliotecas da cidade de São Paulo

No lugar do silêncio obrigatório e dos livros enfileirados em prateleiras, ganham espaço as leituras coletivas, as performances inspiradas em textos literários, a conversa entre pessoas que pertencem a um mesmo território. Mas o que torna uma biblioteca um espaço de convivência e de promoção da cidadania?

Aline Frederico, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), lembra que o conceito de biblioteca viva atualiza a ideia de que estes locais funcionem apenas como um depósito de livros ou, no máximo, lugar para acesso por meio de empréstimos. “Uma biblioteca viva incentiva o diálogo com a comunidade, que pode se apropriar desse espaço”, afirma. A biblioteca, assim, se torna ambiente central para o acesso e a produção de cultura, de aprendizado e de convivência. O acervo e os demais recursos seguem sendo fundamentais, mas orientam-se com o foco nos cidadãos e nas comunidades de cada região.

Para além da literatura
De acordo com a sexta edição da pesquisa Hábitos Culturais, realizada em 2025 pelo Observatório Fundação Itaú com o apoio técnico do Datafolha, 65% dos entrevistados já visitaram bibliotecas. A pesquisa, realizada com pessoas entre 16 e 65 anos, nas cinco regiões do país, indicou que, desse total, apenas 20% dos entrevistados frequentaram bibliotecas nos doze meses anteriores à pesquisa. A porcentagem, apesar de ainda ser baixa, é superior às registradas em 2022 e 2023, quando apenas 11% e 14% dos entrevistados, respectivamente, disseram ter visitado uma biblioteca nos doze meses anteriores à pesquisa. 

Para fomentar os encontros e ampliar os públicos que frequentam esses espaços, incentivando o interesse pelos livros e pela leitura, muitas bibliotecas têm investido em atividades culturais que extrapolam a literatura, sem deixar de lado a relevância dos livros para a formação cidadã. Como exemplo dessa atuação, as bibliotecas municipais da cidade de São Paulo realizaram 90 atividades gratuitas em apenas uma semana, no mês de dezembro de 2025. “Nós entendemos as programações como atrativo para trazer as pessoas para as bibliotecas”, afirma Sueli Nemem.

A Biblioteca Hans Christian Andersen, no Tatuapé, zona Leste da capital, por exemplo, já promoveu atividades que iam desde oficinas de pintura em aquarela e curso de inglês até encontros com autores premiados, como o que contou com a presença da ganhadora do Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa 2025, a escritora Silvana Tavano.

Já a Biblioteca Mário de Andrade, no Centro de São Paulo, mantém uma programação regular que inclui um dos clubes de leitura mais longevos da cidade, o Prosa da Mário. Outras linguagens artísticas, como o cinema, a música e as artes cênicas, também são contempladas periodicamente na programação. Em dezembro de 2025, o CineClube da Mário exibiu o filme Malês (2024), dirigido por Antonio Pitanga, e o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo se apresentou no auditório da biblioteca.

No Centro de São Paulo, a Biblioteca Mário de Andrade promove uma programação regular que inclui visitação e clube de leitura, além de atividades de cinema, música e artes cênicas, aproximando a população de diversas linguagens artísticas (foto: Ciete Silvério/ Secom CMSP).

Acolhimento e pertencimento
No livro The Great Good Place (1989) [O melhor lugar], o sociólogo estadunidense Ray Oldenburg (1932-2022) defende a importância de um “terceiro lugar” de encontro, para além da casa (primeiro lugar) e do local de trabalho (segundo lugar). Esse “terceiro lugar” seria um espaço de convivência comunitária e de trocas, onde fosse possível gerar propósito e pertencimento, contribuindo para o bom funcionamento da sociedade civil e da democracia. Na obra Living Libraries: The House of the Community Around the World (2021) [Bibliotecas vivas: o lar da comunidade ao redor do mundo], publicada pela Biblioteca de Utrecht, na Holanda, as bibliotecas são apontadas como o exemplo perfeito desse “terceiro lugar”. Os organizadores da coletânea defendem que, com o advento da informática e dos documentos digitais, elas precisaram se reinventar e deixaram de ser apenas locais onde encontramos coleções de objetos, principalmente livros, para serem também centros de produção de informação e, sobretudo, de acolhimento. “A biblioteca precisa ser um território para ser apropriado pela comunidade na qual está localizada. E, para isso, a gente sempre tenta nortear o acolhimento de forma individualizada, conhecer cada pessoa que frequenta o espaço. Isso faz com que as pessoas se sintam importantes dentro da biblioteca”, ressalta Sueli Nemem. A gestora lembra ainda que tal conceito também se aplica a como as regras do espaço serão comunicadas. Afinal, “quando você entra num lugar que é todo cinza, com móveis muito sérios, plaquinhas para fazer silêncio, não comer, não beber, não usar celular, um lugar cheio de nãos, isso não te acolhe”.

Existe, ainda, um cuidado em ampliar as possibilidades de inclusão e de pertencimento das pessoas em seus territórios e grupos sociais. “As bibliotecas são hoje o principal equipamento de cultura no Brasil. Mesmo em bairros e cidades menores, que não têm teatros, as bibliotecas estão presentes”, lembra Aline Frederico. “Por isso, elas podem ter um papel fundamental no letramento digital e no uso de tecnologias para a cidadania. Desde oficinas que auxiliem a criar um currículo até cursos que orientem idosos a como usar aplicativos de saúde”, ilustra.

Reescrevendo histórias
Em São Paulo, o conceito de bibliotecas vivas foi implantado a princípio com os projetos das bibliotecas estaduais instaladas no Parque da Juventude e no Parque Villa-Lobos, ambos na capital. E, nesses casos, tudo começou com uma revitalização de espaços degradados da cidade.

Localizada em Santana, na zona Norte paulistana, a Biblioteca de São Paulo ocupa a área onde antes existiu a Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru. Em 1992, o local foi palco de um dos massacres mais violentos da história da cidade, considerado uma grave violação dos direitos humanos. A prisão foi desativada e parcialmente demolida em 2002, substituída pelo Parque da Juventude, onde hoje está o espaço inspirado na Biblioteca de Santiago do Chile – espaço que nasceu a partir da análise das melhores práticas adotadas por bibliotecas públicas, com foco na construção autônoma do conhecimento e na compreensão de que cada visitante traz consigo conhecimentos que podem ser trocados com outras pessoas.

Para o pesquisador e bibliotecário chileno Gonzalo Oyarzún, que assessorou programas de planos de leitura no Brasil e escreveu sobre essas experiências, “desde o início de suas atividades, a biblioteca é utilizada como campo experimental para práticas de leitura, cultura e cidadania. Seu funcionamento baseia-se em uma premissa muito simples: mudar o foco do acervo para a comunidade atendida”.

A Biblioteca do Parque Villa-Lobos, por sua vez, na zona Oeste da capital paulista, foi instalada no lugar onde antes existia um depósito de lixo que foi transformado em parque e inaugurado em 1994. Ali também as ações e os serviços são organizados não apenas para proporcionar acesso à literatura, à cultura e ao conhecimento, mas para incentivar debates e atividades criativas, permitindo que as pessoas tenham liberdade para utilizar o acervo, conhecer outras pessoas e trocar experiências.

Para Giovanna Sant’Ana, superintendente técnica na SP Leituras, responsável pela gestão da Biblioteca Parque Villa-Lobos e da Biblioteca de São Paulo, uma série de fundamentos norteia essas ações, para que os objetivos sejam alcançados. “Incentivar e fortalecer ações voltadas ao direito e ao desenvolvimento do gosto pela leitura desde a primeira infância, além de garantir educação permanente [é um dos principais pilares]”, pondera. 

Atividade de circo na Biblioteca Raul Bopp, no bairro da Aclimação, em São Paulo (foto: SMCEC/ Divulgação).

Espaço de liberdade
Liberdade é a palavra que define este ideal de bibliotecas onde as pessoas importam tanto quanto os livros. Se antes esses estabelecimentos eram essencialmente lugares prescritivos, onde seguir as regras era o mais importante, atualmente a ideia é que as pessoas se sintam à vontade, com menos normas rígidas. Há, portanto, um redirecionamento do olhar. 

“Um dos princípios fundamentais, nesse sentido, é o entendimento da biblioteca como um espaço de liberdade: liberdade de expressão, de escolha sobre o que, como e quando ler, e de acesso amplo e irrestrito a todo tipo de informação, sem qualquer forma de censura ideológica, política ou religiosa”, afirma Giovanna Sant’Ana.

Fomentar ambientes que facilitem a leitura, tentando despertar as pessoas para as potencialidades da escrita, pode ser um dos melhores modos de incentivar o gosto pelos livros por parcelas cada vez mais amplas da população. “Muitos anos atrás, existia uma demanda grande de pesquisa escolar nas bibliotecas públicas, quando não existia ainda no país uma política de bibliotecas escolares. Os estudantes eram o principal público. Depois isso foi se alterando. Os buscadores de informação trouxeram outros acessos. As bibliotecas, então, passaram a ser lugares que, além de oferecerem conteúdo, também geram conteúdo”, aponta Sueli Nemem. E essa é uma tendência que deve se fortalecer nos próximos anos.

A Seção Circulante da Biblioteca Mário de Andrade conta com mais de 53 mil livros que podem ser consultados no local ou retirados por empréstimo (foto: Ciete Silvério/ Sescom CMSP).

Para as próximas décadas, a aposta também está na importância de ofertar recursos tecnológicos para a realização de diferentes iniciativas culturais, além de ampliar os acervos virtuais, sem deixar de lado o acolhimento presencial nas bibliotecas. Atualmente, tanto o estado quanto o município de São Paulo oferecem acesso a acervos virtuais, que podem ser consultados por pessoas do Brasil inteiro. A BibliON, biblioteca pública digital do estado de São Paulo, teve origem em 2022, e hoje integra acervo, serviços e programação cultural. “A importância desse modelo hoje em dia é que a biblioteca conta com um acervo digital amplo e inclusivo, disponibilizando milhares de títulos em diversos formatos, incluindo livros digitais, audiolivros, podcasts, vídeos e outros conteúdos acessíveis, permitindo que leitores de diferentes perfis e regiões brasileiras possam explorar o universo da literatura e da leitura de forma prática e gratuita”, afirma Giovana. As bibliotecas virtuais também promovem atividades como clubes de leitura e cursos, ampliando a oferta de atividades culturais para as pessoas que, porventura, não possam frequentar presencialmente esses espaços.

O narrador de Borges no conto “A Biblioteca de Babel” não previu as bibliotecas como elas são hoje. Ele suspeitava que a espécie humana estava a ponto de se extinguir, mas que a biblioteca permaneceria, infinita e incorruptível. Na atualidade, no entanto, é difícil pensar na existência da biblioteca sem as pessoas. As bibliotecas só existem porque a humanidade existe, e nisso está seu principal trunfo e potência. É o contato entre pessoas que talvez nunca se conhecessem de outras maneiras, e a criação de laços possíveis, o que talvez nos permita repensar os modos de atuação no mundo e na sociedade. As bibliotecas humanas são uma das nossas formas mais poderosas de derrubar barreiras. 

para ver no Sesc

Além de acervo diverso e espaço para leitura, bibliotecas do Sesc São Paulo realizam atividades educativas, democratizando conhecimentos e promovendo a cidadania (foto: Nilton Fukuda)


Da leitura à convivência
Em 28 bibliotecas localizadas na capital, interior e litoral, Sesc São Paulo promove literatura, cidadania e diálogos

As bibliotecas do Sesc São Paulo são espaços de encontro, de convivência, de pertencimento, de acolhimento. Atualmente, são 28 bibliotecas no estado: 22 fixas, em unidades da capital, do interior e do litoral; outras seis integram o projeto BiblioSesc, formado por bibliotecas volantes.

Mais do que disponibilizarem acervos, “as bibliotecas do Sesc são espaços vivos de cultura, educação e convivência social. Por meio de ações artísticas e formativas, promovem o hábito da leitura, o estímulo à imaginação e à criatividade, a democratização do acesso à cultura e o incentivo à aprendizagem”, ressalta Thaís Heinisch, especialista em Literatura e Bibliotecas da Gerência de Ação Cultural do Sesc São Paulo. Entre as programações realizadas, há encontros com escritores, sessões de mediação de leitura e narração de histórias, leituras coletivas e debates. “Além disso, como espaços de convivência, favorecem o encontro, o diálogo e a troca de experiências entre pessoas diversas, fortalecendo os vínculos comunitários, a inclusão social e o sentimento de pertencimento”, completa Thaís. 

Entre os destaques de 2026, estão os diversos clubes de leitura realizados nas unidades do Sesc, como o Cai na Prosa, realizado pela unidade de Jundiaí, que discute obras solicitadas em vestibulares da Fuvest e da Unicamp, traçando paralelos com a contemporaneidade, e o Clube de Leitura – Lendo a América Latina, no Sesc Pinheiros, que foca em autoras contemporâneas e editoras independentes.

Pinheiros
Clube de Leitura – Lendo a América Latina
Com Vinicius Barbosa (Latina Leitura). A partir de 19/2. GRÁTIS. Saiba mais em sescsp.org.br/pinheiros

Jundiaí 
Cai na Prosa
A partir de 25/2.​​​​​​ Retirada de ingressos 1h antes, na Loja Sesc.​ Saiba mais em sescsp.org.br/jundiai

Avenida Paulista 
Clube do Livro
Com Rodrigo Casarin. A partir de 25/3.​​​​​​ GRÁTIS.​ Saiba mais em sescsp.org.br/avenida-paulista

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