
Um dos criadores d’O Pasquim, cartunista transformou o riso em resistência e a boemia em arte (foto: Guilherme de Sousa)
Leia a edição de Fevereiro/26 da Revista E na íntegra.
POR DIEGO OLIVARES
Cada artista tem seu processo criativo. Alguns pesquisam bibliotecas inteiras, percorrem museus, colecionam referências. Outros preferem o mergulho interior, vasculhando os próprios traumas e angústias. Já o cartunista Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe – ou simplesmente Jaguar, como o país aprendeu a chamá- -lo – encontrava suas melhores ideias na mesa de bar.
Foi justamente em um bar de Ipanema, na capital fluminense, o Jangadeiro, então ponto de encontro da boemia carioca, que ele se sentou com o amigo e jornalista Tarso de Castro (1941-1991), numa noite de setembro de 1969. Entre um gole e outro, decidiram criar um jornal sem patrões, sem hierarquia e com toda a liberdade que a ditadura tentava sufocar. Recrutaram ainda o jornalista Sérgio Cabral (1937-2024), o publicitário Carlos Prósperi (1930-2003) e o cartunista Claudius Ceccon. Nascia O Pasquim, símbolo de irreverência, contestação e, por mais de duas décadas, um espelho debochado do Brasil.
O nome foi invenção de Jaguar. Pegou o termo pejorativo usado para rotular publicações caluniosas e sem credibilidade e o vestiu de orgulho. Era uma forma de se antecipar aos críticos e, também, uma carta de intenções: irônica e provocativa. Não que aquilo tudo fosse uma brincadeira para ele. É impossível dissociar o veículo da trajetória de seu criador. Jaguar foi o único que esteve do primeiro ao último dia da redação, por onde passaram Henfil (1944-1988), Ziraldo (1932-2024), Millôr Fernandes (1923-2012), entre outros, e colaboradores do calibre de Paulo Francis (1930-1997), Chico Buarque e Ruy Castro. Criou dezenas de personagens, o mais famoso deles, Sig, um rato neurótico e freudiano que funcionava como consciência do jornal.
“Os próprios companheiros reconheciam que Jaguar era o corpo e a alma d’O Pasquim”, escreveu João Baptista M. Vargens, autor de Nos bastidores d’O Pasquim (GMS, 1999). “Ele chegou a empenhar recursos próprios para manter o jornal vivo, mesmo perseguido pela ditadura, com edições apreendidas e a sede incendiada”, recorda. De fato, Jaguar e seus colegas chegaram a ficar três meses presos em 1970, depois de uma colagem que parodiava o famoso quadro Independência ou morte! (1888), de Pedro Américo (1843-1905), em que D. Pedro (1798-1934) aparece imponente em seu cavalo, às margens do Ipiranga. Na versão d’O Pasquim, o imperador bradava: “Eu quero é mocotó!”, refrão de uma música de Jorge Ben Jor.
Nem o período na prisão militar foi capaz de azedar seu humor. “Nunca bebi tanto. Não é piada: foi a fase mais feliz da minha vida. Acordava e pensava: ‘O que tenho para fazer hoje? Nada!’”, disse Jaguar, em entrevista ao jornal O Globo, em 2014. “Subornava os guardas para ter cachaça. Bebia do gargalo e jogava num matagal atrás da cela.”
Nos bastidores, O Pasquim funcionava mais como uma república estudantil do que como um escritório. As reuniões se estendiam madrugada adentro, embaladas por chope, cigarros e discussões acaloradas sobre política, futebol e outros temas. Sob sua batuta de editor, o jornal ganhou um ritmo próprio, entre o improviso e a genialidade. Foi ele quem consolidou a linguagem d’O Pasquim: o humor como crítica social, a entrevista como espetáculo e a informalidade como método. Era Jaguar o responsável pela transcrição das famosas entrevistas da publicação, que eram extremamente literais, a ponto de incluir rubricas como “fulano bebe um gole de uísque” ou “ciclano tosse”.
Também foi ali que consagrou a assinatura estilística pela qual ficou conhecida: desenhos rudimentares que ora viam o inusitado de situações cotidianas, ora pegavam carona nas pautas políticas e sociais do país. Ele mesmo não se considerava um grande desenhista, mas um bom observador. Profundo conhecedor das principais referências internacionais do gênero, seu traço era influenciado pelo trabalho do romeno Saul Steinberg (1914-1999), radicado nos Estados Unidos, famoso pelas ilustrações na revista The New Yorker; pelo belga Kamagurka, do time do periódico francês Charlie Hebdo, e do francês Siné (1928-2016), contemporâneo de quem ficou amigo e estabeleceu parcerias, como no livro Siné & Cia., publicado pela editora Civilização Brasileira em 1968.
Entre os artistas nacionais, era grande admirador do cartunista mineiro Borjalo (1925-2004), o primeiro do ramo a quem mostrou seus rabiscos. “Eram uma porcaria. Se fosse eu, nem dava atenção”, confidenciou à revista Bravo!, em 2007. Borjalo gostou dos desenhos, mas implicou com a assinatura porque ainda constava o nome de batismo Sérgio Jaguaribe. Disse que assim, ele nunca emplacaria, e tascou-lhe o apelido pelo qual passou a ser chamado.

Humor de terno e gravata
Jaguar já carregava, desde o nascimento, uma característica rara: era de 29 de fevereiro, um dia que só está presente no calendário dos anos bissextos. Brincava que, ao invés dos 93 anos de idade, que completou até sua morte, em agosto do ano passado, ele tinha apenas 23. Afinal, foram poucas as vezes em que pôde comemorar o aniversário na data exata.
Filho de uma família de classe média, cresceu na zona Sul carioca e estudou no Colégio Pedro II. Na juventude, ingressou no curso de Arquitetura, mas abandonou os estudos antes de se formar. Sofria de asma desde a infância e, numa tentativa de se mostrar mais forte do que o físico de magricelo poderia sugerir, entrou para o exército no início da década de 1950, no qual também permaneceu pouco. Seu primeiro desenho publicado veio em 1952, na coluna de humor “Penúltima Hora”, do jornal Última Hora, que circulava no Rio de Janeiro.
Trabalhou por quase duas décadas no Banco do Brasil, seguindo uma tradição familiar: o pai e seu irmão também foram funcionários longevos da instituição. Para quem conhece sua figura pública, é até difícil imaginá-lo de terno e gravata em um mundo de carimbos, planilhas e horários fixos – uma antítese de tudo o que viria a representar no humor gráfico brasileiro.
Mas o tempo atrás de balcões, caixas e mesas do banco acabou sendo decisivo para sua arte. Foi lá, entre pilhas de papéis e colegas burocratas, que conheceu Sérgio Porto (1923-1968), cronista que ficou famoso sob o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta e que via os desenhos de seu subordinado ganharem as páginas de revistas como O Semanário e Manchete. A amizade entre os dois ultrapassou o expediente: Jaguar começou a ilustrar textos e livros do escritor, ajudando a dar forma visual àquele humor ácido e urbano que retratava o Brasil efervescente da industrialização e do desenvolvimento social, pregados pelo então presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976).
O traço de Jaguar, ainda em formação, já carregava algo de indomável. Chamava a atenção uma ironia que parecia vir de dentro, do incômodo com a ordem e com as certezas da classe média à qual pertencia. Ele não desenhava para agradar, mas para cutucar. Até por isso, tinha dúvidas sobre a viabilidade financeira de ter apenas o desenho como fonte de renda, o que fez com que permanecesse no banco até 1974.
Era daqueles tipos que perdiam o amigo, mas não a piada. “Minha primeira impressão quando o conheci foi péssima”, disse, entre risos, Zélio Alves Pinto, jornalista, cartunista e artista plástico, um dos poucos colegas de redação d’O Pasquim ainda vivos. “Ele era muito gozador. Qualquer que fosse a circunstância, ele encontrava um aspecto humorístico para ressaltar, até mesmo nos momentos mais inapropriados.” Nem todos levavam aquilo numa boa, e às vezes o clima esquentava, até mesmo entre os amigos. Nada, porém, que abalasse seu bom-humor.
“Ele tinha um olhar crítico, mas também era extremamente sereno”, descreve o cartunista. “Durante a ditadura, era ele quem vinha a descobrir ângulos que a gente sequer tinha notado”, complementa. Ao lado de Fernando Coelho dos Santos, Zélio Alves Pinto foi o curador da exposição O Pasquim 50 anos, realizada entre 2019 e 2020 no Sesc Ipiranga, que propunha uma imersão na redação do jornal e trazia centenas de réplicas das ilustrações do célebre cartunista e de seus parceiros.

Boemia e disciplina
Ao mesmo tempo em que era um sujeito munido de um gracejo na ponta da língua ou de uma caneta, Jaguar levava muito a sério seu trabalho. “Ele sempre foi uma pessoa muito disciplinada com os afazeres dele”, lembra Celia Regina Pierantoni, sua companheira desde 1989. “Às vezes, as pessoas pensam que o boêmio não tem disciplina, mas era o contrário: se tinha uma charge para entregar, não aceitava nenhum outro compromisso até que aquilo estivesse feito.”
Mestre em Medicina e professora universitária recém-aposentada, Celia conheceu o cartunista no bar, como não poderia deixar de ser. Ela estava com amigos no tradicional Lamas, no bairro do Flamengo, quando Jaguar se aproximou. Jantaram juntos e, a partir daquela noite, não se desgrudaram mais. “Ele era muito atencioso, tinha muito cuidado. Gostava de acordar e fazer o café para mim, estava sempre procurando alguma coisa para me agradar”, recorda a viúva. Está documentada que a recíproca era verdadeira. “Somos muito parceiros”, definiu o artista, em entrevista à revista Piauí, em 2016. “Celia sabe que não tenho capacidade de sobreviver por minha conta, que preciso de cuidados especiais. Ela me salvou”, completou.
Juntos, cruzaram o caminho para a sobriedade de Jaguar, que bebia álcool desde a adolescência. Foram mais de seis décadas de copos em profusão, até que em 2010, aos 78 anos, depois de um carcinoma no fígado e dois AVCs, o médico ordenou que parasse de uma vez por todas. “Eu virava doze latas de cerveja por dia, fora o chope, o uísque, o gim, a cachaça”, confessou à Piauí. “Hoje cumpro o dever de casa e me limito à cerveja sem álcool. Quinze latinhas diárias ou mais. Falam que, em cada uma, há 0,5% de álcool. Não é tão ruim. De 0,5 em 0,5, chega-se a um resultado expressivo”, arrematou, com o sarcasmo intacto.
Jaguar nunca quis procurar os Alcoólicos Anônimos, pois dizia ser um “alcoólico notório”. Suas aventuras pelos bares do Rio de Janeiro foram registradas no livro Confesso que bebi – Memórias de um amnésico alcoólico (Record, 2001). Nesta mistura de guia, álbum ilustrado e coleção de pequenas crônicas, ele percorre as lembranças de estabelecimentos de todas as estirpes, com um carinho especial pelos “pés-sujos”, aqueles em que o luxo ficava fora do cardápio. Entre os bairros do roteiro, estão Gávea, Leblon, Ipanema, Copacabana, o Centro do Rio, Vila Isabel, além de outros municípios como Itaipava e Parati, até chegar em São Paulo.
A longa lista também faz parte do desejo que deixou expresso quando escreveu a autorização de cremação: queria que suas cinzas fossem espalhadas pelos bares que frequentou. Até o momento em que falou com esta reportagem, Celia ainda não tinha dado conta do pedido. “Eu já tracei a estratégia, mas foi ficando difícil para mim. Comecei a me emocionar muito”, admite. “Como ele não deu prazo, posso deixar um pouquinho mais para frente, né?”.
Torcedor de sofá
Afastado de seu habitual reduto etílico, Jaguar passou boa parte de seus últimos anos próximo a outra de suas paixões: o futebol. Via dezenas de partidas, por semana, na TV, dos campeonatos europeus aos brasileiros. Vascaíno desde jovem, mudou de time já na velhice, quando passou a torcer pelo Flamengo, alegando ser o clube mais perto de onde morava. “Das poucas brigas que tivemos, boa parte delas era porque ele se recusava a sair de casa para assistir a algum jogo”, revela Celia, que, sem poder contrariar, juntou-se ao marido no hobby. “Depois de algum tempo, ele passou a dizer que eu entendia mais de futebol do que ele. Hoje eu continuo acompanhando, mesmo sozinha.”
Como um craque que revigora sua energia a cada grito de gol da torcida, Jaguar também gostava de sentir que suas charges faziam a alegria do povo. “Ele não se contentava em desenhar para si, precisava da reação das pessoas. Gostava de mostrar para nossa secretária, para o rapaz que cuida da garagem, antes da ilustração sair em algum lugar”, narra a companheira. Com o fim d’O Pasquim, em 1991, colaborou por muito tempo em veículos importantes como os jornais Folha de S.Paulo e O Dia, além publicações alternativas. Uma delas foi a revista Bundas, criada por Ziraldo em 1999 para ser uma espécie de herdeira espiritual do veículo criado por Jaguar, mas que durou pouco tempo.

Legado e desapego
Antes da união com Celia, Jaguar teve dois filhos do casamento com a escritora, tradutora e jornalista Olga Savary (1933-2020), com quem esteve de 1955 a 1980 – o mais novo, Pedro, faleceu em 1999, aos 41 anos. A mais velha é a também escritora e ilustradora Flávia Savary, com quem Jaguar trabalhou no livro infantil A roupa nova do arco da velha (Cidade Nova, 2014). Apesar dessa participação, não eram muitos próximos. O próprio cartunista disse em entrevistas não ser um homem muito ligado às relações familiares.
Seu DNA profissional, ao menos, segue vivo entre uma nova geração com quem sempre se deu muito bem, trocando conselhos, indicações de obras e até doando material do próprio acervo. Para André Dahmer, um dos principais chargistas brasileiros contemporâneos, autor de tiras que são publicadas diariamente na Folha de S.Paulo e no jornal O Globo, o maior legado de Jaguar não está nas páginas que desenhou, mas na maneira como encarava o próprio ofício. “Ele tinha uma coisa assim meio de monge zen, budista, de não se levar a sério, mesmo sendo uma grande figura brasileira em sua área”, analisa.
Esse desapego beirava o inacreditável. “Ele dizia que quando acabava de desenhar e mandava para o jornal, ele botava no lixo. Ou seja, ele jogou fora quase tudo que fez”, ressalta. O gesto, que para muitos soaria como loucura, para André Dahmer simbolizava liberdade. “Imagina só o desprendimento real, né? Quando soube disso, durante uma entrevista que gravei com ele, quase caí para trás”, recorda.
Essa simplicidade se estendia aos gestos cotidianos. “Uma vez ele me ligou e falou: ‘vou jogar umas coisas fora, uns livros, enfim, se você quiser, vem aqui pegar, porque eu vou jogar amanhã.’ E aí, eu cheguei lá com uma mala de aeroporto, para levar as coisas: todos os livros assinados por artistas importantíssimos, brasileiros, gringos. Em algum momento, ele pegou a charge ‘Eu quero mocotó’ e falou: ‘Guarda isso com você bem guardado, porque todos nós fomos presos por causa desse trabalho aqui’.” Hoje a ilustração decora a parede da sala de Dahmer.
O traço de Jaguar pode até não ter nascido para ser perfeito, mas verdadeiro. Era o desenho de quem observava o mundo com um olho rindo e o outro inquieto. Viu o Brasil de perto, com a caneta e o copo, e traduziu o absurdo em humor. Ao fim, deixou uma lição simples e rara: rir de tudo não é desdém, mas uma forma de continuar prestando atenção.
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