A arte do algoritmo

30/01/2026

Compartilhe:

Desenvolvida há setenta anos, inteligência artificial amplia seu alcance, rediscute o humano e suscita questões éticas, filosóficas e políticas
(Imagem do documentário The Oasis I deserve (2024), dirigido por Inès Sieulle).

Leia a edição de Fevereiro/26 da Revista E na íntegra.

POR LUNA D’ALAMA

O termo inteligência artificial (IA) surgiu na década de 1950 para designar modelos computacionais e algoritmos capazes de gerar dados, fazer detecções, classificações, previsões, reconhecimentos e análises. A partir dos anos 1990, avanços tecnológicos e a disponibilidade de grandes volumes de dados, com alta complexidade e velocidade, chamados de big data, permitiram o aprendizado de máquinas cada vez mais eficazes. Um dos momentos mais memoráveis ocorreu em maio de 1997, com a vitória do supercomputador Deep Blue, da empresa estadunidense IBM, sobre o então campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov.

A evolução da IA continuou em escala exponencial nos anos 2000, até que, no fim de 2022, a companhia OpenAI, também com sede nos Estados Unidos, lançou o ChatGPT, introduzindo ao público geral a inteligência artificial generativa (capaz de criar conteúdos originais a partir de comandos dos usuários e padrões aprendidos, numa tentativa de imitar a criatividade humana), tornando-a parte do dia a dia de muitas pessoas, que já a usam em diversas funções: para escrever e-mails, marcar consultas médicas, gerenciar finanças e planejar viagens, entre outras atividades.

Ao mesmo tempo que fascina, a presença massiva da IA na nossa rotina suscita múltiplas questões éticas, filosóficas e políticas. Seus impactos também já são sentidos no campo das artes contemporâneas e da cultura audiovisual, transformando o modo como imagens são capturadas, geradas, alteradas, descritas, difundidas e vistas. Há quinze anos, artistas vêm explorando esses dilemas por meio de diferentes mídias, questionando a participação e a interferência cada vez maiores da inteligência artificial nas sociedades.

É o caso da artista e professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP) Giselle Beiguelman, que trabalha com IA desde 2020 em sua produção teórica e artística, e agora apresenta duas obras na exposição O mundo através da IA, em cartaz até 26 de abril no Sesc Campinas (Leia mais em Criado por IA). Em 2022, a artista inaugurou a exposição Botannica Tirannica no Museu Judaico, em São Paulo; e, desde então, a mostra já itinerou pelo Sesc Taubaté e por instituições do Rio Grande do Sul e de países como Canadá, Alemanha, Itália e Paquistão. A autora de Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera (Ubu, 2021) avalia que, nos últimos seis anos, houve uma verdadeira revolução com a abertura das plataformas de grandes modelos de linguagem natural. 

“Quando concebi Botannica Tirannica para criar seres híbridos e discutir nomes preconceituosos na botânica clássica, desenvolvi todo o conjunto de dados e o machine learning (aprendizado de máquina) a partir de modelos treinados. Atualmente, em plataformas como ChatGPT e Midjourney, você não tem mais esse controle de como a IA está processando as informações. Ela se tornou uma infraestrutura blindada. Então, nesse jogo de perguntas e respostas dos prompts de comando, não é mais possível saber quais dados estão sendo mobilizados para determinada demanda”, explica. A artista destaca, ainda, a força cada vez maior das empresas e dos agentes envolvidos, tanto nos Estados Unidos quanto na China, o que tem mudado a IA radicalmente e cada vez mais rápido.

A professora também expõe no Sesc Campinas a obra Beleza corrosiva, uma videoinstalação em grande escala, criada com a ferramenta Sora para questionar, por meio de imagens distópicas – em que rios são tomados por equipamentos obsoletos –, os impactos ambientais das tecnologias digitais. Além de um vídeo de três minutos e meio em looping, a obra inclui uma estação para doação de lixo eletrônico pelo público, formando pilhas de descartes que, ao fim da mostra, serão doadas para cooperativas de reciclagem. “A obsolescência programada [estratégia da indústria para criar itens com vida útil curta, forçando o consumidor a substituí-los rapidamente] agora já é desprogramada, ou seja, acabou a responsabilidade social, virou um consumo absurdo e desenfreado. Por isso, proponho uma obra participativa, com chamada à consciência e à responsabilidade das pessoas”, reforça a artista.

Para Giselle Beiguelman, a ruína presente em Beleza corrosiva também aponta para um futuro distópico e possível, pois as máquinas se impõem sobre o ecossistema. “Precisamos tensionar, compreender e problematizar as estruturas, alteridades e potências da inteligência artificial, criando estratégias para desobedecer a normatividade estatística e algorítmica”, ressalta. Ela acredita, ainda, na existência de outras inteligências além da humana – incluindo a dos vegetais. “A inteligência não é uma prerrogativa nossa, mas distribuída e sistêmica. Assim como a IA, as plantas também têm sua própria inteligência, comunicam-se e interagem entre si, com o ambiente ao redor, fazem mutualismo, são companheiras. Temos muito a aprender com elas”, considera. 

para ver no Sesc

Criado por IA
Em cartaz no Sesc Campinas até abril, mostra O mundo através da IA debate impactos da inteligência artificial, com obras que refletem sobre tecnologia, sociedade e decolonialidade

Após passar pela França, a exposição O mundo através da IA pode ser conferida pelo público no Sesc Campinas até 26 de abril, reunindo obras de artistas contemporâneos de quinze países da América Latina, Europa, África, Oriente Médio e Oceania. A mostra levanta questões sobre o uso da inteligência artificial na vida social, na formação humana, na produção artística e no meio ambiente. 

Com curadoria do estadunidense Antonio Somaini, professor de cinema, mídia e cultura visual na Universidade Sorbonne Nouvelle (Paris 3), a exposição integra a programação da Temporada França-Brasil 2025 e convida o público a mergulhar nas tensões, potências e desafios da IA no mundo contemporâneo. Entre as técnicas utilizadas nas obras, estão instalações multimídia e mistas, vídeos, projeções, impressões em papel, acrílico, digital e 3D. 

Um dos destaques brasileiros – que atualiza a exposição apresentada na França – é a artista visual e diretora criativa Mayara Ferrão. Com a obra Álbum de desesquecimentos (2024 – em curso), ela propõe a reimaginação de cenários possíveis e a reconstrução simbólica do passado a partir de lacunas deixadas pelos arquivos coloniais do país, com a ausência de registros visuais sobre experiências afetivas e íntimas de mulheres negras e originárias.

Obra da série Álbum dos Desesquecimentos (2024), de Mayara Ferrão, criada com IA.

“Faço um uso crítico de tecnologias contemporâneas para reimaginar histórias que foram apagadas ou silenciadas. Criar imagens de mulheres negras vivendo afeto, delicadeza, vínculos amorosos, erotismo e reciprocidade foi uma maneira de me lembrar que existimos para além da dor, da luta e da resistência exaustiva. Ao escrever comandos, reorganizei o modo como eu mesma via meu corpo e minha história. A IA se tornou um espaço de fabulação onde pude experimentar narrativas que me foram negadas”, pontua. 

A artista sabe que os sistemas e algoritmos não são neutros e que reproduzem preconceitos e exclusões históricas, como o racismo e o sexismo. “Meu trabalho com a IA nasce desse conflito: entre repulsa e fascínio, entre medo e desejo, entre sobrevivência e imaginação. Álbum de desesquecimentos é uma forma de me manter viva enquanto artista e mulher negra. E a obra se expande para uma dimensão mais ampla, quase transatlântica, dialogando com histórias que atravessam o Brasil, as Américas e a diáspora africana. Faço a IA imaginar o que ela não foi treinada para ver e, nesse gesto, reivindico não só presença, mas também autoria. Questiono quem tem direito à memória, quem pode produzir tecnologia e quem será lembrado. Pois, antes de imaginar futuros, precisamos reivindicar passados”, finaliza.

Campinas 
O Mundo Através da IA
Curadoria de Antonio Somaini.
Até 26 de abril de 2026. Terça a sexta, das 9h30 às 21h30. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. GRÁTIS. Saiba mais em sescsp.org.br/campinas

A EDIÇÃO DE FEVEREIRO DE 2026 DA REVISTA E ESTÁ NO AR!

Para ler a versão digital da Revista E e ficar por dentro de outros conteúdos exclusivos, acesse a nossa página no Portal do Sesc ou baixe grátis o app Sesc SP no seu celular! (download disponível para aparelhos Android ou IOS).

Siga a Revista E nas redes sociais:
Instagram / Facebook / Youtube

A seguir, leia a edição de FEVEREIRO na íntegra. Se preferir, baixe o PDF para levar a Revista E contigo para onde você quiser!

Conteúdo relacionado

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.