Roberta Martinelli nas ondas da arte

30/01/2026

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Apresentadora de rádio e televisão, Roberta Martinelli amplia os horizontes da cultura e diz sim aos desafios

Leia a edição de Fevereiro/26 da Revista E na íntegra.

POR MARINA PEREIRA
FOTOS NILTON FUKUDA

De dentro do estúdio da Rádio Eldorado, em São Paulo, Roberta Martinelli esboça um sorriso largo ao recordar sobre o início da sua trajetória profissional no universo da música. Após desistir do curso de Direito no penúltimo ano, e encantada com as artes cênicas, resolveu entrar para a escola de teatro Célia Helena. Não tardou, começou a cursar Rádio e TV na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Como ela diz, se tem tempo para fazer, ela topa qualquer projeto. O entusiasmo, evidente na sua carreira, também se reflete no percurso que a levou aos vários caminhos que trilhou, seja na rádio, na televisão ou na literatura.

Atua como apresentadora do programa Cultura Livre, exibido na TV Cultura desde 2011, projeto criado, segundo ela, quando estagiava na Rádio Cultura AM, em 2009.  Roberta ainda conduz o Som a Pino e o Clube do Livro, ambos na Rádio Eldorado FM. Apresenta, junto ao maestro Júlio Medaglia, o Prelúdio, concurso de música clássica da TV Cultura, que dá visibilidade a jovens instrumentistas.

Neste Encontros, a comunicadora reflete sobre o papel da curadoria e crítica musicais, a mediação em diversas plataformas, o universo da literatura no rádio, além de outros assuntos relacionados à pluralidade que a sua profissão proporciona.

Garota de Ipanema
Cursei Direito durante quatro anos e, nessa fase, trabalhei em um tribunal de pequenas causas por mais de um ano. Havia um chefe que me falava para eu ser cantora. “Você tem uma voz tão bonita, vai ser cantora, você é tão ruim aqui”, ele dizia. Nesse período, uma diretora de teatro que estava se formando na Universidade de São Paulo (USP) me chamou para fazer um musical sobre o Vinicius de Moraes (1913-1980), buscava alguém para interpretar a Garota de Ipanema.  Mas eu era muito tímida, então, fui fazer o teste de voz e cantei mal. Mesmo assim, passei. Quando decidi fazer essa peça, desisti do Direito e entrei no Teatro Escola Célia Helena. Após me formar, fui trabalhar como assistente de direção do Nelson Baskerville, posição que ocupei durante algum tempo. 

Música pelo caminho
Nunca considerei o universo da música como uma possibilidade profissional. No repertório das profissões que eu poderia seguir, não pensava em trabalhar com rádio, escolher a música. Eu fui trabalhando conforme as oportunidades apareceram e, de repente, eu estava no mundo da música. Inclusive, eu lembro quando, no início da carreira, me uni ao jornalista Ronaldo Evangelista, da Folha de S. Paulo, muito conectado à música, e à profissional de rádio Biancamaria Binazzi. Juntos, fizemos alguns drops para a programação da Rádio Cultura, que batizamos de “Música Livre, o som da web na Rádio Cultura”. Na época, buscávamos músicas do My Space [rede social com influência na cultura pop e na música no início dos anos 2000] para fazer esse trabalho, que foi um embrião para o que seria o Cultura Livre, um programa que integraria essa nova geração de artistas.

Início na rádio 
Quando fazia Rádio e TV na FAAP, surgiu uma oportunidade de estagiar na Rádio Cultura AM. Comecei esse trabalho em janeiro de 2009 e, em setembro do mesmo ano, fiz o piloto do que hoje é o programa Cultura Livre.  Na época, já existia uma programação de música brasileira maravilhosa, mas mas só tocava artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa (1945-2022), Elza Soares (1930-2022), Maria Bethânia. Nesse período, eu e meus parceitos de criação frequentávamos a casa noturna Grazie a Dio! [na Vila Madalena, em São Paulo], que apresentava shows de nomes como Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci, Lulina, Rômulo Fróes, e eu falava para a equipe: “Esse pessoal ainda não têm disco, mas vai lançar e isso vai ser legal”. Quando eu apresentei o piloto do programa, o diretor [Eduardo] Weber me falou: “Roberta, mas você não vai conseguir chegar no programa 83 só com um material desses”. Hoje, a caminho do ano 17 do programa, brinco com ele que já fiz mais de 6 mil episódios.

A apresentadora nos estúdios da Rádio Eldorado, em São Paulo (foto: Nilton Fukuda).

Pesquisadora musical
Quando comecei a trabalhar com música, entrava em uma van para acompanhar um festival e só havia homens mais velhos. Lembro que ficava falando sobre datas e discos para provar que eu também podia ser da “turminha”. Quando eu entro na van hoje, há muito mais mulheres, mas os homens ainda são maioria. Há quem diga que sou uma “pesquisadora musical”, que é um título engraçado, mas confere uma seriedade, algo que é difícil de conquistar. A partir do meu recorte, eu crio um panorama crítico da música brasileira, mas não me considero uma crítica, porque não escrevo críticas de música e não me considero apta para isso. Há quem faça isso muito bem, embora o espaço da crítica tenha diminuído. Antigamente, se alguém esculachava um disco em um jornal, era uma catástrofe. Hoje, temos tão pouco espaço para falar de um disco que, normalmente quando se fala, fala-se bem.  Então, me considero uma comunicadora que, a partir de programas, traça um panorama crítico da música brasileira. 

Curadoria musical hoje
Não sou contra os algoritmos, mas não sou uma pessoa que se guia apenas por eles. Eu mando neles ainda. Muita gente conhece novos artistas por sugestão dos algoritmos e isso é muito precioso: quanto mais pessoas e algoritmos ajudarem a música a se espalhar, melhor. Quando eu penso a programação da rádio, por exemplo, eu a enxergo dentro de um contexto, de um caminho, e conto uma história. Nesse ano, fizemos uma pesquisa com os ouvintes na Rádio Eldorado e recebemos muitas mensagens como “Só a Rádio Eldorado para me apresentar uma cantora chamada Ana Frango Elétrico”. Penso que há um lugar que o algoritmo não alcança. Não que ele não chegue na Ana Frango Elétrico, ele chega, mas ninguém vai saber quem é ela se não pesquisar. Existe um contexto, um jeito de chegar nas pessoas. O programa Som a Pino foi pensado considerando isso. Essa é uma função que algoritmo não tem.

Cultura Livre X Som a Pino
Quando comecei o programa Cultura Livre na rádio AM, ele tinha traços do Som a Pino, que apresento hoje na Rádio Eldorado FM. O Cultura Livre se tornou um programa na TV Cultura, ganhou equipe, roteiristas, mas acho que ele foi perdendo também. A minha batalha hoje na TV Cultura é conseguir retomar esse frescor que o programa já teve. Por melhor e mais correto que ele esteja, não apresenta aquela ousadia inicial, que o Som a Pino tem. No ano passado, quando Jards Macalé (1943-2025) morreu, me lembrei do programa de que ele participou. Era uma sexta- -feira, dia em que eu tinha telefone aberto para os ouvintes. Ele falou: “Vamos atender ao telefone nós dois”. E aconteceu de um tudo, eu nunca me esqueço de que um ouvinte ligou e falou “Jards, eu amo aquela sua música Maracatu Atômico”, e ele respondeu “Eu também amo essa música, mas ela não é minha. É do Jorge Mautner e Nelson Jacobina, mas os dois são fera e tal”. A gente se divertiu tanto, foi tão legal. Então, o Som a Pino tem essa característica de ousadia, de entrega e de um programa em que “tudo acontece”. Já o Cultura Livre se tornou uma plataforma importante para o registro de música. Mas é bonito porque alguns artistas consagrados continuam participando dele por valorizarem esse lugar de descoberta e do início, algo valioso para os artistas novos. O programa se tornou uma chancela.

Garimpar artistas
É muito importante circular e estar em festivais, até porque eu tenho essa dificuldade financeira de não conseguir trazer os artistas para os programas. É valioso que esses lugares sejam ocupados e que, quanto mais experiências, melhor. Com o passar do tempo na profissão, vamos formando uma rede de contatos também. O disco Maria Esmeralda (2024), produzido pelos artistas Cravinhos, Thalin, VCR Slim, Langelo e Pirlo, por exemplo, foi uma história muito inusitada.  Um amigo do meu pai me mandou o disco do filho, que tinha uma banda, e pediu para eu não contar como havia recebido, porque o músico tinha vergonha. Ouvi, adorei o disco e comecei a mandar em vários grupos. Até hoje, o VCR Slim, que é o filho desse amigo do meu pai, não sabe como eu soube do disco. 

Livros no rádio
Eu sou a pessoa que lê o tempo todo. Quando eu comecei a trabalhar com música,sempre brincava aqui na redação: “Um dia eu vou trabalhar com literatura só para ganhar livro, porque vocês ganham livro, e eu só ganho disco”. Em uma ocasição, eu falei isso em voz alta para o Emanuel Bonfim, o diretor artístico, e ele me respondeu: “Você quer fazer? É só fazer. Não existe programa de rádio sobre literatura. Vai ser legal”. Em 2025, estamos encerrando a quinta temporada do Clube do Livro na Rádio Eldorado FM. É um projeto intenso. Eu leio todos os livros previamente e releio para realizar cada entrevista. Estou sempre atenta a alguma obra sobre a qual eu tenho que falar. Recebo pessoas que acabam vivendo histórias curiosas com os livros, como a atriz Mônica Iozzi, que leu uma obra da escritora Elena Ferrante para o programa. Ela nunca havia lido a Ferrante nem participado de um clube do livro, mas foi muito legal, porque a obra escolhida tinha muito a ver com a Mônica. Às vezes, o programa e os livros criam essa magia. Em 2026, teremos novidade, esse clube vai ampliar e virar algo mais inovador, ainda mais intenso. 

A radialista e apresentadora Roberta Martinelli esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 11 de dezembro de 2025. A mediação do bate-papo foi de Ligia Moreli, gerente da Gerência de Difusão e Promoção do Sesc São Paulo.

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