
Leia a edição de Fevereiro/26 da Revista E na íntegra.
POR JOÃO MEIRELLES
ILUSTRAÇÕES PEDRO MENEZES
Uma hora da manhã. O banheirão partiria às quatro da tarde. Qual o que! A maré, sempre a maré é o descargo recorrente… A maré atrasou a entrada das carretas. O grão do Marajó, campos devastados, o mato vira carvão.
O comandante Corta-Trovão pôs a cara pra fora: “tudo que é porcaria que mexe pra direita! Já!” E, o povaréu, exausto de quatro dias de Carnaval, chuva e leite-de-onça, moveu-se sonambulamente, sob os perjúrios da marujada, comprimindo-se para o bordo indicado.
Seu Joãozinho-Cheiroso, vendedor de boi, vinha com a carga rebolando na gaiola. A bostaria da boiada se derretia e se misturava ao barro dos carros. Não havia o que disfarçasse a catinga dos bois, o chorume combinado ao óleo diesel.
Duas da manhã. Assim que saiu na Baía do Marajó, o piloto sentiu o vento frio antes de vê-la: tempestade de março, águas crescidas, água das águas… À noite até notou a friagem que sorrateava. Era vento destrovoado, só sibilando, rasteiro, escorregando-se sobre a água. O trovão, todos temiam, passava por baixo e por cima das redes, nenhum ser vivo se inertava; mas, sem trovão, como seria?
O piloto deu o alerta. Corta-Trovão não disfarçava a preocupação. Quando divisou a nuvem-mãe, embranqueceu e fez um sinal sutil ao piloto: “corta tudo à direita, ligeiro, na manha”, e que não temesse virar a proa em direção ao oceano-mar.
Três da matina. O ferro-velho lutava e não se movia, ondas encapeladas. Corta-Trovão rendeu o piloto, comentava de si pra si: “pororoca doida!”. A sensação é de que a embarcação arredava, mesmo com o motor a força máxima.
Até então, todos dormiam. Um radinho de pilha aqui, um berreiro de menino mijão ali… Daí pra frente, a primeira onda-mãe cravejou seu lanço na lateral direita da proa e lavou o convés. Veio tocando aquela fedentina bovina pra parte de trás. Em tempo, jogou a porcariada pra dentro da lanchonete e ascendeu ao primeiro piso, onde a maioria cochilava nas redes.
O povo acordou na sopa de lama fétida e água salgada, carregando de um tudo, no escuro. Marianita estrebuchou no chão. Tabéfe! Barulheira de gente desrumada… “Acode, acode”, imaginando o barco a pique. O ferro-velho rangeu e desrangeu, e se reaprumou. Susto? O povo conhecia as destrambelhices da máquina e seguiu no galeio de rede.
Quatro horas. O piloto avista Belém. As luzes pálidas bruxuleavam qual velas distantes. Todos viram a carreira de ratos se jogando na água, as baratas seguindo. Um cidadão, Titica, sacou o celular e fez a tal foto famosa, flasheada, dos bichos correndo pra água! Foi a única mensagem a chegar a Belém. Depois, silêncio.
Pros de Belém que esperavam o primeira-hora e, até divisaram o vulto da balsa, essa foi a última imagem do Comandante Nelson, o nome do banheirão. Pra desgosto da mulher do senador que era dono dos donos de barco, isto era uma desgraceira; afinal, deveriam mostrar as maravilhas do Pará: praias, misses, búfalos, pastagem verde, gado gordo, procissão; mas, ratos! Valha-me-Deus!
De outras partes de Belém, também se avistou o barco. Foi o Maninho-do-Amendoim, o Mendoim, quem o reconheceu. E, logo a nuvem cobriu o barco e Mendoim foi cuidar da vida, ensacar os amendoins-de-cada-dia em papelotes cônicos, pintar papelinhos com mensagens alvissareiras. No depoimento à televisão, que tal-qualmente correu o mundo, afirmou, peremptoriamente: “o bólido vinha bubuiando lá pelas tantas sumiu, sim, sinhô!” Tava era contente. “Mina de bom!”
Cinco da matina. A névoa cobria a vista, de lá e de cá. Até novas fotos chegaram, mas vinham sempre borradas, fora de foco. Depois, silêncio. Segundo o boletim da Marinha, não havia embarcação nesta zona.
Seis da madruga. O alerta do desaparecimento soou na Capitania dos Portos. Era oficial. Os primeiros helicópteros partiram em direção à zona que o barcão fora visto e reportaram: “céu de brigadeiro, o rio Pará é moreno”. Em breve, viriam as balsas e navios, as do Arapari, Barcarena, Macapá, Breves e dariam com o barcão à deriva. Nem um sinal.

Sete da matina. Os parentes chegavam, esbaforidos, saídos da noite, carregando travesseiros e toalhas.
Oito da matina. Era o assunto nas ruas. Ordem do Almirante: as embarcações que chegam ou partem de Belém devem deixar seus passageiros e seguir para a grande varredura. Mas, nada do Comandante Nelson…
Quem teve a primeira visão foi Tia Dáli. De sua fala de curandagem veio algo como “canal fundo”, e “finalmente ligou o rio Amazonas e o Tocantins embaixo do Marajó”. Depois, Tia Dáli dormiu por dois dias. Esta visão foi escondida, mas, como tudo em Belém, vazou…
Nove. Padre Joãozinho se inteirou do sucedido pelas carolas que frequentam as missas. Teve a ideia de tocar os sinos da cidade, combinaram-se por rede social e, ao meio-dia aquele carrilhonaço!
Dez da manhã. A muvuca formada. Familiares, curiosos, digladiam por espaço no Ver-o-Peso. Carros e ônibus não passam. Parecia dia de procissão. Também no Ver-o-Peso os ratos se jogaram na água. Os urubus se foram em direção ao Marajó. O povo via aquela revoada e pensava na lenda do urubu do Ver-o-Peso…
Meio-dia. O Ver-o-Peso ferve. As erveiras preparam um banho geral para que a Cobra Grande se rasgue dos baixos da catedral e resgate o ferro-velho – “pelamordedeus!”. O peixe frito acabou. O açaí tá que é água. O calor derrete os ferros do Bolonha. A maioria vai pra casa, tomar um banho. O feriado se decretou por sua própria conta.
Uma da tarde. Uma política, senadora, aquela que nunca viera ao Veropa deu as caras. “É a fofoqueira”, gritavam, “vai pra Oropa, aqui é o Veropa” e se riam. A tal até tentou ligar o desaparecimento ao oponente, parva…
Duas da tarde. A cidade dorme, só as televisões estrangeiras se postam na frente do cais, lesos.
Três da tarde. Pássaros marinhos, que jamais voaram sobre Belém estão a disputar o peixe com os poucos urubus e garças que ficaram tomando de conta a Pedra do Ver-o-Peso.
Cinco e meia. Finalmente, os ônibus furam o bloqueio. O ritmo da vida retoma.
Meia noite. O sino das igrejas repica. Cidade alguma, na história deste país, ouvira tal clamor pela boca dos sinos! Juntos, Belém em vigília. Sentam–se na calçada, ajoelham-se no chão. Televisores desligados, velas acesas. A cidade murmurando rezas. O Comandante Nelson não deu as caras.
Segundo dia. Bateu cinco da matina, os clarões de luz já vinham na presepada do novo dia. Circulam as listas de desaparecidos e elogios a este e a aquele… Eram 292 passageiros e dezoito tripulantes. Gente pra dedéu.
Sete dias. Os pastores se digladiam para oferecer o melhor culto.
Nove dias. Até minha mãe, que não desgruda os olhos da TV se cansou do assunto. Nada muda. A tal nuvem veio pra ficar.
Dez dias. Com a nuvem sobre Belém começam a sumir coisas, gentes. Ontem o navio da Marinha que ficava parado no Porto escafedeu-se. A tripulação estava de férias. Os pobres dos vigias foram no lugar deles.
Quinze dias. A vontade das famílias era abrir logo os inventários…
Vinte e um dias. Foi um vendedor de peixe da Pedra que matou a charada! Um jornalista que passava pelo local registrou: “eu vi, eu vi a nuvem! Fata Morgana. A nossa consciência”. E, emudeceu, sumiu. O jornalista ficou com aquilo ricocheteando na cabeça e me contou – “Fata Morgana”. E, como, o peixeiro sabia disso?
Vinte e nove dias. Avistou-se qualquer coisa e isso espalhou um suspiro expectativo. Pouco mais ou menos ou nada a acrescentar, balela!
Trinta dias. É caso para acionar as polícias internacionais, os barcos clandestinos chineses? As frotas de fora que pescam lagostas, pargos, e levam golfinhos e baleias e os vendem na Ásia?
Mil horas, ou quarenta e um dias e pico! Este o tempo que os comandantes de todo o planeta têm como certo e inabalável que não praz sentido seguir em buscas. Diacho, não! Silêncio silenciado, silenciosamente, às mil horas e um, os navios de resgate desaparecem, sem se vestigiar, sem explicados. Há cargas nos portos, há gente para as fainas muitas; mas em buscas sem o sentido que o tempo concorre, não.
Quarenta e dois dias. Os moradores de rua de Belém desaparecem. Dizem que seguiram a grande nuvem. Os depoimentos impressionam. Foi encomendado? Pelo jeito, raros são os que se interessam sobre o povo da rua. Há suspeitas que alguns… aproveitaram… Deixa pra lá…
Nove meses. Sem sinal de algo novo ou possivelmente novo.
Três anos e meio. Esperava-se que as questões referentes à balsa se findassem e se desse por encerrado este capítulo da navegação da Amazônia.
Cinco anos. Em conversa com meu amigo ali na beira: “vejas tu, são passados cinco anos…” Diversos populares, tanto em Belém, como no navio que seguia na mesma rota viram, de longe uma balsa e esta desapareceu. Naquele dia, navios entrando na baía também… De igual tamanho do Comandante Nelson… Fata Morgana. Lembrei-me do peixeiro!
Desse dia em diante, o nevoeiro foi pra outro lugar, não sei. A alguns é a mudança climática, a outros, obras de satanás. Falam que seria a maneira da balsa se comunicar conosco. Nada se apurou e seguimos na santa ignorância de nossos dias. Fata Morgana.
João Meirelles é gestor de organizações da sociedade civil, escritor e ativista socioambiental. Paulistano, reside entre Belém, Pará e Ribeirão Preto, São Paulo. Atua em organizações do terceiro setor há quarenta anos, 26 dos quais à frente do Instituto Peabiru. É autor de 16 livros, metade sobre a Amazônia, entre os quais Frans Krajcberg: a natureza como cultura (Edições Sesc e Edusp, 2024), O abridor de letras (contos) (Record, 2017, Prêmio Sesc de Literatura) e Livro de ouro da Amazônia (Ediouro, 2004).
Pedro Menezes é designer gráfico, ilustrador e escritor. É doutor e mestre em Design pela Escola Superior de Desenho Industrial da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), com pesquisas sobre livros infantis ilustrados e capas de livro no Brasil. Trabalha para o mercado editorial criando capas, projetos gráficos, escrevendo e ilustrando livros. Tem 14 livros infantis ilustrados publicados. Em 2025, lançou os livros Tempo nosso e A flor que voava.
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