
As mãos transformam o áspero da madeira de poda em um novo formato; o cordão em bolsa; e a frieza do barro em arte. Nas Oficinas de Criação, a matéria-prima é apenas o ponto de partida para uma jornada de descoberta. Inaugurado em 2024, o espaço propõe um tempo diferente, onde a pressa dá lugar ao “fazer”.
A proposta vai além do ensino de uma técnica isolada. “Elas têm a intenção de ser um espaço de criação, mas também de possibilidade formativa”, explica Midiã Cláudio Silva, técnica de programação do Sesc Bertioga. Seja para quem busca um primeiro contato com a arte ou para artesãos que desejam aprimorar o ofício, os ateliês atuam como um local de experimentação e valorização de saberes. “A gente acaba sendo esse espaço de referência”, completa Midiã, citando a joalheria como exemplo de uma formação técnica que encontrou casa no Sesc.
Espaço de trocas
A experiência não se resume ao fazer individual, ela circula pelo ambiente. Nos ateliês, a criação ganha contornos coletivos. Entre o manuseio das máquinas e o silêncio da concentração, surgem trocas espontâneas. Alunos compartilham tintas, revezam ferramentas e observam o processo do outro. É um ambiente onde a convivência e o compartilhamento de experiências integram o processo de aprendizado.
Para viabilizar essas práticas, o espaço conta com quatro ateliês: Técnicas Mistas, Arte Têxtil, Cerâmica e Marcenaria. A estrutura busca ampliar o acesso a recursos específicos, por isso, quem se interessa pela joalheria encontra ferramentas de precisão; na cerâmica, a disponibilidade do forno permite completar o ciclo de queima das peças; na marcenaria, o foco está no manuseio seguro dos instrumentos e no acabamento.
A lógica pedagógica busca a ampliação de repertório. Midiã ilustra esse percurso com a costura: “Temos o curso de introdução, que apresenta as primeiras possibilidades de uso da máquina e modelagem, e no semestre seguinte a gente oferece o vestuário de praia, que possibilita a criação de peças mais autorais relacionadas com a moda desse território”.
Diálogo com a cidade
A condução das atividades é feita por profissionais de referência, convidados a cada semestre, já que a definição dos temas procura dialogar com as características e necessidades que o próprio território sugere.
Um exemplo prático dessa dinâmica é a tecelagem. Apesar da abundância de fibras naturais no bioma da Mata Atlântica, a técnica era pouco explorada em Bertioga. Ao identificar essa lacuna, a unidade ofertou cursos específicos que atraíram, inclusive, artesãs que já expõem no Bazar. O resultado foi a incorporação do tear em seus processos criativos, unindo a matéria-prima local a um novo saber técnico.
Outras áreas também seguem essa lógica. A estamparia convida a observar as folhas e flores locais como referência visual, enquanto na marcenaria o olhar se volta para a sustentabilidade, com cursos de entalhe que sugerem o aproveitamento de madeira de poda. “A gente tenta observar quais são as áreas que precisam de ação formativa na cidade”, pontua Midiã.
O aprendizado é desenhado para ser contínuo. Para 2026, as Oficinas de Criação serão ampliadas com a previsão de cursos mensais. A mudança visa facilitar o acesso, com valores acessíveis, permitindo que os alunos frequentem os ateliês com mais regularidade e aprofundem seus conhecimentos.
Mais do que uma atividade de lazer, esses saberes podem fundamentar novas trajetórias. Ao dominar a técnica e desenvolver uma linguagem própria, os participantes ampliam suas possibilidades de atuação. Esse percurso pode, inclusive, dialogar com outras iniciativas da unidade: criações que reflitam a identidade local e atendam aos critérios de seleção podem encontrar espaço no Bazar dos Artesãos, integrando, assim, uma rede mais ampla de fomento à produção cultural da cidade.
* Mayumi Kitamura é jornalista e técnica em Processamento de Dados, com mais de duas décadas de atuação na área de comunicação. Com passagens pela TV Cultura e TV Costa Norte, seu trabalho investiga as intersecções entre o jornalismo, as novas tecnologias e o meio ambiente. Atualmente é graduanda em Engenharia de Software, onde aprofunda seus conhecimentos em sistemas e códigos que impactam a sociedade e a comunicação contemporânea.
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