
Cientista ambiental analisa os limites da diplomacia climática e defende a urgência de agir antes do ponto de não retorno (foto: Daniel Antônio/ Agência Fapesp)
Leia a edição de Março/26 da Revista E na íntegra.
POR JOÃO COTRIM
Existem cientistas dedicados exclusivamente a números, modelos e projeções. Outros aprendem a escutar o tempo — não apenas o tempo meteorológico, mas também o histórico, o social, o humano. Carlos Afonso Nobre pertence a essa segunda linhagem.
Climatologista, pesquisador e gestor de políticas públicas, ele construiu ao longo de mais de quatro décadas uma trajetória que se confunde com a consolidação da ciência do clima no Brasil. Nos anos 1970, ainda engenheiro eletrônico recém-formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), mudou-se para Manaus (AM) para trabalhar no então Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). O encontro com a floresta tornou-se decisivo: primeiro para sua formação intelectual, depois para a maneira como o país passou a compreender o papel da Amazônia no equilíbrio climático global.
Foi ali que Nobre encontrou o eixo ético e científico de sua vida. Inicialmente como técnico de engenharia, dando suporte a experimentos de campo, aproximou-se do cotidiano da pesquisa e do pensamento científico. Instigado pelo geneticista, engenheiro agrônomo e professor Warwick Kerr (1922-2018), diretor do INPA à época, decidiu se tornar cientista. O doutorado em Meteorologia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, lhe ofereceu as ferramentas matemáticas e conceituais para compreender o clima como um sistema complexo, regido por interações delicadas entre atmosfera, oceanos, florestas e sociedades humanas.
O retorno ao Brasil, em janeiro de 1983, marcou o início de uma dedicação contínua à Amazônia. Vieram as medições de campo, o desenvolvimento de modelos climáticos pioneiros e a coordenação do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia [conhecido também pela sigla LBA (The Large Scale Biosphere-Atmosphere Experiment in the Amazon)], um dos maiores esforços científicos já realizados para compreender a relação entre floresta e clima. Paralelamente, Nobre teve papel essencial na construção de instituições estratégicas para o país, como o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) e o Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CSST), ambos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN).
Essa atuação o levou também ao cenário internacional. Integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), colaborou na elaboração dos relatórios que consolidaram o consenso científico sobre o aquecimento global. Em 2007, o trabalho coletivo do IPCC foi reconhecido com o Prêmio Nobel da Paz — um marco simbólico que projetou, para além da comunidade científica, a centralidade do clima na agenda mundial.
Da experiência amazônica inicial aos debates mais recentes da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, a COP30, realizada em novembro de 2025 na cidade de Belém (PA), sua trajetória é acompanhada por uma questão persistente, formulada ao longo do tempo com gravidade crescente: o que acontece quando a floresta deixa de respirar em sintonia com o planeta?
Nos últimos anos, sua agenda mudou. Sem abandonar os alertas sobre os chamados pontos de não retorno — o limiar a partir do qual sistemas naturais ultrapassam limites críticos e se transformam de modo irreversível —, Nobre passou a concentrar energia na busca de alternativas concretas. Ganharam centralidade a sociobioeconomia da floresta em pé, o reconhecimento dos saberes tradicionais, a formação de novas gerações de cientistas e a construção de modelos de desenvolvimento compatíveis com a complexidade amazônica.
Nesse contexto, a COP30, realizada pela primeira vez no interior de uma floresta tropical, assumiu para ele um sentido ambivalente. Reuniu avanços simbólicos e científicos relevantes, mas, em sua visão, permaneceu aquém da urgência imposta por uma crise climática que deixou de ser projeção e passou a se manifestar no presente.
Nesta entrevista, Carlos Nobre revisita sua trajetória pessoal e intelectual, faz um balanço crítico da COP30 e reflete sobre o futuro a partir da responsabilidade coletiva.
Quais caminhos o levaram a se dedicar à temática ambiental e como essa motivação evoluiu diante dos desafios climáticos atuais?
Eu me tornei um cientista ambiental quase por acaso, mas um acaso muito bem orientado. Sou engenheiro eletrônico de formação e, logo depois de me formar no ITA, em 1974, fui trabalhar no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus, dando suporte técnico a experimentos científicos. Ali, convivendo diariamente com pesquisadores e com a própria floresta, fui sendo atravessado por uma inquietação profunda. A Amazônia não era apenas um objeto de estudo; ela se impunha como uma questão civilizatória. Um personagem fundamental nesse processo foi o professor Warwick Kerr, então diretor do instituto. Ele me perguntou: “Carlos, por que você não se torna cientista?”. Aquilo abriu uma porta. Fui fazer doutorado em Meteorologia no MIT e, quando voltei ao Brasil, em janeiro de 1983, comecei imediatamente a me dedicar à Amazônia. Desde então, são mais de quarenta anos estudando a interação entre floresta e atmosfera. Nos últimos anos, porém, minha motivação mudou. Passei décadas alertando para os riscos e, a partir de 2018, percebi que precisava gastar o final da minha carreira tentando construir soluções. Foi assim que nasceu o projeto Amazônia 4.0, a ideia de um Instituto de Tecnologia da Amazônia e um engajamento ainda maior com políticas públicas e formação de jovens.

No que consiste o projeto Amazônia 4.0 e como ele traduz, na prática, a ideia de bioeconomia da floresta em pé?
O Amazônia 4.0 parte de uma ideia simples: a floresta vale muito mais em pé do que derrubada. A sociobioeconomia da floresta em pé propõe gerar valor econômico a partir da biodiversidade, sem desmatar. Para isso, é fundamental integrar ciência, tecnologia e conhecimento tradicional. Criamos o conceito de laboratórios criativos — biofábricas portáteis — a serem instalados na própria Amazônia para capacitação de comunidades produtoras, onde produtos da floresta (como cacau, açaí, castanha, óleos e outros ativos da biodiversidade) podem ser transformados localmente, com alto valor agregado. Outro eixo central é a formação de pessoas. Precisamos capacitar jovens da região em ciência, tecnologia e empreendedorismo. A rastreabilidade também é essencial para garantir que os produtos sejam sustentáveis e que os benefícios cheguem a quem realmente preserva a floresta. O Amazônia 4.0 é uma visão de futuro que aponta a Amazônia não como um problema, mas como uma das grandes soluções para a crise climática.
Diante do cenário climático atual, o que representou para o Brasil sediar a COP30 em Belém (PA)? Em que medida isso reposiciona o país no debate internacional?
A COP30 foi histórica por várias razões. Foi a primeira conferência do clima realizada em uma floresta tropical e a primeira a integrar de maneira tão explícita clima e biodiversidade. Também foi a COP com maior participação indígena da história, tanto dentro da zona de negociações quanto nas ruas de Belém, com manifestações muito conscientes e legítimas. Do ponto de vista simbólico, isso reposiciona o Brasil como um ator central no debate climático global, especialmente depois de anos de isolamento internacional. O país voltou a liderar, a propor caminhos. A ideia de zerar o desmatamento até 2030 e de acelerar a transição energética foi colocada com força pela presidência da COP30 e enfatizada pelo presidente Lula. Por outro lado, a COP funciona por consenso. E, infelizmente, muitos países produtores de combustíveis fósseis bloquearam decisões mais ambiciosas. Então, o reposicionamento existe, mas ele ainda esbarra em limites geopolíticos muito claros.
O senhor participou da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO-92. Que memórias guarda daquele momento e que paralelos traça com a COP30?
A Rio-92 foi um divisor de águas. Foi ali que o mundo, pela primeira vez, reconheceu coletivamente o risco ambiental global. Ali, nasceram as convenções do clima, da biodiversidade e da desertificação. Havia um ambiente de esperança muito forte, uma sensação de que estávamos inaugurando uma nova era. Trinta e três anos depois, o contraste é duro. Sabemos muito mais, temos dados, modelos, evidências irrefutáveis. Mas avançamos menos do que deveríamos. A COP30 mostrou avanços importantes — sobretudo na centralidade da ciência e na participação social —, mas também deixou claro que continuamos patinando quando o assunto é reduzir rapidamente as emissões.
Ao olhar em perspectiva, de lá para cá, é possível considerar que avançamos na proteção do planeta? Onde houve progresso e onde seguimos estagnados?
Avançamos no diagnóstico, sem dúvida. A ciência hoje é muito clara sobre o que precisa ser feito. Também houve um avanço na redução da taxa de crescimento das emissões. Se continuássemos no ritmo dos anos 1990, estaríamos caminhando para um aquecimento de mais de 4 °C até o fim do século. Mas estamos estagnados na ação. As metas colocadas pelos países ainda nos levam a ultrapassar 2 °C, talvez 2,5 °C. Isso significa ultrapassar pontos de não retorno na Amazônia, nos recifes de corais, nas grandes camadas de gelo, no permafrost [camada abaixo da superfície que permanece congelada] e muitos outros. O progresso existe, mas é perigosamente insuficiente.
Na COP30, ampliou-se o reconhecimento de outras fontes de conhecimento científico além do IPCC. Como o senhor avalia essa mudança?
Eu participei de vários relatórios do IPCC e tenho enorme respeito por ele. Mas o IPCC trabalha em ciclos longos. O próximo grande relatório só sai em 2029. A emergência climática não pode esperar. O Pavilhão de Ciência Planetária, que criamos na COP30, levou para o centro das negociações a ciência mais recente, conectando clima, biodiversidade, saúde e justiça social. Isso não enfraquece o IPCC; complementa. A ciência precisa estar viva, atualizada e presente no processo político.
O senhor defendeu a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Como ele funcionaria e que garantias seriam essenciais para seu bom funcionamento?
Hoje, do ponto de vista técnico, nós já sabemos fazer isso muito bem. Os sistemas de monitoramento por satélite permitem acompanhar, com altíssima precisão, o que acontece em cada hectare de floresta tropical. Isso não é mais o problema. O grande desafio é a governança. O TFFF [Tropical Forests Forever Facility, em inglês] foi pensado para ser diferente de muitos mecanismos anteriores. A ideia é criar um fundo permanente, capaz de mobilizar algo em torno de 125 bilhões de dólares, usando os rendimentos desse capital para remunerar, de forma contínua, os países que comprovadamente mantêm suas florestas em pé e com muito baixas taxas de desmatamento. Para funcionar, esse fundo precisa ter regras muito claras. Transparência total, critérios objetivos baseados em desempenho e mecanismos que garantam que o dinheiro chegue a quem realmente protege a floresta. Isso inclui povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos produtores, que precisam ser reconhecidos como protagonistas desse processo, não como beneficiários secundários. Não sou economista, mas acredito que esse fundo pode mudar radicalmente a lógica da preservação se for bem implementado. Em vez de depender de projetos pontuais ou de recursos incertos, a floresta passa a gerar um fluxo permanente de valor. É uma mudança estrutural: preservar deixa de ser apenas um custo e passa a ser parte de uma estratégia econômica de longo prazo.
A COP30 instituiu um mecanismo internacional de transição energética justa, mas transformá-lo em prática concreta ainda é um desafio. Que caminhos econômicos e sociais podem dar materialidade a esse princípio, especialmente para trabalhadores, comunidades tradicionais e populações da Amazônia?
A transição energética não é apenas necessária, ela é economicamente vantajosa. Energia solar e eólica já são mais baratas que as fontes fósseis em muitos contextos. Na Amazônia, comunidades isoladas ainda dependem de geradores a diesel caríssimos e poluentes. Substituir isso por energias renováveis melhora a qualidade de vida, reduz custos e emissões. Uma transição justa passa por investir nessas soluções, capacitar comunidades e criar alternativas econômicas locais.
Zerar as emissões globais até 2040, segundo o senhor, é condição decisiva para evitar pontos de não retorno. Como avançar nessa direção diante de países e economias ainda profundamente dependentes de combustíveis fósseis?
Esse é o maior desafio político e cultural do nosso tempo. A ciência precisa ocupar cada vez mais espaço nas COPs e no debate público. Já não falamos mais em “mudanças climáticas”, mas em emergência climática. Ainda assim, existe hoje um risco democrático muito claro. Se perguntarmos qual é o país que mais formou cientistas do clima, que mais investiu em ciência climática e que mais contribuiu para o IPCC, a resposta é Estados Unidos. E, mesmo assim, foi um dos países que mais avançaram na ciência do clima que elegeu um presidente negacionista. Isso mostra que o problema não é falta de conhecimento, é político e cultural. Esse fenômeno não ocorre apenas nos Estados Unidos. Está acontecendo no mundo inteiro. Democracias vêm elegendo, cada vez mais, líderes populistas e negacionistas. No Brasil, por exemplo, vimos a eleição de muitos parlamentares e gestores que apoiaram o chamado “PL da devastação”, inclusive em grande parte dos municípios amazônicos. Aqui o tema aparece muito ligado ao uso da terra, mas é um movimento global. Se as sociedades continuarem elegendo quem nega a realidade científica, teremos enorme dificuldade de agir à altura da crise. Zerar as emissões até 2040 depende menos de tecnologia — que já existe — e mais de decisões políticas e de uma mudança cultural profunda.
A ciência já cumpriu seu papel ao mostrar os riscos. Agora, o desafio é agir com rapidez e responsabilidade. Se conseguirmos avançar nessa direção, ainda há um futuro possível.
(foto: Manuel Lopez)

Que papel as novas gerações podem assumir diante de uma emergência climática que já se manifesta no presente?
A COP30 teve dois aspectos muito marcantes. Foi a conferência com a maior participação indígena da história e também aquela que mais atraiu jovens. Muitos circularam pelos espaços da COP, acompanharam debates, buscaram diálogo. Eu conversei com vários deles ao longo dos dias, e isso revela um nível de envolvimento muito forte. A minha geração foi a que produziu o diagnóstico. A ciência mostrou os riscos há décadas, mas as emissões continuaram crescendo. Agora, precisamos capacitar os jovens para assumir uma liderança efetiva. Quando eles passarem a votar, a ocupar cargos públicos, a atuar no setor privado ou na agricultura, vão perceber que não há mais como sustentar o modelo antigo.
Qual legado da COP30 o senhor considera fundamental, pensando nos efeitos que essa conferência pode deixar para as próximas décadas?
Que ela seja lembrada como o momento em que o mundo tentou, de forma clara, traçar mapas do caminho para sair da crise — ainda que não tenha conseguido implementá-los de imediato. Se, nas próximas COPs, esses caminhos forem retomados e aprofundados, a COP30 terá cumprido um papel histórico.
Diante de tantos alertas, ainda é possível esperançar?
Nós não temos o direito de desistir. A emergência climática já está acontecendo. As temperaturas continuam subindo, os eventos extremos se intensificam. Ondas de calor já causam mais de 500 mil mortes por ano no mundo e, no Brasil, estudos recentes apontam cerca de 14 mil mortes anuais. Isso nos coloca diante de uma escolha muito clara. A ciência já cumpriu seu papel ao mostrar os riscos. Agora, o desafio é agir com rapidez e responsabilidade. Se conseguirmos avançar nessa direção, ainda há um futuro possível. Se não, estaremos assumindo conscientemente um caminho de colapso. E isso, para mim, é inaceitável.
Zerar as emissões até 2040 depende menos de tecnologia — que já existe — e mais de decisões políticas e de uma mudança cultural profunda
A EDIÇÃO DE MARÇO DE 2026 DA REVISTA E ESTÁ NO AR!
Para ler a versão digital da Revista E e ficar por dentro de outros conteúdos exclusivos, acesse a nossa página no Portal do Sesc ou baixe grátis o app Sesc SP no seu celular! (download disponível para aparelhos Android ou IOS).
Siga a Revista E nas redes sociais:
Instagram / Facebook / Youtube
A seguir, leia a edição de MARÇO na íntegra. Se preferir, baixe o PDF para levar a Revista E contigo para onde você quiser!
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.