
Uma série que revela corpos, memórias e territórios que reinventam a arte contemporânea no Brasil
A arte contemporânea brasileira pulsa em múltiplas direções. Ela nasce da terra, atravessa o corpo, ocupa a rua, resgata memórias, tensiona silêncios e cria novas formas de existir. É esse fluxo vivo que Artérias se propõe a mapear: uma série que acompanha trajetórias artísticas comprometidas com outras narrativas possíveis para a arte no Brasil.
Produção original do SescTV, Artérias reúne, ao longo de suas duas temporadas, um amplo panorama de artistas visuais de diferentes gerações, regiões e linguagens, com protagonismo de criadores negros, indígenas e LGBTQIAPN+. Mais do que um inventário, a série constrói um campo de escuta, um espaço onde a arte é entendida como pensamento, gesto político, experiência sensível e afirmação de pertencimento.
Cada episódio apresenta um artista ou coletivo em diálogo direto com seu processo criativo, suas referências e seus territórios. São narrativas em primeira pessoa que deslocam olhares etnocêntricos e confrontam estereótipos historicamente associados à produção artística brasileira. Pintura, performance, instalação, fotografia, bordado, vídeo, arte urbana e práticas híbridas convivem como linguagens igualmente legítimas para contar histórias que foram, por muito tempo, marginalizadas.
Desde a primeira temporada, Artérias se dedica a revelar artistas que reinventam o fazer artístico a partir de vivências atravessadas pela ancestralidade, pela espiritualidade, pela experiência urbana, pelo corpo dissidente e pela memória coletiva. A série acompanha trajetórias como a de Jaider Esbell, referência fundamental da arte indígena contemporânea, Paulo Nazareth, artista que transforma o deslocamento, o corpo e a experiência cotidiana em prática estética e política, Crioula, artista e educadora que articula imagem, palavra e pedagogia antirracista a partir de vivências negras e periféricas, Rosana Paulino, uma das mais importantes artistas brasileiras da atualidade, cuja obra investiga raça, gênero, ciência e os apagamentos da história oficial, e Denilson Baniwa, artista indígena que tensiona museus, arquivos e imaginários coloniais ao reinscrever cosmologias originárias no campo da arte contemporânea. Dessa maneira, a produção se expande para um conjunto diverso de criadores que operam entre o íntimo e o político, entre o ritual e a cidade, entre o arquivo e a invenção.
Na segunda temporada, esse mapeamento se aprofunda e se amplia. Surgem obras que transformam rios em memória viva, cozinhas em ateliês, tecidos em narrativa, arquivos em instrumentos de reparação histórica. Artistas como Davi de Jesus do Nascimento, Gê Viana, Gustavo Caboco, Josi, Ayrson Heráclito, Carmézia Emiliano, Jota Mombaça, Juliana dos Santos, Larissa de Souza, Vulcânica Pokaropa, Xadalu Tupã Jekupé e Lázaro Roberto, entre muitos outros, constroem poéticas que interrogam colonialismos persistentes, celebram saberes ancestrais e afirmam novas formas de existência no mundo.
Há, em Artérias, um entendimento comum: a arte não está separada da vida. Ela emerge do cotidiano, da dor, do afeto, da luta, da espiritualidade e da imaginação. Seja ao transformar barcos em oratórios, lambe-lambes em ferramentas pedagógicas, a água do feijão em pigmento ou o corpo em arquivo vivo, os artistas apresentados pela série ampliam o campo do visível e do dizível.
Dirigida por Helena Bagnoli, Artérias propõe uma cartografia aberta da arte contemporânea brasileira — não como algo fechado ou definitivo, mas como um organismo em movimento. Um conjunto de vozes que, ao circular por diferentes territórios simbólicos e geográficos, reafirma a arte como espaço de disputa, escuta, criação de memória e reinvenção de futuros.
Mais do que mostrar obras, a série convida a olhar de novo e a perceber que a arte brasileira segue viva justamente onde ela pulsa com mais força: nas margens, nos corpos, nas histórias que insistem em existir.
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Texto original em medium.com
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