O roteiro como base de sustentação para a construção audiovisual

09/03/2026

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No cinema e no audiovisual em geral, o roteiro costuma ser lembrado como o ponto de partida de uma obra. Mas, na prática, ele é muito mais do que um primeiro passo: é a base que sustenta toda a construção do filme, como a planta baixa de um edifício. É nesse processo de desenvolvimento que ideias ainda difusas ganham forma narrativa, personagens passam a existir e a equipe encontra uma referência comum para transformar uma história em experiência audiovisual.

Para a diretora Laís Bodanzky, conhecida por filmes como Bicho de Sete Cabeças (2000) e Como Nossos Pais (2017), tudo começa com uma pergunta essencial: por que contar aquela história. “O projeto tem que ser vital para mim, tem que realmente me tocar”, afirma. “Realizar um filme são anos de dedicação. Não basta só ter uma ideia; o projeto precisa fazer sentido no âmago.” Esse impulso inicial, quase visceral, é o que sustenta o longo processo de escrita, reescrita e amadurecimento que acompanha a criação de um roteiro.

Ainda que cada filme tenha suas próprias exigências, Bodanzky destaca que o roteiro funciona como um alicerce para toda a produção. “É onde as ideias, através das palavras, vão poder impactar toda uma equipe. Ele serve para que todos contem a mesma história.” Ao mesmo tempo, ela lembra que essa etapa não começa necessariamente no roteiro técnico, mas muitas vezes no argumento — um texto mais livre que permite testar caminhos narrativos antes da forma final. “Quanto mais eu mexo no argumento, quando ele vira roteiro já nasce lá na frente”, explica.

O diretor Marcelo Caetano, de Baby (2024) e Corpo Elétrico (2017), também vê o desenvolvimento como um processo de construção gradual, sustentado por dois pilares: estrutura e pesquisa. Antes mesmo de escrever cenas ou diálogos, ele cria um esqueleto narrativo detalhado, que pode assumir a forma de escaletas, diagramas ou argumentos. Paralelamente, Caetano, que tem formação em Ciências Sociais, investe em pesquisa de campo para aproximar a história de universos que não fazem parte de sua experiência direta. “A pesquisa cria uma tensão entre subjetividade e alteridade”, diz. “Eu acho mais interessante trabalhar nessa zona do que em algo puramente autobiográfico.”
Mesmo com esses princípios recorrentes, cada projeto pode exigir caminhos distintos. Em Corpo Elétrico, por exemplo, os diálogos escritos foram abandonados nos ensaios para dar lugar ao improviso dos atores, borrando a fronteira entre personagem e intérprete. Já em Baby, os diálogos foram definidos previamente e levados para a sala de ensaio como parte de uma construção mais rigorosa, própria de um melodrama. Essa flexibilidade revela como o roteiro também é um instrumento de adaptação criativa, capaz de responder às necessidades específicas de cada obra.

Para Gabriel Martins, diretor de Marte Um (2022) e cofundador do estúdio mineiro Filmes de Plástico, o processo costuma começar com uma imagem ou situação inicial que desencadeia toda a narrativa. A partir dessa cena imaginada, ele passa a construir o personagem e o percurso dramático da história. “Começo sempre pelo argumento, montando a história como um conto”, explica. Depois, o roteiro é desenvolvido em sequência cronológica, em um fluxo que mistura intuição e estrutura.

Com o tempo, Martins passou a dedicar mais atenção a essa etapa inicial. “No começo eu via o roteiro mais como um caminho para chegar às imagens”, conta. “Hoje gasto mais tempo no desenvolvimento, na pesquisa e na estrutura.” Esse investimento, segundo ele, facilita a construção coletiva do filme, permitindo que elenco e equipe compreendam com mais clareza a proposta da obra. “Quando o roteiro está mais próximo do filme final, fica mais fácil para todos entenderem onde se quer chegar.”

O desenvolvimento de um roteiro, portanto, não se limita a organizar uma história com início, meio e fim. Ele envolve pesquisa, experimentação, escolhas formais e, sobretudo, um processo de amadurecimento que atravessa todo o projeto. Como mostram as experiências desses cineastas, é nesse trabalho invisível — muitas vezes longo e cheio de revisões — que se constrói a base que permitirá ao filme existir. No papel, o cinema começa a ganhar corpo antes mesmo de chegar à câmera.

Laís Bodanzky, Marcelo Caetano e Gabriel Martins fazem parte da programação formativa da Mostra Farol, onde apresentarão aulas magnas sobre roteiro, compartilhando técnicas e aprendizados obtidos ao longo de suas carreiras. Adicionalmente, o curso Alice Guy-Blaché e a invenção do cinema narrativo, ministrado pela pesquisadora audiovisual Vivian Malusá, resgata a obra da pioneira Alice Guy-Blaché, apontada como a primeira cineasta e roteirista de filmes ficcionais da história.

Veja a seguir a programação formativa da Mostra Farol:

Com: Marcelo Caetano (Baby)
Data: Dia 21/3, sábado
Horário: 11h
Gratuito, com retirada de ingresso na bilheteria do CineSesc, 1h antes.
Marcelo Caetano nasceu em Belo Horizonte e vive em São Paulo. Dirigiu o longa-metragem Baby (2024), que estreou na Semana da Crítica do Festival de Cannes, onde recebeu o prêmio Rising Star. O filme foi exibido em mais de 100 festivais internacionais, conquistando mais de 30 prêmios, e foi vendido para 25 territórios, incluindo França, Reino Unido e EUA. Seu longa de estreia, Corpo Elétrico (2017), estreou no Festival de Roterdã e foi selecionado por festivais como Hong Kong, BFI London e Guadalajara, onde venceu o Prêmio Maguey. Colaborou em diversos filmes de Kleber Mendonça Filho, atuando como diretor de elenco em Aquarius (2016) e Bacurau (2019), e como consultor de elenco em O Agente Secreto (2025), indicado ao Oscar de Melhor Elenco.

Com: Gabriel Martins (Marte Um)
Data: 27/3, sexta-feira
Horário: 11h
Gratuito, com retirada de ingresso na bilheteria do CineSesc, 1h antes.
Gabriel Martins é cineasta, roteirista, editor e diretor de fotografia, fundou a produtora Filmes de Plástico em 2009, juntamente com André Novais Oliveira, Maurilio Martins e Thiago Macêdo Correia. O seu primeiro longa-metragem como diretor, No Coração do Mundo,co-dirigido por Maurilio Martins, estreou na Competição Tiger do Festival de Cinema de Roterdão em 2019 e foi exibido em vários festivais, sendo lançado comercialmente em vários países com aclamação da crítica. Entre os seus curtas-metragens estão Nada, exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2017, e Dona Sônia pediu uma arma para o seu vizinho Alcides, exibido no Festival de Cinema de Clermont-Ferrand em 2011. Gabriel também participou do programa especial Soul in the Eye, em Roterdão, no qual ministrou uma masterclass. O cineasta escreveu vários roteiros evados às telas, incluindo Alemão (2014). Marte um é o seu primeiro longa-metragem dirigido sozinho. Em 2025 escreveu e co-dirigiu junto com André e Maurilio a primeira série da produtora, O Natal dos Silva, estreada nesse mesmo ano no Canal Brasil. Atualmente está finalizando o seu terceiro longa-metragem, Vicentina pede desculpas, que será lançado este ano de 2026.

Com: Laís Bodanzky (Bicho de Sete Cabeças)
Data: 28/3, sábado
Horário: 11h
Gratuito, com retirada de ingresso na bilheteria do CineSesc, 1h antes.
Laís Bodansky é diretora, roteirista e produtora de cinema. São de sua autoria os longas “Bicho de sete cabeças”, “Chega de saudade “, “As melhores coisas do mundo”, “Como nossos pais” e “A viagem de Pedro”. Durante 15 anos coordenou os projetos sociais Tela Brasil de exibição e educação audiovisual e por 2 anos foi diretora presidente da Spcine. Desde 2019, Laís é membro da Academia Americana do Oscar.

SESSÃO COMENTADA
Alice Guy-Blaché e a invenção do cinema narrativo

Com Vivian Malusá
O curso propõe um mergulho na trajetória daquela que é reconhecida como a primeira cineasta da história do cinema e uma das figuras centrais na criação e desenvolvimento da narrativa cinematográfica. Em dois encontros, de duas horas, com exibição de algumas de suas principais obras, investigaremos como, ainda nos primórdios do cinema, ela percebeu o potencial das imagens em movimento para contar histórias, experimentando com encenação, humor, crítica social e inversões de gênero. Acompanharemos sua ascensão na França, a criação do estúdio Solax nos Estados Unidos, onde atuou como diretora, roteirista, produtora e chefe de estúdio e o processo de apagamento histórico ao qual foi submetida. Também abordaremos sua luta pessoal por reconhecimento, por meio da reivindicação de sua autoria e da escrita de suas memórias. Por que conhecer Alice Guy hoje? Como seria a história do cinema se seu nome não tivesse desaparecido? De que maneira sua obra ainda nos ajuda a compreender as disputas de autoria, memória e poder que atravessam o audiovisual? O curso convida o público a refletir sobre essas questões e a redescobrir uma história e uma filmografia tão pioneiras quanto surpreendentes.

Sobre a professora: Pesquisadora, produtora e preservadora audiovisual, é mestre em Multimeios – História e Teorias pela Unicamp e mestre em Cinema – Valorização de Arquivos Cinematográficos e Audiovisuais pela Université Paris 8, com mobilidade acadêmica na Universidade de Bolonha. Supervisiona o Serviço de Acervo e Distribuição da TV Senado e atuou na coordenação de acesso e difusão da Cinemateca Brasileira, onde produziu e coordenou mostras e festivais. Trabalhou ainda na Cinemateca Francesa e na produção do festival Il Cinema Ritrovato. Participou do programa Courants du Monde, do Ministério da Cultura da França, e do programa Frame Advanced Access, promovido pelo Institut National de l’Audiovisuel (INA) e pela Federação Internacional de Arquivos de Televisão (FIAT/IFTA). Atua como curadora de mostras e festivais, desenvolvendo projetos ligados ao patrimônio audiovisual e à difusão cinematográfica, além de ministrar cursos e oficinas de história do cinema e acesso a acervos, com ênfase em mulheres pioneiras do cinema.
2 encontros / Presencial – Sala de Exibição / Classificação 14 anos
Dias: 25 e 26/03, das 15h às 17h
Inscrições: 19/03 via app Credencial Sesc SP ou sescsp.org.br
Carga horária: 12h
Grátis

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