Duração: 90 minutos
atividade presencial
Grátis
Local: Térreo
acesso livre, sujeito a lotação do espaço
Data e horário
De 11/04 a 11/04
Das 15h às 16h30
A história da capoeira no Brasil ganha um contorno decisivo quando Mestre Bimba irrompe na cena cultural do século XX. Ele percebeu que a capoeira, pressionada por décadas de criminalização e racismo institucional, precisava de um caminho de legitimação sem abandonar sua raiz negra e popular. Daí nasce a Capoeira Regional, uma síntese ousada: técnica mais estruturada, sequências didáticas, disciplina de treino e diálogo aberto com outras práticas corporais que circulavam pelo Brasil urbano daquele período.
A Regional não rompeu com a tradição; ela reorganizou o repertório para sobreviver às tensões de uma sociedade que ainda tratava a cultura negra como ameaça. Nesse movimento, Bimba preservou o axé e o jogo, mas deu novas estratégias de permanência: criou academia reconhecida oficialmente, formou turmas, escreveu métodos. Fez da capoeira uma prática capaz de ocupar o espaço público sem pedir licença.
Quando se observa o cenário atual, é impossível não ver o rastro desse salto histórico. A capoeira praticada hoje nas escolas, nos bairros, nas universidades, nos projetos sociais, nas comunidades quilombolas e nos grupos espalhados pelo mundo carrega a marca de uma pluralidade que se alimenta tanto da Regional quanto da Angola, além de incontáveis mestres e mestras que ampliaram repertórios e colocaram outras lógicas em jogo. O corpo contemporâneo da capoeira dança entre tradição, espetáculo, pedagogia, política e identidade.
A influência de Bimba continua evidente na estruturação de aulas, na presença de sequências, na busca por condicionamento físico e na ideia de capoeira como instrumento de cidadania. Mesmo nos grupos que se afirmam mais próximos da Angola, o impacto da abertura institucional promovida pela Regional permanece como uma espécie de solo fértil: sem esse processo, dificilmente a capoeira teria conquistado o reconhecimento como patrimônio cultural e se tornado uma linguagem tão difundida.
Hoje, a capoeira se afirma também como prática de resistência plural. Pessoas LGBTQIA+, mulheres, pessoas negras, indígenas e migrantes encontram nela um espaço de afirmação, algo que dialoga diretamente com o impulso de transformação social que sempre acompanhou a trajetória de Bimba. A capoeira contemporânea vive em diálogo permanente com o passado, mas aponta para um futuro em que corpos diversos ocupam a roda sem pedir desculpas. É nesse fluxo entre a raiz e o reinvenção que o legado de Bimba continua a gingar no Brasil.
Mestre Tucano Preto
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.