Frestas – “Estamos chegando”. O movimento indígena na obra de Keywa Henri

25/03/2026

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Keywa Henri em frente a sua obra Ekalitio Again, no Sesc Sorocaba. Foto: Ronaldo Domingues

Seis grandes painéis de LED despertam a curiosidade de quem passa pelo espaço público do Sesc Sorocaba. A disposição e o tamanho dos painéis chamam a atenção pela sua grandiosidade, mas para além do tamanho físico, as frases de impacto que as telas exibem revelam que existe uma mensagem muito mais profunda.

Essa obra, que faz parte da 4ª edição da Frestas – Trienal de Artes, é da multiartista indígena Keywa Henri, do povo Kalin’a Tilewuyu. Nascida na Guiana Francesa, a artista constrói uma produção que cria um grande diálogo entre corpos, territórios e línguas e chama a refletir sobre a presença indígena no mundo contemporâneo.

São muitas camadas sobrepostas que vão sendo desvendadas a cada vez que você para pra observar. Em silêncio, as frases são um chamado à escuta. “Estamos chegando” — mais que uma afirmação, é um convite a reconhecer presenças que historicamente foram silenciadas e perceber culturas e povos que seguem em movimento — criando, resistindo e transformando o presente.

A obra Ekalitio Again, de Keywa Henri, instalada no Sesc Sorocaba. Vídeo: Wagner Pinho

Os painéis intercalam as seis frases de um poema composto por Keywa, traduzidos em cinco idiomas: duas línguas originárias — kalin’a ( sua língua ancestral) e guarani mbya ( a língua do território – SP / Sorocaba) — e três línguas coloniais com as quais ela convive em seu cotidiano: francês, inglês e português. A tradução em kalin’a foi feita pelo seu pai Yaguwaly Henri, liderança Kalin’a Tilewuyu e a tradução em guarani mbya é de Carlos Papá, liderança Guarani Mbya.

Keywa traz o desconforto e provocação já no nome da obra“Ekalitio na minha língua originária, que é kalin’a, quer dizer ‘Eu te digo’ e o ‘Again’, em inglês, ele vem acentuar o fato de dizer ‘Eu te digo’. Então ‘Eu te digo, eu te digo sempre, eu sempre vou te dizer’.

Cada tradução tem uma tipografia e uma cor distinta, revelando as relações de proximidade, tensão e história entre essas línguas. A leitura acontece em movimentos de ordens variadas, as palavras se repetem, atravessam o espaço,  convocam o olhar, questionam, provocam e anunciam presenças.

A instalação transforma o espaço público em um campo de tensões e encontros entre histórias culturais distintas. Ao colocar esses idiomas em movimento dentro da obra, Keywa evidencia não apenas as camadas culturais que atravessam sua trajetória, mas também os impactos da colonização na circulação das línguas e na construção de identidades.

“Essa conversa entre as línguas mostra o movimento, o peso de cada uma, o impacto e a história que elas têm no meu contexto”, explica a artista.

Nascida e criada na Guiana Francesa — território da França —, Keywa precisou se mudar para o país europeu para estudar artes, já que durante muito tempo não havia universidade em sua região. Foi na Escola de Belas Artes de Lyon que desenvolveu parte de sua formação.

Apesar disso, o reconhecimento de sua identidade indígena Kalin’a Tilewuyu não encontra espaço em todos os territórios que atravessa. Ela conta que na França, por exemplo, povos originários de regiões colonizadas não são oficialmente reconhecidos.

“Hoje, na França, os povos indígenas dos territórios que ela colonizou não são reconhecidos. Nós não existimos nesse contexto”, afirma.

Ao atravessar contextos geográficos e políticos distintos — da França ao Brasil —, Keywa observa como essas presenças são reconhecidas, silenciadas ou invisibilizadas. Seu trabalho parte de uma pergunta insistente: “onde estão os corpos indígenas hoje?”. Em sua prática, a arte se torna um espaço de elaboração dessas experiências e também um gesto de luta e retomada.

“Eu trabalho muito a partir do meu contexto, da minha experiência de vida e de como hoje eu transito enquanto resistência indígena, enquanto corpo indígena nesses espaços”, afirma a artista.

Nas obras de Keywa, o movimento aparece como experiência vital e coletiva. Para ela, caminhar não é apenas deslocar-se fisicamente, mas um gesto de existência e de continuidade ancestral. Caminhar é também uma maneira de atravessar fronteiras e reencontrar redes de povos indígenas que compartilham histórias e territórios em diferentes partes do mundo.

Ao refletir sobre a ideia de “rezo”, a artista amplia o sentido da palavra e entende o rezo como uma força ou um desejo que surge enquanto se percorre um caminho. E é esse desejo que move todo seu trabalho. Dessa forma, sua produção artística se torna também uma forma de visibilizar histórias e identidades frequentemente silenciadas.

“Ser indígena é estar em movimento”, diz a artista.

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A 4ª edição de Frestas – Trienal de Artes “do caminho um rezo” segue em cartaz no Sesc Sorocaba até 16 de agosto de 2026, acompanhe a programação e saiba mais em sescsp.org.br/frestas.

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