
Ilustração Irmandade Preta, de Julia Custodio (2024)
Em “Espírito da intimidade: caminhos ancestrais para se relacionar”, a filósofa burquinense Sobonfu Somé compartilha saberes ancestrais do povo Dagara, da
África Ocidental, e nos conduz a uma jornada que vincula os relacionamentos humanos ao espírito, à natureza e à ancestralidade, revelando que a intimidade não é uma busca privada por felicidade, mas uma prática que serve ao bem comum.
Ao desafiar as noções ocidentais de amor romântico e individualismo, a autora nos propõe um caminho de equilíbrio e propósito compartilhado, fazendo-nos
redescobrir o poder da comunidade e do senso de pertencimento. Em um mundo que anseia cada vez mais por conexões profundas e genuínas, esta obra nos traz ensinamentos sobre a importância da vulnerabilidade, o cultivo da reciprocidade e a necessidade de vivermos segundo uma ética do cuidado.
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Abaixo o texto de orelha do livro:
Sobonfu Somé nos faz um convite encantador e urgente: e se existissem outras formas de amar além do romance idealizado e dos amores líquidos que nos são vendidos como únicas alternativas?
Eis a questão: “felizes para sempre”, do amor romântico, ou “seja eterno enquanto dure”, de múltiplas e simultâneas paixões?
Bem distante de uma receita pronta que funcione para todas as pessoas, Somé enfatiza o papel do ritual. Um relacionamento amoroso não se reduz a dilemas como intensidade ou liberdade. Mas pode ser revelado em cerimônias que não deixem, por exemplo, um casal sozinho em sua jornada.
Uma das mais belas e poéticas imagens diz que uma história de amor não deve começar no topo da montanha, mas deve ser escalada calmamente, aprendendo-se a cada passo que nada será como antes, mas que o presente estará cheio de passado, grávido de futuro. O livro adverte que a força de amar não deve ser extraída apenas da própria alma. Tampouco um casal deve se fechar, tentando saciar toda sua fome emocional somente no seu relacionamento. Onde ficam familiares e gente amiga? O amor é uma jornada que não se faz sem companhia, incluindo uma comunidade – de pessoas em quem confiamos, que nos amam e que nos apoiam.
A filósofa argumenta que toda pessoa nasce com um propósito, e o uso adequado de seus talentos, interesses e saberes enriquece espiritualmente a comunidade e a si mesma. O propósito de Somé sempre foi divulgar o sistema de pensamento ancestral do povo Dagara, para que mais gente possa reencontrar ou descobrir caminhos ancestrais para se relacionar. Ora, ter uma companhia amorosa é um elemento importante para que possamos encontrar o nosso propósito. Afinal, uma pessoa solitária pode se perder mais facilmente do seu propósito, seja pela falta de alguém ou pelo excesso de si.
A autora transita entre as fronteiras da antropologia, mitologia, espiritualidade, filosofia e psicologia, atravessadas por uma coerência performática (quando o que é dito é vivido), que fez de sua própria trajetória uma grande referência . Em vez de ser um exemplo (algo a ser copiado), ela é uma inspiração.
Sobonfu Somé se casou e se divorciou. Fez os rituais necessários para se desintoxicar. Ela trilhou seu próprio caminho, inspirando cada um de nós a amar e recomeçar sempre que for preciso – seja dizendo “sim” para a mesma pessoa por décadas ou para outra recém-chegada nas encruzilhadas da nossa jornada. Em uma entrevista concedida após o divórcio e antes de ancestralizar, em 2017, ela disse: “Onde está a ferida é também onde está o presente”. Faço votos para que esta leitura seja tanto alimento quanto bálsamo para todos os corações, principalmente os famintos e os feridos.
Renato Noguera
Griot*, filósofo, escritor e celebrante de uniões amorosas
*Após anos de pesquisas documentais e análises genéticas, durante uma viagem à África Ocidental, foi reconhecido por griots das famílias Ndiaye e Seck – uma confirmação viva das histórias que seu avô materno lhe contava sobre a linhagem ancestral a que pertence.
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