Subversão Kafka exibe atualidade do autor com humor e referências contemporâneas

09/04/2026

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Subversão Kafka exibe atualidade do autor ao deslocar sua característica estranheza e melancolia para o humor e as referências contemporâneas  

Em seus diários, Kafka (1883 –1924) condensa a formulação do que ficou conhecido como sua marca, sua assinatura – ou, simplesmente, “kafkiano”. Por exemplo, em uma passagem célebre, no dia 2 de agosto de 1914, ele anota: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. – À tarde, natação”*. É com esta mesma concisão abrupta e desconcertante que Subversão Kafka captura a plateia para o espetáculo e o tempo efêmero do teatro, colocando todos imersos no aqui e no agora do instante presente no palco. 

Na peça, em cartaz no Sesc Bom Retiro até dia 26/4, dois artistas circenses alternam papeis para entreter a plateia enquanto aguardam a chegada de Josefina, a cantora – uma rata. A produção apresenta uma releitura de três contos da fase final do autor, os textos “Primeira Dor”, “O Artista da Fome” e “Josefina, a Cantora dos Ratos”, todos do livro “O Artista da Fome” [no Brasil, publicado pela Editora Companhia das Letras, com tradução de Modesto Carone, 1998.] 

De Kafka, se diz que o absurdo da vida diária – como atestam seus diários, aliás – é, então, o kafkiano. Normalmente este atributo é caracterizado pela atmosfera burocrática, irracional e opressiva, expressa em estruturas arbitrárias, narradas não raro pelas lentes do maravilhoso, não para escapar da realidade, mas para, deformando-a, expor a opacidade semântica do mundo na indiferença ao horror cotidiano.  

Na adaptação cênica em cartaz no Sesc Bom Retiro, o jogo dado pelos dois atores expõe o humor das situações desconcertantes de Kafka. Rogério Blat, dramaturgo que converteu a prosa do autor para a linguagem cênica, destaca que “o humor já está lá”, como “contraponto ao peso existencial e à angústia do autor”. Para adaptar as narrativas, Rogério ressalta que “é necessário uma desconstrução [da fábula em prosa, no livro, para a cena no palco, no teatro], para buscar a essência e transformar a narrativa em ação”.  

Ambientada num circo decadente, as narrativas mostram o ocaso de cada um dos artistas. Na encenação surge, em paralelo à negatividade de Kafka, os desafios do contemporâneo. Cada personagem está oprimida pelas circunstâncias, tendo a dor como destino final. Enquanto o trapezista envelhece, o jejuador se encontra desempregado e desprestigiado, ao passo que a rata Josefina depende da influência angariada junto aos seus seguidores, já que seu canto antes espanta do que encanta. 

De acordo com o diretor da peça, Caio Blat, “os últimos contos escritos por Kafka revelam um olhar sobre os artistas e suas dores contemporâneas. Ele antecipou sintomas da modernidade, como a superexposição e a obsolescência, que experimentamos hoje, cem anos depois”.  

As apresentações contam ainda com a participação em cena de Fernando Moura, músico e compositor de trilhas para diferentes mídias e suportes. No palco, Moura recorre a instrumentos como o teclado, também um “pianinho de brinquedo, um toy piano”, a programação eletrônica em ipad, e até o teremim (instrumento musical eletromagnético a base de antenas e que funciona sem contato, semelhante a um radar): “são sons muito diversos e usados de uma maneira inesperada, para criar o clima insólito e compor uma atmosfera [inspirada em] Kafka”, afirma o músico.  

“[…] os últimos contos escritos por Kafka revelam um olhar sobre os artistas e suas dores contemporâneas. Ele antecipou sintomas da modernidade, como a superexposição e a obsolescência, que experimentamos hoje, cem anos depois”.  

Caio Blat

Embora tenha uma sequência de acordes estabelecidas de acordo com as passagens da peça, “a cada noite toco de uma maneira diferente”, revela, bem-humoradamente o compositor. “Com cada sequência eu vou desenhando o que vai se delineando ali na hora. Depende de tudo, do nosso estado, do jogo em cima do palco e, claro da reação do público também”.  

O espetáculo se completa com a atuação de Ricardo Blat – parceiro de cena de Caio Blat –, e que na peça é o intérprete multifacetado indo desde o melancólico trapezista, um ganancioso agenciador de artistas, até Josefina, a rata. Neste amálgama de diferentes espécies, entes, posturas e presenças, Ricardo Blat percorre diversas circunstâncias da trama, recriando, a cada passo, seus múltiplos modos de expressar, numa criação que compõe a própria artesania da cena.  

De tal modo que, se na abertura Ricardo Blat encena a pantomina da varrição do tablado convocando o público à imaginação enquanto seu personagem faz o encerramento de mais uma noite, no monólogo final, sentado ao proscênio, este mesmo ator interroga o futuro a partir do despojamento de sua arte – no fim das contas, é tudo sobre o teatro, nas palavras do próprio Ricardo Blat: “atuar é revelar o comportamento humano em suas dimensões físico e espirituais, a partir do que observo cotidianamente. O meu trabalho é o de encontrar dentro de mim as características que preciso para criar os personagens. Alinho o que surge tanto do personagem com o espaço onde ele percorrerá. Assim como o trapezista que não quer sair do palco, nesta existência tenho certeza de que o meu lugar, neste planeta, é o teatro”, finaliza o artista.  

Franz Kafka  

Franz Kafka nasceu em 1883 na cidade de Praga, Boêmia, hoje República Tcheca, na época pertencente ao Império Austro-Húngaro. Formado em direito em 1906, trabalhou como advogado em empresas de seguros. Duas vezes noivo de Felice Bauer, nunca se casou. Tuberculoso, alternava temporadas em sanatórios com o trabalho burocrático. Morreu em 1924, aos 40 anos de idade, num sanatório perto de Viena. Autor de textos seminais do século XX, como “A Metamorfose”, “O Processo”, “Carta ao Pai” e “Um Artista da Fome”, teve a maior parte de sua obra publicada postumamente. Viveu entre três culturas, sendo normalmente identificado como “judeu tcheco de língua alemã”.  

Para conhecer mais 

Perguntamos quais recomendações de leituras da obra de Kafka ou de artistas que dialogam com sua poética. Entre as respostas, clássicos modernos, livro de contos, cineastas que também são músicos e até HQs. Abaixo, as respostas:  

Caio Blat

“Recomendo os contos de Um Artista da Fome para nos contarem depois o que acharam da nossa adaptação.”   

Fernando Moura 

“O cineasta David Lynch, que também era músico, foi uma referência para a criação sonora – seu universo é dark, pesado e, ao mesmo tempo, surpreendente.  

Ricardo Blat 

“Em especial, O Processo (Companhia das Letras, tradução de Modesto Carone, 1997), que tem um formato de novela e contém toda a experiência kafkiana.” 

Rogério Blat 

“Tenho uma indicação preciosa para a leitura de Kafka: Desista! e outras histórias de Franz Kafka, ilustradas por Peter Kuper (Conrad, tradução de Alexandre Boide, 2008). É uma HQ sensacional!” 

*O trecho citado consta em Diários, 1909 – 1923, Franz Kafka, tradução de Sérgio Tellaroli, editora Todavia, 2021.


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