Duração: 600 minutos
atividade online
Grátis
Local: Plataforma Online
Inscrições a partir do 2/6, às 14h
Datas e horários
09/06 a 18/06
O que acontece quando uma matriz cinematográfica acostumada a escavar o passado encontra territórios onde o passado não passa? Este curso parte do horror folk britânico, no qual cultos, forças e modos de vida soterrados retornam para ameaçar a estabilidade do presente, para investigar sua torção no cinema latino-americano contemporâneo.
No modelo britânico, o horror muitas vezes opera segundo uma lógica sedimentar: a suposição de que houve um movimento e ele cessou, de modo que, lentamente, camada sobre camada, o tempo teria se estratificado no espaço. Escavar é encontrar o passado. O horror, nesses filmes, seria a descoberta de que as camadas não são estanques, de que o soterrado não está morto, de que o passado pode furar o presente e irromper. Sob a aldeia, a igreja, o campo ou a festa comunitária, haveria uma camada anterior, pagã ou herética, pronta para retornar como assombro.
Na América Latina, porém, nunca houve repouso suficiente para que a violência colonial se depositasse como camada estável. Desde a invasão europeia, a colonização segue operando em aliança com formas agressivas de exploração capitalista. Isso não significa que não haja história ou mudança, mas que estas operam por metamorfose. As formas de violência mudam, mas a violência não cessa. Os nomes mudam – colônia, império, república, democracia -, mas a estrutura de expropriação e morte continua no esbulho de comunidades tradicionais, na expropriação de territórios, no racismo estrutural, na precarização racializada e generificada do trabalho e nos golpes de Estado.
A lógica, desse ponto de vista, é sísmica: placas tectônicas em tensão constante, pressionando-se mutuamente até que haja uma liberação de energia. Mas o terremoto não é retorno de algo enterrado; é a manifestação de forças que estavam ativas o tempo todo, ainda que, por vezes, contidas.
Ao longo de quatro encontros, este curso examina como filmes realizados no século XXI produzem imagens sem assentamento. La Llorona (Jayro Bustamante, Guatemala, 2019) apresenta um sismo espectral diante do genocídio maia, da impunidade e dos limites dos tribunais no rastro da ditadura. La Casa Lobo (Cristóbal León e Joaquín Cociña, Chile, 2018) faz do stop-motion um contra-arquivo da Colonia Dignidad: matéria que não para de se deformar porque nenhuma forma consegue se fixar.
As Boas Maneiras (Juliana Rojas e Marco Dutra, Brasil, 2017) encarna o sismo num filho impossível: lobisomem filho de duas mulheres-mundos que não deveriam se tocar, cuja festa junina se transforma em caçada colonial, deslocando a monstruosidade para o próprio regime que tenta controlar a mistura. Cuando acecha la maldad (Demián Rugna, Argentina, 2023) apresenta um mal que não vem de fora, mas já está entranhado no solo como agrotóxico: invisível, contínuo, destruindo o tecido do mundo antes mesmo de o filme começar.
O percurso inclui ainda menção a filmes como Vuelven (Issa López, México, 2017), O Nó do Diabo (Ramon Porto Mota, Ian Abé, Gabriel Martins e Jhésus Tribuzi, Brasil, 2018), Medusa (Anita Rocha da Silveira, Brasil, 2021), Los que vuelven (Laura Casabé, Argentina, 2019), Brujería (Christopher Murray, Chile, 2023), Huesera (Michelle Garza Cervera, México/Peru, 2022), El páramo (Jaime Osório Marquez, Colômbia, 2011), e Los Hiperbóreos (Cristóbal León e Joaquín Cociña, Chile, 2024), entre outros, mobilizados para ampliar as discussões.
Com Juliana Fausto, filósofa, artista e pesquisadora da imagem. Doutora em Filosofia pela PUC-Rio, com pós-doutorado em Filosofia pela UFPR, é autora de A cosmopolítica dos animais (n-1 edições, 2020) e tradutora de Donna Haraway e Ursula K. Le Guin. Atua no campo do cinema há mais de 20 anos, tendo escrito críticas, artigos acadêmicos, textos para catálogos e capítulos de livro, além de ministrar aulas e participar de debates. Foi curadora, com Ana Vaz e Clémence Seurat, de Natures enragées – le cinéma d’éco-terreur, no Jeu de Paume, e realizou, com Darks Miranda, o curta A cosmopolítica dos animais. É coautora do argumento e colaboradora do roteiro de Canção da noite, longa de Maya Da-Rin em produção. Interessa-se especialmente por estudos animais, narrativa, filmes de gênero, cinema experimental e espectralidade. É membro da Cia Teatral Ueinzz e cofundadora da Academia Fantasma.
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