
Depois da Tetralogia que se encerrou no musical Língua Brasileira – concebido em parceria com Tom Zé – o coletivo Ultralíricos terminou sua década de atividades definida pelo jornal O Estado de São Paulo como “o projeto teatral mais importante dos últimos anos no Brasil”, com o espetáculo Fantasmagoria IV. No entanto, Felipe Hirsch propõe um novo caminho. Dois anos depois, um novo capítulo desse coletivo de artistas se anuncia:
Orkhḗstra Phántasma
“Começa comigo na frente de um vídeo da exposição de Caetano Galindo e Daniela Thomas “Fala, Falar, Falares”, no Museu da Língua Portuguesa, aprendendo que Karaokê é kara (空) vazio, e ōkesutora (オーケストラ) orquestra. Orquestra Vazia. Eu já andava pensando em ὀρχήστρα (orkhḗstra), não como o abismo místico Wagneriano, mas como gregos chamavam esse espaço destinado ao coro e a manifestação de φάντασμα (phántasma)”
Orkhḗstra Phántasma é o conjunto de sons, vozes, ruídos, obsessões, mitos e ideias que cruzam uma cabeça. Uma transmissão de rádio que muda de estação constantemente e sem nosso controle, uma antena sensível a sons provindos de outros tempos, mundos diferentes, vozes vivas e mortas. Essa orquestra, inexistente mas presente, pode falar línguas que não entendemos, idiomas que talvez nem existam, pode nos colocar numa posição de fascínio, ou recusa. Mas se recusa, ela mesma, a nos atender no que podíamos esperar. As frequências que sintoniza, são ao mesmo tempo rádio (na medida em que nos oferece o inesperado), jukebox (quando se serve de um repertório prévio e seleciona), turntable (ao manipular esses materiais de modo criativo) e novamente karaokê (por exigir a nossa participação).
No Rádio, o ouvinte não controla muito se não girar o dial (uma contratendência, como Adorno nos disse), ele entra num fluxo já montado de locução, programação, horários, notícias, vinhetas, a voz íntima de quem fala sem estar presente. O rádio cria uma comunidade invisível. Também é uma máquina de simultaneidade: muita gente, em lugares diferentes, ouvindo a mesma coisa. Pode ser uma representação daquilo que chega até você sem que você tenha pedido exatamente. Daquilo que vem de cima, de fora, de longe, ou de um centro difusor. A sua língua materna, moral, narrativas oficiais, propaganda, mercado e, claro, uma canção que pode salvar sua vida.
A Jukebox e seu aparente poder de escolha. Você escolhe dentro de um repertório já curado pelo mercado, e todos ouvem. Pode ser uma representação daquilo que te oferece a sensação de ser livre, mas entre opções disponíveis e pré-determinadas. Você aperta um botão e sente que decidiu. Alguém precificou seu acesso e organizou a interface. Menus, streaming, eleições democráticas, liberdade de consumo, datings apps, curadorias, personalizações, carreiras, lifestyle, redes sociais e seus algoritmos e, claro, uma canção que pode salvar sua vida.
E Karaokê, o passo seguinte: não basta escolher a música, é preciso participar. A máquina fornece a base, a letra, a estrutura, e a pessoa empresta o corpo e a voz. O ouvinte vira intérprete. Não basta ouvir, nem escolher, você precisa se envolver, se expor, performar, se comprometer. Uma representação daquilo que exige sua voz, seu corpo dentro de estruturas mercantis. Empreendedores, personas, influencers, vida pública, casting, scripts, papéis de gênero, códigos de classe, posturas profissionais, autenticidade, entrevistas, exposição, política, fama, realities, meritocracia, visibilidade, participações obrigatórias e, claro, uma canção que pode salvar sua vida.
A sentida liberdade de escolha é limitada por corporações e governos. A vigilância, o controle e a apropriação do ruído são um reflexo do poder político. O ruído é uma subversão e um refúgio.
Esta peça é sobre a ilusão de que somos livres dentro da nossa própria cabeça.
Felipe Hirsch conta:
“No seu livro, The Weird and the Eerie, Mark Fisher conta sobre a teoria do Stone Tape que parte da ideia de um lugar que pode gravar acontecimentos, sobretudo intensos ou traumáticos, como se suas paredes, pedras, madeira funcionassem como uma fita magnética. A teoria tenta explicar que certos “fantasmas” são reproduções da casa, uma cena do passado que ficou impressa no ambiente e volta a se manifestar como uma gravação residual. Eu já havia falado sobre isso com o Antunes sobre o terceiro ato de FIM. A casa onde morei até a minha adolescência está vazia. Todo mês eu entro ali e seu silêncio é impressionante. No entanto, na sala de jantar, posso ouvir (e ver) todos que ainda estão ali. Não é algo etéreo, tampouco sobrenatural. Todos os meus sentidos são inundados involuntariamente pela mais poderosa encarnação da memória e depois, o mesmo profundo silêncio atordoante. Nunca ouvi nada assim. É a maior experiência sobre o tempo que provei na minha vida. Naquela noite soube por alguns minutos sobre o que seria essa peça. Nos primeiros dias de março, mandei a seguinte mensagem para o Caetano: “e se fosse sobre vozes na cabeça? A cabeça é uma orquestra para os fantasmas”. Uma peça feita de fragmentos perdidos. E cheguei a falar sobre minha vontade de reconstruir um fragmento de Eurípides da tragédia Melanipe Sábia. Nos próximos dias, comecei a colecioná-los. De Anzili–Zukki, divindades hititas, até as poucas frases que tenho do trabalho que faríamos juntos, Domingos (Oliveira), Fernanda (Montenegro), Paulo (José) e eu. Tudo que se perdeu, ou foi ceifado, e de alguma forma está gravado nas paredes. Sobre isso, salvei na minha cabeça um belo trecho de Aulo Gélio, Noites Áticas, contando dos Livros de Sibila. Pouco tempo depois, Georgette escreveu um texto durante um ensaio que me impressionou muito. Sua cabeça lhe cobrava, na forma de uma narrativa de diário, uma conduta, um desempenho, coragem, persistência, determinação, uma segurança que me pareceu sobre-humana e, no entanto, muito reconhecível. Perguntei se isso “passava por sua cabeça”. Sua resposta veio num carregamento de dezenas de diários escritos ao longo de quarenta anos. Parte do material você ouvirá nesta peça”.
A vida é cheia de ruído.
Esqueça tudo. A cabeça é sua.

Foto: Mayra Azzi
Sinopse:
Orkhḗstra Phántasma é o conjunto de sons, vozes, ruídos, obsessões, mitos e ideias que cruzam uma cabeça. Uma transmissão de rádio que muda de estação constantemente e sem nosso controle, uma antena sensível a sons provindos de outros tempos, mundos diferentes, vozes vivas e mortas. Essa orquestra, inexistente mas presente, pode falar línguas que não entendemos, idiomas que talvez nem existam, pode nos colocar numa posição de fascínio, ou recusa. Mas se recusa, ela mesma, a nos atender no que podíamos esperar. As frequências que sintoniza, são ao mesmo tempo rádio (na medida em que nos oferece o inesperado), jukebox (quando se serve de um repertório prévio e seleciona), karaokê (por exigir a nossa participação) e turntable (ao manipular esses materiais de modo criativo). Esta peça é sobre a ilusão de que somos livres dentro da nossa própria cabeça. Esqueça tudo. A cabeça é sua.
Ficha técnica
Direção Geral
Felipe Hirsch
Codireção
Juuar
Dramaturgia
Caetano W. Galindo
Felipe Hirsch
Juuar
Orkhḗstra Phántasma
Elenco
Georgette Fadel
Milla Fernandez
Pascoal Da Conceição
Renato Livera
Roberta Estrela D’alva
Thalin
Thiago Amaral
Participação de
Gabriela Geluda
Direção de Arte e Cenografia
Daniela Thomas
Felipe Tassara
Iluminação
Beto Bruel
Trilha e Paisagem Sonora
Os Fita (Abel Duarte E Cainã Bomilcar)
Figurino
Alexandre Herchcovitch
Direção de Movimento
Eduardo Fukushima
Identidade Visual e Projeto Gráfico
Radiográfico
Direção de Produção
Aura Cunha (Elephante Produções)
Serviço:
Orkhḗstra Phántasma
De 20/6 a 2/8 de 2026
Quinta a sábado, 20h
Domingo, 18h
Quarta (22/07), 15h e quarta (29/07), 20h
*exceto dias 5, 9, 11 e 19/7
25 e 26/7
Sessões com recursos de acessibilidade: audiodescrição e interpretação em libras
Local: Sesc Vila Mariana
R. Pelotas, 141 | São Paulo – SP
Classificação indicativa: 18 anos
Duração: 180 minutos
Ingressos à venda no aplicativo Credencial Sesc SP, em centralrelacionamento.sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades.
Valores: R$90 (inteira), R$45 (meia) e R$27 (Credencial Sesc).
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