
“Um século de documentário brasileiro – do nacionalismo ao protesto” reúne e analisa filmes que ajudaram a registrar e interpretar a história social e política do país.
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Por João Batista de Andrade*
Neste livro, Darlene J. Sadlier analisa cerca de cem documentários de curta e longa-metragem que dialogam com a história social e política do Brasil moderno. Nessa produção, o nacionalismo e o protesto são faces de uma história que buscou distinguir a grandeza e a precariedade de um país múltiplo, em permanente construção, onde muitos cidadãos permanecem invisíveis.
A transição da ditadura ao regime democrático, os desafios da vida nas periferias dentro e fora das grandes cidades, a privação e a luta por direitos básicos, os embates entre raça, gênero e classes sociais estão entre os temas presentes no cinema documental brasileiro, ora discutidos.
O cinema documentário nasce de uma tensão fundamental entre o real e sua encenação, entre o registro e a imaginação. Desde Nanook, o esquimó (1922), de Robert Flaherty –marco inaugural do gênero –, sabemos que filmar o mundo é também reinventá-lo. É dessa tensão que emerge a força do documentário, sua capacidade única de iluminar vidas, histórias e conflitos muitas vezes invisíveis.
Este livro percorre um século de documentário brasileiro, registrando uma tradição rica, inventiva e profundamente ligada às transformações do país. Dos primeiros registros da Amazônia em No país das amazonas (1922),
de Silvino Santos, passando pelas experiências modernas de São Paulo, a sinfonia da metrópole (1929), pela densidade histórica de Cabra marcado para morrer, pela invenção crítica de Ilha das Flores e pelos retratos incisivos de filmes como Ônibus 174 e O processo, desenha-se aqui um amplo painel de formas, temas e olhares.
Ao longo destas páginas, o documentário aparece como instrumento de memória, crítica e descoberta. Em períodos de censura e repressão, foi linguagem de resistência; em tempos de abertura, tornou-se campo fértil para experimentação. Hoje, impulsionado pela democratização das tecnologias e pela emergência de novas vozes, incluindo jovens realizadores, mulheres e cineastas indígenas, o documentário brasileiro reafirma sua diversidade e vitalidade, alcançando reconhecimento internacional e ampliando seu público.
Mais do que um inventário de filmes, esta obra propõe uma leitura do Brasil através de suas imagens: um país atravessado por contradições, marcado por desigualdades históricas, mas também por uma extraordinária potência criativa. Ao documentar o trabalho, a cidade, o sertão, os povos originários, a música e a política, esses filmes revelam não apenas o que somos, mas também aquilo que ainda insistimos em não ver.
Como cineasta, saúdo os companheiros documentaristas deste país, aqueles que, com coragem e invenção, persistem em olhar o Brasil de todos os ângulos, transformando imagens em consciência e memória.
E saúdo, de modo especial, a autora desta obra, Darlene J. Sadlier, cuja iniciativa torna possível esse amplo e necessário panorama. Professora e pesquisadora dedicada aos estudos do Brasil, com sólida trajetória acadêmica, Sadlier construiu ao longo de décadas uma obra que articula literatura e cultura lusófonas e cinema brasileiro no contexto internacional. Seu olhar atento e generoso reconhece a potência singular do documentário como forma de pensamento e expressão. Ao reunir, organizar e interpretar esse vasto conjunto de obras, ela oferece ao leitor não apenas um guia, mas uma verdadeira cartografia crítica do documentário brasileiro.
Num tempo em que a verdade se torna cada vez mais disputada, o documentário reafirma sua vocação essencial: buscar, nas fissuras do real, aquilo que precisa ser dito.
João Batista de Andrade, cineasta brasileiro que escreve, dirige e produz filmes de ficção e documentários desde os anos 1960.
:: Trecho do livro
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