Ancestralidade e tecnologia em defesa dos direitos dos povos indígenas 

22/07/2026

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Minha meta de vida é transformar a política institucional para os povos indígenas.

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Por Eunice Kerexu Yxapyry

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Enquanto liderança indígena do povo Guarani Mbya, trago comigo que minha meta de vida é transformar a política institucional para os povos indígenas, de modo que ela deixe de ser um sistema de domínio das pessoas e se transforme em um espaço de envolvimento e ocupação para pessoas e coletivos indígenas.  

Nessa perspectiva, comecei a pesquisa sobre o sistema nacional de educação, entendendo a escola como um paradoxo na educação do povo Guarani, por ela constituir um sistema de militarização humana que chega nas aldeias para criar máquinas de trabalho. Por essa razão, a educação escolar contrapõe-se à educação tradicional dos povos indígenas, que acabam excluídos ou submetidos a um processo de “embranquecimento de suas mentes”.  

Nós, povos indígenas, somos detentores de uma tecnologia ancestral que é a espiritualidade, a qual nos conecta a um mundo de informações avançadas e prevê os cuidados necessários para a proteção e o fortalecimento dos nossos modos de vida – garantidos também pela Constituição Federal de 1988, que resguarda os direitos dos povos indígenas e suas formas de organização.

  

No dia a dia, as comunidades Guarani Mbya usam as ferramentas tecnológicas mais recentes para fortalecer a cultura, defender os territórios e ampliar a voz política do povo guarani, sem, no entanto, abandonar os conhecimentos ancestrais. Em diferentes esferas, diversas tecnologias vêm sendo incorporadas às nossas lutas sociais: 1) Comunicação digital: uso de celulares, redes sociais e aplicativos de mensagens para conectar as aldeias, organizar encontros e mobilizações e divulgar nossas reivindicações. 2) Registro cultural: gravação de cantos, histórias, rituais e da língua guarani para preservar conhecimentos e transmiti-los às novas gerações. 3) Produção audiovisual: muitos jovens têm se engajado na produção de vídeos, documentários e fotografias para mostrar a realidade em que vivem a partir de suas perspectivas. 4) Mapeamento territorial: para mapear os territórios, identificar áreas tradicionais e denunciar invasões ou impactos ambientais, recorremos ao GPS, drones e mapas digitais. 5) Educação intercultural: o acesso à internet e a plataformas digitais serve de apoio à educação intercultural, combinando saberes tradicionais e conhecimentos contemporâneos. 

Esse modo guarani de utilizar os novos recursos tecnológicos revela que eles não são apenas ferramentas técnicas, pois podem servir como instrumentos de resistência política e cultural, ao visibilizar conflitos fundiários e ameaças ambientais; divulgar denúncias para a sociedade e para órgãos públicos; fortalecer redes de apoio com universidades, organizações e movimentos sociais; e valorizar a língua e a identidade guarani. 

Com a minha experiência, ao levar a palavra e a força dos povos indígenas a espaços como a Conferência das Partes (COPs) e a ONU, busco afirmar continuamente que a luta pelo clima, pela terra e pela vida é uma só. Em defesa do território, da Mãe Terra e do bem-viver, tenho como propósito fortalecer a presença e a voz das mulheres nas articulações políticas e espirituais do povo Guarani, e vejo a tecnologia como uma aliada nisso. Não há razão em opor tradição e modernidade: a complementaridade entre as duas alimenta a nossa luta, expande as nossas redes de apoio, denuncia a violência contra nossos povos e nossos territórios. Com isso, salvaguardamos a nossa cultura, a nossa língua e a nossa identidade, e asseguramos a nossa autonomia como povos originários. 


Eunice Kerexu Yxapyry é Liderança Mbya Guarani, vive na Terra Indígena Morro dos Cavalos, em Santa Catarina. Em sua trajetória de luta atuou ativamente pela homologação da Terra Indígena Morro dos Cavalos, onde vive em SC, além de ser uma das primeiras cacicas de seu povo. Mobilizadora da organização do coletivo de mulheres Guarani de sua aldeia, Kunhangue Rembiapo, é cofundadora da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) e do movimento de mulheres da Comissão Guarani Yvyrupa. Kerexu tem dedicado sua vida à defesa do território, da Mãe Terra e pelo bem-viver. Entre 2019 e 2022, foi a primeira mulher a assumir a coordenação Tenondé da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), fortalecendo a presença e a voz das mulheres nas articulações políticas e espirituais do povo Guarani. Foi candidata a Deputada Federal por Santa Catarina em 2018, alcançando 10.252 votos – e, em 2022, recebeu 35.214 votos. Mais recentemente, atuou no Ministério dos Povos Indígenas (MPI), tendo sido a primeira secretária de Direitos e Proteção Territorial, articulando, em âmbito interministerial, as demarcações das terras e contribuindo para a construção de políticas públicas voltadas à proteção dos territórios e ao enfrentamento da crise climática a partir da visão dos povos originários. Foi coordenadora do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Interior Sul, trabalhando pelo fortalecimento da saúde indígena e pela valorização dos saberes tradicionais dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.


Por meio de apresentações, bate-papos, exibições e oficinas, a programação destaca as tecnologias desenvolvidas e utilizadas pelos povos indígenas no Brasil para fortalecer suas culturas e conservar seus territórios. Saiba mais sobre o Agosto Indígena clicando aqui.

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