Pela primeira vez, de novo 

31/07/2026

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Assim que botei os pés na cidade, ouvi do taxista que me levaria ao hotel: Você não é filha da Renata? Essa cena se repetiria algumas vezes ao longo dos próximos dias, sem ensaios, porque eu e minha mãe nos parecemos muito fisicamente (dizem) e porque eu acabara de chegar em São José do Rio Preto, município onde nasci e cresci, para trabalhar no FIT, festival que me mostrou o mundo por meio do teatro. Sim, sou eu.  

Não escrevo em primeira pessoa há algum tempo. Pelo menos não de forma tão direta e pública. Há uma deturpação do significado de imparcialidade no jornalismo que cria um sentido nebuloso e quase obrigatório de isenção. Mas se tudo é ponto de vista, e nenhum ponto de vista é isento, é quase impossível escrever de maneira completamente distanciada – ainda mais nessas circunstâncias e sobre teatro, “o lugar de onde se vê”. 

E o que vi, nesta edição, foi um Festival Internacional de Teatro mais acessível, no sentido geral da palavra. Com todos os ingressos gratuitos e ampliação de recursos como libras e audiodescrição, o FIT voltou a ocupar teatros, praças e ruas da cidade com espetáculos para pessoas de todas as idades e necessidades. Na programação, de linha curatorial bem impressa, a maioria das peças foi também palatável ao grande público, mesmo aquelas de temáticas consideradas mais densas.

(Um) Ensaio Sobre a Cegueira - Foto: Vivian Gradela
(Um) Ensaio Sobre a Cegueira, do Grupo Galpão – Foto: Vivian Gradela

Foi o caso da aguardada (Um) Ensaio Sobre a Cegueira, do Grupo Galpão, que adapta o clássico romance de José Saramago para os palcos questionando ética e moral humanas em situações extremas, e Republikkk ou Encruzilhada Não é Beco, do REC Instituto, que encena o luto de um pai pela perda da filha no contexto da pandemia de covid-19 embalado por tradições populares como a folia de reis. Em ambas, notei as mais variadas reações do público, do riso ao choro, do espanto ao encantamento, que culminaram em catárticos aplausos no final. 

Mas, para mim, foi o teatro negro e as manifestações da afro diáspora o grande destaque de 2026. O espetáculo de abertura {Fé}sta, do Coletivo Prot{Agô}nistas, levou uma leitura singular do circo às margens da Represa Municipal; Os Orixás, do Grupo Giramundo, contou a origem do planeta por meio de bonecos que representam entidades da mitologia africana e forças da natureza; Pai Contra Mãe ou Você está me Ouvindo?, do Coletivo Negro, se inspirou em Machado de Assis para escancarar o racismo estrutural do Brasil presente desde os tempos da escravidão até os dias atuais, quando uma simples compra de supermercado, para uma mulher preta, se transforma em tortura. Três montagens muito distintas em linguagem e abordagem, mas que compartilham o feito de materializar cenicamente histórias pouco contadas e corpos forçosamente invisibilizados.

Disputas por território também estiveram presentes, como no espetáculo Cena Ouro – Epide(r)mia, da Mungunzá, que revê outro trabalho da companhia e coloca em cena artistas simultaneamente marginalizados pelo sistema e acolhidos no recém desapropriado e demolido Teatro de Contêiner. Em Khalil Khalil, as tensões ganham contorno de autoficção no solo do artista palestino Khalil Albatran, que fala sobre a perda do próprio irmão em um conflito em Gaza. E, por que não?, no infantil, Tô Fraco, Tô Fraco!, da Companhia Azul Celeste, que pauta o respeito às diferenças a partir do choque cultural entre galinhas de penugens distintas.

Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo?, do Coletivo Negro - Foto Vivian Gradela
Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo?, do Coletivo Negro – Foto Vivian Gradela

Apesar de bem familiarizada com Rio Preto e conhecer, ou achar que conheço, boa parte dos locais de apresentação, duas sessões em espaços abertos me fizeram olhar a cidade de novos jeitos e olhar para dentro. Em um tanque desativado do Complexo Swift, o coletivo (se)cura humana escancarou a irreversibilidade da destruição da natureza com a peça-performance Corpo-Árvore. Já o Em Bando Coletivo (na foto de Milena Aurea, que abre este texto) convidou o público a caminhar pelas ruas do centro guiado pela áudio-tour Estou Bem Aqui e Lembrei de Você

Durante os dez intensos dias de FIT 2026, entre espetáculos e mesas de debates, mas especialmente ali, dobrando esquinas antes tão banais e revisitando memórias e lugares (como as lojas de tecido que frequentei na infância, acompanhando minha vó, Apparecida), me dei conta deste poder invisível que o teatro tem em comum com a vida: o de sempre se repetir e, ao mesmo tempo, sempre ser inédito. 

Isabela Lisboa é atriz, roteirista e diretora audiovisual, está analista de comunicação no Sesc São Paulo. 

O Festival Internacional de Teatro é realizado pela Prefeitura de São José do Rio Preto e pelo Sesc São Paulo.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Sesc.

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