
Exibição da 2ª edição do telejornal reuniu jovens, familiares e convidados e marcou a conclusão de um semestre de educomunicação socioambiental no projeto A Floresta é Nossa
Quando as luzes da sala de convenções do Sesc Bertioga baixaram, os rostos que surgiram na grande tela eram conhecidos por boa parte da plateia. Jovens que, meses antes, discutiam natureza, território e comunicação agora apareciam como repórteres, entrevistadores, apresentadores e personagens de uma história contada por eles mesmos. Vieram os sorrisos ao se reconhecerem no telão, os olhares orgulhosos das famílias e a emoção de assistir ao resultado de um trabalho construído em grupo.
Assim aconteceu a estreia especial da 2ª edição do telejornal Vozes da Mata, produzido por adolescentes de diferentes bairros de Bertioga durante o primeiro semestre de 2026. O trabalho integra o projeto A Floresta é Nossa, realizado pelo Sesc Bertioga, no âmbito da Reserva Natural Sesc Bertioga, em parceria com o ECO-SER, do Instituto Devir Educom.
A sessão colocou na tela algo que começou muito antes das gravações. Desde 2023, A Floresta é Nossa aproxima jovens de Bertioga da educação ambiental e da comunicação, dando continuidade a uma história que já passou pelo rádio, pelo podcast, por produções audiovisuais e, nas edições mais recentes, chegou ao telejornal. Em 2025 e 2026, a parceria com o Instituto Devir Educom incorporou ao percurso práticas de jornalismo cidadão, educação midiática e Educomunicação Socioambiental.
Na nova edição, o Vozes da Mata assume a irreverência e a curiosidade dos jovens para falar de assuntos que atravessam o cotidiano de Bertioga. A obra do líder indígena Ailton Krenak, estudada durante os encontros, provocou uma pergunta que percorre todo o programa: em que momento a humanidade passou a se imaginar separada da natureza?
A partir daí, as câmeras seguem para os bairros, comunidades tradicionais e indígenas e outros lugares que fazem parte da vida dos participantes. As reportagens discutem ancestralidade, desenvolvimento e preservação, identidade cultural, pertencimento e modos de vida capazes de ensinar outras relações com a terra. A linguagem também mostra os bastidores da apuração: os jovens pesquisam, perguntam, entrevistam, registram e aparecem em campo construindo a notícia.
Essa escolha deixa uma marca importante no telejornal. As questões ambientais não chegam apenas como números distantes ou imagens de catástrofe. Ganham endereço, sotaque, memória e gente. Os impactos aparecem no lugar onde se vive, mas ali também estão conhecimentos, práticas comunitárias e histórias que ajudam a imaginar respostas.
Por isso, as denúncias dividem espaço com anúncios. O Vozes da Mata fala das pressões sobre o território e das inquietações de quem vive nele, mas procura também aquilo que resiste: a relação dos povos originários com a terra, os saberes das comunidades tradicionais, a memória caiçara e formas de convivência que desafiam a ideia de que desenvolvimento e preservação precisam caminhar em sentidos opostos.
Na plateia da estreia, esse percurso reapareceu de outro modo. Familiares e convidados assistiram aos adolescentes ocuparem a tela com desenvoltura, humor e posicionamento. Nos depoimentos depois da exibição, a emoção vinha acompanhada do reconhecimento do que havia acontecido ao longo daqueles meses. A graça de se ver na televisão era evidente; perceber que uma reportagem, uma entrevista ou uma cena só existiam porque muitas mãos trabalharam juntas carregava outro peso.
Ali, o resultado de uma produção audiovisual se misturava a algo menos visível. Saber formular uma pergunta. Sustentar uma ideia. Escutar uma pessoa antes de ligar a câmera. Reconhecer o próprio bairro como fonte de conhecimento. Descobrir que uma opinião pode ganhar argumento, apuração e linguagem.

A estreia também ganhou as lentes da TV Cultura Litoral. Em reportagem exibida no Jornal Litoral, a emissora acompanhou a sessão no Sesc Bertioga e levou para outra tela uma história que já havia nascido diante das câmeras. A matéria apresenta o Vozes da Mata como um telejornal produzido por jovens de Bertioga que estimula a comunicação e a conscientização ambiental.
As imagens registram diferentes camadas daquele encontro: a sala cheia, familiares e participantes diante do telão, trechos das reportagens, entrevistas produzidas pelos próprios adolescentes e detalhes do processo criativo — até a aquarela usada na construção visual do telejornal aparece diante das câmeras.
A reportagem ouve Carlos Guimarães, antropólogo e educomunicador do Instituto Devir Educom, e Rogério Xing, educador ambiental do Sesc Bertioga, situando a formação e a aposta do projeto na participação dos jovens. Mas são eles próprios que também ocupam o microfone da TV Cultura Litoral. Sol Passareli, de 16 anos, João Pedro Cerqueira, de 17, e Julia Prudente, de 14, aparecem falando depois da sessão, agora entrevistados por uma equipe profissional de jornalismo.
Há algo curioso e bonito nessa inversão. Durante meses, eles aprenderam a estar do outro lado do microfone: escolher a pergunta, chegar perto, ouvir, apurar, decidir o que merece ser contado. No dia da estreia, tornaram-se também fonte da notícia. O telejornal feito por eles passou a circular para além da sala e a chamar a atenção de outro veículo de comunicação.
Dê o play na reportagem da TV Cultura Litoral e acompanhe um pouco da estreia, das falas dos jovens e do clima que tomou conta da sala naquele dia.
Assista também à reportagem da TV Cultura Litoral sobre a estreia:
Esse jogo de espelhos ajuda a dimensionar o que aconteceu. Jovens que começaram o processo aprendendo como uma notícia é construída viram o próprio trabalho virar pauta. E, nesse deslocamento, a comunicação deixa uma marca bastante concreta: aquilo que era uma conversa dentro do grupo ganha o bairro, a cidade, a televisão e novos públicos.
É justamente aí que a educomunicação ocupa um lugar central em A Floresta é Nossa. Quando jovens deixam de aparecer apenas como público das mensagens produzidas por adultos e participam da escolha das pautas, da pesquisa, das entrevistas, das imagens e das decisões narrativas, muda também a posição que ocupam diante do território. Eles passam a disputar quais assuntos merecem atenção e de que maneira suas comunidades serão representadas.
No Vozes da Mata, ativismo ambiental e comunicação caminham juntos nesse exercício. O planeta pode ser uma questão global, mas suas transformações são percebidas em lugares concretos: na mata, na praia, no bairro, no modo como uma comunidade preserva sua história e nas decisões que alteram a vida de quem mora ali.
O próprio telejornal recusa a ideia de que falar sobre a crise socioambiental seja apenas acumular previsões sombrias. O catastrofismo pode produzir medo e paralisia; os jovens procuram outra frequência. Denunciam, sim, mas vasculham o território também atrás de conhecimentos e práticas que apontem respostas. Nesse jornal, esperança não funciona como distração da realidade. Precisa de informação, memória e ação.
Talvez por isso o verbo esperançar faça tanto sentido neste trabalho. Não como uma espera confortável por dias melhores, mas como movimento: estudar um problema, pegar o microfone, ouvir quem conhece aquele chão, confrontar informações e colocar uma ideia em circulação. Os jovens fizeram isso brincando “sério” de jornalismo.
No evento de estreia, os olhares orgulhosos e os depoimentos emocionados da plateia mostraram outra dimensão desse processo. Há a graça imediata de se ver numa tela grande. Mas existe algo que permanece depois que a imagem passa: reconhecer-se capaz de produzir aquilo que está sendo exibido, perceber a própria voz ocupando um espaço público e saber que ela pode informar, questionar e educar.
Quando a sessão terminou, o telão se apagou. O que aqueles adolescentes haviam produzido já tinha escapado da tela: estava nas conversas da plateia, no orgulho das famílias, na reportagem que levaria a história a outros espectadores e na maneira como aqueles jovens passaram a ocupar a própria cidade também como autores de suas notícias.
A 2ª edição do telejornal Vozes da Mata está disponível nos canais do Instituto Devir Educom no YouTube. Bora esperançar?










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E o projeto já prepara sua próxima turma. Em setembro, A Floresta é Nossa – Como registrar um evento reúne jovens de 12 a 18 anos em uma formação audiovisual com o Devir Educom, voltada ao registro de acontecimentos com recursos simples. Serão sete dias de atividades presenciais no Sesc Bertioga, passando por planejamento, captação de imagens e construção de narrativas.
Parte do aprendizado acontecerá em campo: de 11 a 13 de setembro, os participantes acompanharão de forma imersiva o Festival O Mar em Nós, dedicado nesta edição ao tema “O mar como santuário da vida, das culturas e do clima”. Será a oportunidade de observar de perto um evento, escolher o que merece ser registrado, ouvir diferentes vozes e transformar aquilo que acontece diante da câmera em uma narrativa própria.
Se o Vozes da Mata mostrou o que pode nascer quando jovens assumem o microfone e contam o território a partir de seus próprios olhares, a próxima turma já tem um novo desafio pela frente: aprender a registrar o que acontece enquanto a história ainda está acontecendo.
Pré-inscrições até 21/8:
https://bit.ly/floresta_e_nossa_pre_inscricao
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