
“De algum modo, parecia que todo mundo sabia para onde ir, menos eu.
E ninguém se deu ao trabalho de me dizer. […]
Então atravessei o corredor escuro, onde um atendente cansado estava sentado em um banco, e entrei no dormitório do andar de cima.
O ambiente era iluminado apenas por uma luz azul, cujas lâmpadas, vistas à distância, pareciam ter centros vermelhos. […]
Minha primeira reação foi uma espécie de espanto que fez meu coração disparar, muito próximo do medo.”
Samuel R. Delany
The Motion of Light in Water: Sex and Science Fiction Writing in the East Village
Em uma noite quente e úmida do outono de 2016, cheguei à minha primeira festa lésbica desde que havia me mudado para Recife. À entrada de uma casa pequena, sem placas ou qualquer sinalização do que acontecia em seu interior, mulheres e pessoas queer formavam uma fila que se espalhava pela calçada. Algumas fumavam em silêncio; outras conversavam entre si. A montação as distinguia e, ao mesmo tempo, as reunia: cabeças raspadas, cabelos coloridos, alisados e afros; piercings e tatuagens pelo corpo; unhas curtas e compridas, pintadas ou roídas. Aos poucos, entravam sozinhas ou em pequenos grupos. De boca em boca, o espaço era conhecido como o lugar para a primeira experiência na vida noturna lésbica da cidade.
E lá estava eu, acompanhada de duas amigas que havia acabado de conhecer.
Do lado de fora, ouve-se a música eletrônica que escapa do interior da casa para a rua. Após alguns minutos na fila e trocar algumas notas amassadas por uma pulseira rosa fluorescente, entro. Ao cruzar um portão antigo de metal, o grave das caixas de som reverbera pelas paredes. Um corredor estreito, iluminado apenas por uma luz vermelha suspensa no centro, conduzia à pista de dança. Aos poucos, o vermelho cedia lugar a tons de azul e rosa, tomando conta do ambiente, que se revelava lentamente. Algo entre a timidez e a clandestinidade.
Tela vermelha. Ao som de uma música eletrônica cadenciada, quase como uma sinfonia, os nomes surgem um a um:
egypt
jazmyne
harmony
blaze
I-Dallas
mocha
Miss Mahogany
A música eletrônica permanece pulsando ao fundo. Primeiro, vemos o chão, coberto por notas de dinheiro. Aos poucos, um plano aberto revela o espaço tomado por mulheres. Algumas aguardam, tímidas, o início das apresentações; outras mal conseguem conter a expectativa, dançando pelo salão semi-iluminado e deixando escapar murmúrios de excitação. Uma mulher vestindo um traje de látex cor-de-rosa entra em cena e dança enquanto seduz o público. As curvas fortes, o cabelo comprido e os movimentos decididos de seu corpo capturam toda a atenção. Gritos e euforia irrompem. A música adquire tons sensuais para acompanhar sua apresentação. Uma a uma, as peças de seu figurino são retiradas.
“Eu não quero assustar ninguém, mas esta é uma boate gay.”
Shakedown (2019) é um documentário de Leilah Weinraub construído a partir do arquivo produzido pela diretora entre 2002 e 2004, período em que trabalhou como filmmaker em um clube de striptease de lésbicas negras, em Los Angeles, o mesmo que dá nome ao filme. As imagens, feitas com uma câmera doméstica, produzem uma sensação quase corporal em quem assiste: a proximidade e a instabilidade da câmera em meio à plateia; a trilha sonora, que mistura a pulsação do tecno às risadas do público e às intervenções da MC; o gesto repetitivo das dançarinas borrifando perfume no corpo enquanto esperam nos bastidores; o brilho do papel picado misturado às notas de dinheiro flutuando sob a luz colorida.
Fazia calor naquela noite. No ambiente apertado, mulheres performavam como studs, burlescas e sadomasoquistas, trajando roupas masculinas ou seminuas; outras se revezavam no equipamento de som, que reproduzia um ritmo sintético e repetitivo. Os corpos moviam-se como uma onda pelo espaço. Pelos cantos, algumas se beijavam, em duplas ou trios; outras trocavam olhares, como em um convite direto e silencioso. Fazia calor naquela noite. A fumaça dos cigarros acesos misturava-se ao gelo seco da máquina alugada.
Em sua autobiografia The Motion of Light in Water (1988), o escritor Samuel R. Delany relembra a primeira vez em que entrou numa casa de cruising2 em Nova York, nos anos 1960. Delany escreve a respeito de um sentimento de espanto ao se deparar com o espaço povoado por uma “massa de corpos” e um erotismo saturado e aberto em plena agência.
“Nos anos 1950 — e era um modelo de homossexualidade construído naquela década que
orientava tudo o que fazíamos, assim como a própria lei que nos perseguia — a
homossexualidade era concebida como uma perversão solitária.
Antes de qualquer coisa, e acima de tudo, ela o isolava.
[….], o que a orgia nas saunas revelou com uma amplitude e um realismo assustadores, foi
um fato que contrariava frontalmente toda aquela imagem construída nos anos 1950.
E era justamente essa contradição com aquilo que “sabíamos” que provocava medo.”
(DELANY, 2014, p. 336)
Quando penso na narrativa de Delany e no espanto provocado pela súbita percepção de fazer parte de uma coletividade muito maior do que imaginava, reconheço algo semelhante nas minhas próprias primeiras vezes e na maneira como foram mediadas pela visualidade. Não porque a visualidade tenha revelado uma identidade oculta, mas porque talvez seja justamente aí que resida uma primeira consciência do poder político: quando um fragmento do que você é se reconhece naquilo que existe fora.
Ao revisitar a obra de Delany, a historiadora Joan Scott desloca a experiência do terreno da evidência para o das condições históricas que a tornam inteligível. Ao analisar a cena da chegada à sauna, chama atenção para o modo como a narrativa organiza visualmente a experiência, produzindo um campo de percepção menos universal e mais situado. Seu interesse não está em tomar o espanto de Delany como prova de uma verdade interior, mas em compreender como sujeitos e desejos são produzidos nas relações que tornam possível reconhecer a si mesmo e aos outros como parte — ou não — de um mundo compartilhado. Nessa perspectiva, a visualidade não oferece transparência à experiência, mas uma legibilidade sempre parcial, afetada por uma camada de opacidade.
Penso a fumaça, tanto na sauna quanto na festa, como um elemento espacial opaco que não impede, mas frustra a transparência da visão. A reconstituição da experiência passa, assim, a se fazer por um conjunto de indícios, do qual essa mesma opacidade faz parte.
Sob essa fumaça, a festa segue noite adentro. Ela se adensa à medida que os corpos atravessam a pista em um mesmo compasso. O ar quente e úmido que sobe da multidão deposita-se sobre a pele até que o suor torna meu corpo uma superfície de contato com o das outras naquele lugar. Pouco a pouco, a música eletrônica sem letra cede lugar a um brega lento e apaixonado. Uma voz atravessa a pista:
Ontem sonhei com você
Estava no quarto tão só
Estava tão linda vestida naquele babydoll Melei minha boca de mel, pensando só em você Amor eu te quero, preciso desse teu prazer
E quando você toca em mim
Ah, ah, ah, eu fico toda molhada
A melancolia da melodia, somada ao desejo condensado em sua letra, aproxima os corpos numa mistura de acolhimento e erotismo. Tesão e amizade se confundem numa experiência coletiva de presença. Historicamente situado no cotidiano das classes trabalhadoras e nas cenas populares do Norte e do Nordeste, o brega inscreve esse momento no espaço e no tempo: informa que aquela festa acontece ali, em Recife, mas também circula por outras noites, corpos e desejos que poderiam ecoar em cidades como Nova York ou Los Angeles. Nunca da mesma forma.
Descrever uma primeira vez se aproxima menos da reconstrução de um acontecimento do que da montagem de fragmentos capazes de produzir uma atmosfera. Assisti a Shakedown pela primeira vez em meados de 2020 e, enquanto assistia, senti-me conectada a ele por uma sensação que transcendia as imagens projetadas na tela azul do meu computador e me levava de volta àquela noite quente de 2016, em Recife. Este texto nasce do entrelaçamento dessas duas experiências; por isso, talvez não seja importante distinguir o que pertence ao filme e o que pertence àquela memória.
Escrever sobre aquela noite se aproxima de narrar um filme: não porque o filme restitui uma experiência, mas porque a conexão entre ambos se constrói naquilo que não se recupera por inteiro. Um movimento transitório, possível apenas pela impermanência da imagem do sonho, da memória ou do cinema. Alguns lugares são difíceis de encontrar. Mas é importante não esquecer que eles existem.
Por Mariana Souza, curadora independente, pesquisadora e educadora. Sua prática transita entre o cinema e as artes visuais. Em suas pesquisas, interessa-se, em especial, pela relação entre imagem, memória e arquivo e pelas multiplicidades identitárias nas diásporas das Américas.
Diretora artística da Correnteza – Mostra Internacional de Cinema Atlântico e idealizadora dos cursos livres PULO – Ciclo de Oficinas sobre Imagens da Diáspora e Cinema Lésbico e as Práticas de Visibilidade. É mestranda em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). Participou das residências Instituto Inclusartiz (RJ, 2022) e Arché-RAW (Portugal/Espanha, 2022), do Locarno Industry Academy (2021), do Vitrine LAB (2023) e do 70º Flaherty Seminar (2025).
1.Scott, Joan W., and Marina Maluf. “A invisibilidade da experiência.” Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História 16 (1998).
2.Cruising é o termo utilizado para designar a prática de buscar encontros sexuais consensuais, geralmente anônimos, em espaços públicos ou semipúblicos, como parques, banheiros públicos, praias, saunas e outros locais de sociabilidade, especialmente entre homens gays e bissexuais.
3.BANDA METADE. Baby Doll. Intérprete: Banda Metade. In: Banda Metade, Vol. 2. JWB Digital Music 2020. Faixa 1.
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