
Há 15 anos na estrada, banda paulistana mostra que quanto mais particular é uma canção, maiores parecem ser as chances de ela encontrar outras pessoas.
Uma das coisas mais intrigantes sobre a música é a possibilidade da transformação. Quem a faz e quem a escuta recebe algumas oportunidades: de a melancolia se transformar em acordes, de as confissões se transfigurarem em composições, de os sentimentos serem ritmados. O que antes era íntimo, ao ser compartilhado entre vários indivíduos, gera identificação e alcança um novo estado, o de experiência coletiva.
É a história mais velha do mundo. Filhos, pais, avós, netos, bisnetos, seu vizinho da rua de baixo e até aquela pessoa mal-humorada que cruza seu caminho numa manhã qualquer no percurso para o trabalho já ouviu aquela música e sentiu quase como se estivesse tendo sua vida observada, pois não é possível que uma canção consiga descrever tão bem algo que ressoa de forma tão pessoal e específica.
Há uma espécie de paradoxo nesse processo. Quanto mais particular é uma canção, maiores parecem ser as chances de ela encontrar outras pessoas. Um verso escrito a partir de uma lembrança específica, de um término de relacionamento ou de uma inquietação pessoal deixa de pertencer apenas ao compositor quando encontra alguém que pensa: “é exatamente isso que eu sinto”. A música, então, passa a existir em dois lugares ao mesmo tempo – na memória de quem a criou e na experiência de quem a escuta.
É nesse momento que a arte rompe a lógica do individual e um sentimento que parecia solitário revela-se compartilhado por centenas, às vezes milhares de pessoas. O silêncio de quem escreveu dá lugar ao coro de quem se reconhece naquela história e cada voz acrescenta uma nova interpretação e, assim, uma nova camada de significado à mesma composição.
Poucas bandas brasileiras contemporâneas vivenciam esse fenômeno de maneira tão evidente quanto a Terno Rei. As canções do grupo paulistano de indie rock, conhecidas por traduzirem saudade, insegurança, desejo e melancolia em melodias delicadas, ganharam vida própria ao longo dos últimos 15 anos. Hoje, cada apresentação funciona como um reencontro entre músicas que nasceram de experiências particulares e um público disposto a transformá-las em parte da própria história.
Do palco, esse movimento continua surpreendendo a banda. Mesmo acostumados à rotina das turnês e até às reações do público, os integrantes encontraram no festival Sesc Thermas do Rock, em Presidente Prudente, interior de São Paulo, uma recepção que os impressionou. “Era um show de festival que, querendo ou não, é sempre um pouco mais frio do que um show só nosso. Só que hoje foi muito especial. A galera estava super dentro. É bem gratificante e dá um incentivo para continuarmos”, descreve Bruno Paschoal, guitarrista do grupo.
A relação construída entre banda e público também ajuda a explicar a trajetória do grupo. Para o vocalista e baixista Ale Sater, não houve um momento específico que marcasse essa aproximação. Ela aconteceu aos poucos, show após show. “A gente foi fazendo, não teve nenhum grande plano. Vai numa cidade, toca para 15 pessoas, depois para 40, depois para 100. É um lance de continuar fazendo shows, continuar produzindo músicas e sempre com muito amor, com muita verdade.”
A permanência, ou insistência, talvez seja o segredo dessa constante transformação de público. Afinal, cada apresentação reúne pessoas com histórias completamente diferentes, mas que encontram nas mesmas canções um ponto de convergência. O que começou como uma experiência individual passa a circular entre desconhecidos, criando vínculos efêmeros, mas intensos. Durante algumas horas, ninguém canta sozinho.
Essa capacidade de aproximar diferentes vivências também dialoga com a proposta dos festivais. Ao reunir artistas de gerações e sonoridades distintas, eventos como o Sesc Thermas do Rock ampliam as possibilidades de encontro entre públicos e repertórios. “É legal ver isso acontecer de novo”, analisa Bruno.
“Com o passar do tempo, os festivais foram ficando muito focados em uma linhagem específica. Voltar a ter diferentes estilos e pessoas interessadas em descobrir bandas ao vivo, e não só pela internet, é uma coisa supervaliosa”, complementa.

Antes de transformar experiências íntimas em canções capazes de reunir multidões, os integrantes da Terno Rei também ocuparam o lugar de quem descobria a música pela primeira vez. As primeiras referências vieram dos discos tocados pelos pais e das horas diante da TV para ver MTV. “Era uma época antes da internet. A molecada toda gostava daquelas músicas e eu era um deles”, lembra Ale Sater, referindo-se aos primeiros contatos com bandas como Aerosmith e Nirvana.
As lembranças se repetem entre os integrantes. Bruno Paschoal recorda os discos ouvidos em casa com o pai, enquanto Luis Cardoso (baterista) e Greg Maya (guitarrista) citam a influência da MTV e das coleções de CDs que embalavam viagens de carro e apresentavam nomes como Led Zeppelin, Street Bulldogs, Garage Fuzz, Beatles e Pink Floyd. Memórias que revelam como a música atravessa gerações e, além disso, inspira quem cria e marca profundamente quem escuta.
Nesse sentido, a música representa a coragem de abraçar a subjetividade e criar a partir das vivências mais particulares, transformando aquilo que parecia pequeno, esquecível ou até vergonhoso demais para ser dividido em algo capaz de reunir multidões. E, por alguns minutos, faz com que milhares de pessoas tenham a impressão de que aquela canção foi escrita exclusivamente para elas, ao mesmo tempo.
Texto: Leandro Silva
Edição de texto: Thiago Ferri
Vídeo: Roberto Maty
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