
Foto: Gabriel Morales
Como foi o processo de dirigir e atuar ao lado da sua mãe?
Quando a convidei, ela aceitou porque queria experimentar algo novo, mas disse que só continuaria se não entrasse em pânico no palco. Não entrou; adorou e o público a acolheu. Para mim, a grande descoberta foi perceber que ela já atuava há anos, no trabalho como vendedora: transformava-se diante dos clientes, improvisava, sorria e criava uma presença que lembrava muito a de uma atriz.
Como as dificuldades econômicas e o trabalho precário moldaram sua visão de mundo, poética e política?
Eu estava cansado das condições de precariedade de fazer teatro no México. Trabalhava em tantos empregos diferentes – professor, cenógrafo, diretor e escritor – e, ainda assim, não conseguia chegar ao fim do mês. Quando voltei a morar com minha mãe e passei a ajudá-la a fazer chouriços, me chamou a atenção o fato de que, apesar de ter trabalhado tanto durante a vida, ela continuava pobre. Neste lugar com quase nenhuma infraestrutura teatral, sentia que os espetáculos que eu via carregavam certa pretensão e elitismo. Olhando para trás, o importante foi distanciar minha obra dos mecanismos e das narrativas deste teatro. Minha trajetória me ajudou a não romantizar esses elementos e a compreendê-los de forma crítica.

Como a linguagem do coletivo Pornotráfico se encaixa em uma história tão íntima sobre sua família?
Nossos primeiros trabalhos subvertiam narrativas sobre dinheiro, raça e sexo que nos foram importadas, sobretudo dos Estados Unidos, a partir dos mecanismos da cultura pop, da mídia e da televisão. Agora, queríamos aplicar esse estudo das narrativas a um projeto pessoal. Há também a postura de criar peças que abordem a circulação da obra no mercado: como uma narrativa pode empoderar e ser consumida por todos.
Anacarsis Ramos é dramaturgo, diretor, ator e autor do espetáculo, encenado pela Pornotráfico.
Para sustentar a família em Campeche, região periférica do México, Josefina Orlaineta manteve mais de 40 negócios em seis décadas. No palco, essa história real é encenada pela própria Josefina e por seu filho, o ator Anacarsis Ramos, para discutir a crise econômica, o apagamento das fronteiras entre casa e trabalho e a vulnerabilidade social.
Ao misturar teatro e cinema documental, o espetáculo recria os ambientes da casa-oficina, reunindo ações reais do cotidiano de trabalho de Josefina. A trama entrelaça a sobrevivência dela ao desmonte neoliberal do Estado, as transformações de uma região marcada pelo ciclo do petróleo e o reencontro entre mãe e filho após dez anos de distanciamento.
Ficha técnica
Criação: Pornotráfico
Direção e desenho do espaço: Anacarsis Ramos
Texto: Anacarsis Ramos, a partir de depoimentos de Josefina Orlaineta
Elenco: Josefina Orlaineta e Anacarsis Ramos
Dramaturgia: Santiago Villalpando
Assessoria de pesquisa: Babis Zozaya
Desenho de iluminação, som e vídeo: Karla Sánchez “Kiwi”
Produção executiva e realização de cenografia e adereços: Fausto Castaño
Pintura cênica: Josefina Orlaineta
Tour management e distribuição: Roni Isola
Assistentes de direção: Sofía León e Valentina Girón
Assistente de gravação: Emiliano Sandoval
Coprodutores: Festival Internacional del Centro Histórico de Campeche, Instituto de Cultura y Artes de Campeche/FULGOR – Encuentro escénico con los Estados 2024, com curadoria de Mariana Arteaga e Mariana Gándara.
Com o apoio do Patronato de arte contemporâneo (PAC)
Equipe Brasil
Coordenação de produção: Júlia Gomes/CenaCult
Assistente de Produção: Suia Legaspe
Produção executiva: Juliana Gabriella
Coordenação técnica: Luana Gouveia
Técnico de luz: Cauê Gouveia
Técnico de som: André Teles
Técnico de vídeo: Lucas Trabachini
Cenotécnicos: Wanderley Wagner, Fernando Zimolo
O espetáculo Mi madre y el dinero foi apresentado nos dias 7 e 8/09 às 18h, no Sesc Santos.
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