Uma casa aberta ao sol 

12/09/2026

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Foto: Fernanda Luz

Festival que se define pelo deslocamento, o Mirada chega à sua 8ª edição mantendo o compromisso de cartografar a cena ibero-americana e derrubar as paredes que sobraram para deixar a luz entrar. Por Gabriela Mellão e Giovana Oliveira   

Yumo Apurinã se prepara para entrar em cena no solo Ideias para adiar o fim do mundo, inspirado na obra homônima de Ailton Krenak. Está só, mas sobe ao palco acompanhado - como ele próprio diz - da casa onde cresceu, do campo, do igarapé, da serra, dos caminhos da terra, da poeira da estrada, das vozes dos parentes, das histórias que ouviu e dos mundos aos quais pertence. Essa multidão que corre em seu sangue deságua nas veias do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, evento que há dezesseis anos se dedica a mapear essa humanidade toda que caminha com Apurinã e constitui o povo ibero-americano. É essa pluralidade que nos forma, suas vozes, percepções e visões de mundo heterogêneas atravessadas por uma memória ao mesmo tempo compartilhada e singular. Em sua oitava edição, celebrando também os 80 anos do Sesc, o Mirada reafirma seu compromisso com a pesquisa ao seguir o mapeamento da arte criada neste terreno tão multifacetado quanto o próprio território que chamamos de ibero-americano. 

A festa cultural bianual do Mirada nasceu em 2010 com o olhar voltado aos países de maior tradição na cena teatral contemporânea – a Argentina, homenageada na primeira edição, seguida por México, Chile, Espanha, Colômbia e Portugal. Com o tempo, porém, o evento foi se deslocando para a margem, em busca de um teatro menos conhecido do continente sul-americano. Há dois anos, o Mirada debruçou-se sobre a arte teatral do Peru. Este ano, elege o Equador como seu homenageado, trazendo sete trabalhos do país reveladores de uma maturidade artística desigual que se soma à diversidade temática e de linguagem próprias da cena ibero-americana. Espetáculo de abertura da mostra, ME-DE-AS, do Coletivo Mitómana,inaugura essa travessia ao recuar ao mito grego de Medeia na tentativa de transpor sua ira para a problemática da mulher contemporânea. Dando sequência a essa trajetória, a artesania corporal da performer Johana Sanchez Armas em La trocha — fruto de uma pesquisa de campo junto a um dos últimos “trocheros” da região, homens e mulheres que se arriscam a migrar de um país a outro por trilhas clandestinas — traz um contraponto a Común vacío, espetáculo da companhia In Vitro em que a tecnologia de video mapping sustenta a cena mais do que a complementa. Na outra ponta do espectro temático, o Coletivo Yama volta-se à terra e à ancestralidade em PapaKuna – Agroteatro cómico musical, que se debruça sobre as tradições milenares andinas e o cultivo da batata. Entre a fronteira, o mito e a terra, os trabalhos desenham um mapa da vocação artística do Equador, que alcança inclusive o público infantil, com Diente de leche, espetáculo singelo da Fundación Titerefué. Sob a aparência ingênua da fábula, servindo-se de fantoches e da delicadeza do trabalho da dupla de atrizes, a montagem encena a batalha de sobrevivência dos ratos num mundo de gatos introduzindo temas como dominação e injustiça – caros à história de um país marcado por desigualdade estrutural, da colonização aos ciclos recentes. 

Essa desigualdade de maturidade artística diz menos sobre o valor intrínseco de cada trabalho e mais sobre as condições de produção que os tornaram possíveis — condições que, como em quase toda a América Latina, foram geradas por décadas de instabilidade política e escassez de recursos. No caso equatoriano, essa instabilidade também se traduz na dificuldade de consolidar uma rede de apoio e formação, além de mostras internas e crítica especializada capazes de amortecer as rupturas políticas. É nesse aspecto que festivais como o Mirada e instituições como o Sesc cumprem o papel fundamental de cartografar cenas teatrais em constante movimento, cujo valor talvez supere o da própria seleção. 

De Mudança 

Há uma mudança em curso na cena de Robot – Ecos neurodivergentes, espetáculo chileno do Colectivo Tercer Abstracto. Caixas de papelão são rearranjadas no espaço em diversas configurações, na casa que se deixa e na que se ocupa, representação do novo mundo que se abre e ainda não tem forma. É preciso desencaixotar, reagrupar, reorganizar. Jogar fora o que não faz sentido, reter o que deve permanecer, rever conceitos e funcionalidades entendendo o significado de cada escolha. Toda mudança pressupõe uma alteração na maneira de viver, uma revisão de consciência, uma reorganização de perspectiva. 

Robot sintetiza essa cena em movimento. Uma nova história está para começar. De que forma articular seu desenvolvimento? Para onde se deseja avançar? Quais serão os fundamentos dessa nova casa? Para que lado ela deve se voltar, de que lado nasce e morre o sol? São perguntas que cabem em uma caixa de papelão e também num continente inteiro. “A que horas chegam as caixas?”, pergunta a atriz Claudia Vicuña para Siri no espetáculo. Ela não obtém uma resposta, Siri não sabe dizer. A que horas chegam as caixas impostas pela sociedade — de sexo, de gênero, de raça, de classe, de neurotipicidade, de nacionalidade? Caixas que categorizam para estabelecer um padrão e marginalizar quem foge dele. Caixas que fragilizam vidas plenas de potências diversas. Caixas que determinaram o desenrolar de séculos de história.  

Robot encena a mudança de perspectiva que essa nova vida – mais inclusiva e diversa – exige. Ao mesmo tempo, condensa o deslocamento que, de forma geral, perpassa os 41 espetáculos reunidos nessa edição do Mirada. Cada um deles, à sua maneira, tira algo da caixa e questiona se existem outros modos de viver, de amar, de atravessar fronteiras, de lembrar o passado sem repeti-lo – se o teatro pode ser o laboratório dessas outras formas de existência, um espaço que permite chacoalhar essas caixas e romper estruturas fundantes. Trabalha-se, em cada palco desta edição, por uma mudança. 

A espanhola Angelica Liddel e a argentina Marina Otero explodem suas caixas com questões da ordem do corpo e do desejo. A primeira, uma das vozes mais radicais do teatro europeu, revisita o ritual de suicídio dos samurais. Em Seppuku – El funeral de Mishima o El placer de morir, ela se inspira na vida e obra do escritor japonês Yukio Mishima, como sempre investigando o limiar de uma violência que beira o insuportável. “Somente o sexo e a morte nos confrontam com os limites do corpo. É a única maneira de saber que estamos vivos em meio ao tédio cotidiano”, declara a artista no catálogo do evento. Em Ayoub – El amor me enseña a no amar, Otero reflete sobre a viagem que fez ao Marrocos com o intuito de oferecer cidadania europeia em troca de amor. Revive numa escala íntima a velha questão colonial de um corpo do Norte que se dispõe a “salvar” um do Sul oferecendo vantagens aparentes. 

Há caixas que revisam o que se entende por humano. Em Vampyr, a chilena Manuela Infanterepresenta o homem como uma criatura que não está viva nem morta, não é humana nem animal, apropriando-se do mito do vampiro sul-americano para refletir sobre a sociedade do cansaço, da exploração trabalhista e do privilégio do capital. Baby Volcano, por sua vez, retira dali a globalização embrulhada em luz estroboscópica. Em Si me ves ir com todo, es porque a la noche lloro, ao vibrar as batidas de um rap industrial, arma uma peça-boate em busca de reter a própria identidade em meio ao excesso de estímulos. Em um mundo que solapa singularidades, Volcano festeja sua dupla nacionalidade, dançando e cantando suas raízes suíço-guatemaltecas. 

Restam, por fim, as caixas sociais. No teatro documental Mi madre y el dinero, Josefina Orlaineta sobe ao palco ao lado do filho, o diretor Anacarsis Ramos. Juntos, apresentam o sucesso de uma vida fracassada, com caixas de papelão para evocar as ruínas de mais de quarenta pequenos negócios destruídos pelas estruturas de poder. (Um) ensaio sobre a cegueira, do Grupo Galpão,escancara a mais íntima de todas as caixas, a da própria visão. O encenador Rodrigo Portella materializa no corpo do público a alegoria criada pelo escritor José Saramago, expondo o colapso ético, social e humano de uma sociedade privada da capacidade de enxergar o outro. A plateia é convocada para entrar no jogo cênico e desempenhar o papel central dos cegos afetados pela epidemia. Vendado, o espectador sobe ao palco e passa a integrar o corpo coletivo, sendo conduzido e manipulado pelo elenco. A perda da autonomia, o medo e a incerteza em vez de representados são vividos em cena. A instabilidade de seus passos trôpegos torna-se protagonista absoluta.  

Um mergulho em nossa própria caixa 

A mudança, vista em espetáculos de geografias tão distintas, não esgota o que esta edição propõe. Há também o convite a um mergulho no território que nos é mais próximo. Em … ao mesmo tempo…, obra comissionada para a comemoração de 80 anos do Sesc, unem-se LUME Teatro (SP), Clowns de Shakespeare (RN), Dione Carlos e Georgette Fadel para uma criação surrealista sobre a passagem do tempo. Afinal, quanto teremos que esperar para que essa mudança de perspectiva se concretize? Quando conseguiremos desempacotar, rever as estruturas que nos formam e nos libertar delas, até que seja possível, enfim, mergulhar no que nos pertence? O espetáculo, criado a partir de improvisações, revisita o tema numa lógica não linear que une passado e presente num vaivém de cenas autônomas, fruto do encontro entre o rigor corporal do Lume e do humor físico dos Clowns de Shakespeare.  

Para além da temática, destaca-se a escolha do Sesc em privilegiar dois grupos de teatro longevos, de diferentes partes do Brasil, na intenção de mergulhar na pluralidade e diversidade da cena teatral brasileira. Junto a essa obra destacam-se ainda: Borda, da Lia Rodrigues Companhia de Danças; ¡Cerrado!, do Grupo Pano; Favela de barro: onstáveis moradias em queda, do Esquadrilha Marginália e Ideias para adiar o fim do mundo, de Yumo Apurinã e João Bernardo Caldeira. Juntos, os espetáculos mergulham profundamente no nosso Brasil. 

​A primeira imersão, com Borda, borra as bordas limitantes com desenhos de margens que se movem, transformando as fronteiras e as noções de pertencimento em uma dança fluida que avança de modo tão imperceptível que muitas vezes desafia a lógica do olhar. Partindo de um lugar fictício, em que se foi proibido dançar, ¡Cerrado! também versa sobre pertencer e atravessar, escancarando a caixa da colonização ao trazer `a cena a figura de um ditador.  

​Em Favela de barro: Instáveis moradias em queda essa mesma herança colonial se atualiza na questão racial. A partir da história da construção de favelas no Brasil, o grupo Esquadrilha Marginália encena a potência criativa de corpos pretos periféricos.  

Yumo Apurinã também fala do processo de formação do Brasil em Ideias para adiar o fim do mundo, destacando os desafios enfrentados pelos povos originários e a relação entre humanidade e natureza. Reconta a própria história para, a partir dela, sonhar novos futuros.  

Sonhar a partir das novas perspectivas que se abrem. Mesmo sem saber, como a Siri, que horas a mudança chega. Sonhar um espaço rearranjado, como em Robot, em que os limites da cena se estendam para além de suas margens e as máscaras caiam, até que os corpos resgatem a humanidade perdida. É para esse sonho que o Mirada, ano após ano, abre seus palcos. 

Gabriela Mellão é autora, diretora e crítica teatral. Entre seus espetáculos destacam-se “Mutações”, peça dirigida por André Guerreiro Lopes pela qual foi vencedora do prêmio Cenym de Teatro Nacional em 2024, na categoria Melhor Texto, e indicada ao prêmio APCA como Melhor Dramaturgia de 2023. É jurada dos Prêmios Shell e APCA de Teatro e crítica de teatro em seu perfil no Instagram. Foi crítica da Revista Bravo! por 20 anos, repórter teatral da Folha de São Paulo entre 2008 e 2012, além de curadora de diversos festivais e editais.

Giovana Oliveira é estudante de Artes Cênicas no Instituto de Artes (IA) da UNICAMP, destacando-se na articulação entre teatro, extensão universitária e arte-educação. Ela é integrante da TEIMA Coletiva (Grupo de Extensão e Pesquisa do Departamento de Artes Cênicas da UNICAMP), onde desenvolve ações artísticas e pedagógicas voltadas para comunidades e territórios vulneráveis. No Guarujá é ligada aos grupos de teatro e as atividades da Casa3. 

Este texto crítico foi produzido em parceria durante o LAB Crítica: práticas de crítica teatral, parte da programação de ações formativas do MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas. Realizado entre os dias 3 e 12 de setembro, o laboratório teve como proposta aproximar profissionais da crítica teatral e estudantes de jornalismo, letras, artes cênicas e áreas afins em uma experiência de acompanhamento, reflexão e escrita sobre a programação do festival. Saiba mais em sescsp.org.br/mirada

  

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