Apontamentos críticos a partir de uma prática pedagógica radical

13/09/2026

Compartilhe:

Reflexões sobre teatros que questionam a colonialidade, explicitam as contradições e insistem na força das criações em grupo.
Por Pollyanna Diniz e Davi O. Alves.

O e-mail chegou no fim do mês de julho propondo uma experiência instigante e desafiadora: acompanhar parte da programação da edição 2026 do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, participar de um encontro aberto ao público e escrever um texto que seria publicado no site do festival, este aqui, que agora você começa a ler. Mas havia uma especificidade. Para além da prática da crítica, a proposta proposta dizia respeito à formação de novos possíveis críticos. Em todas as atividades, rotineiras na profissão que exerço há mais de 15 anos, eu estaria acompanhada por um estudante interessado em teatro e em crítica. Foi assim que conheci Davi O. Alves, aluno do último semestre do curso de Jornalismo.

Era uma proposta radical, verticalizada, de pensar e experienciar a pedagogia da crítica. No convívio, na troca, no trabalho em conjunto. Davi e eu temos no jornalismo cultural e no teatro dois guias em comum, mas as nossas experiências, referências, entornos, são muito diferentes. E que bom que é assim! A atividade da crítica é um trabalho: demanda tempo, pesquisa, estudo, fazer e refazer. No entanto, por mais que haja metodologias no trabalho da crítica que podem ser ensinadas, discutidas e aperfeiçoadas, é no encontro com a obra que a prática se estabelece. Vamos ao teatro com as ferramentas que temos, entendendo que nossas singularidades nos fazem olhar para a experiência teatral de forma única e que cada criação vai nos demandar um alargamento da nossa própria linguagem.

Um festival como o Mirada, que aproxima geografias, estéticas e poéticas, é a consolidação de uma utopia. Do convívio, da diversidade, do dissenso, do aprendizado mútuo e contínuo. Temos ali um espaço profícuo para a atividade crítica, para a ampliação da percepção da importância da crítica para o teatro contemporâneo, para o fomento à leitura, à discussão e ao desejo de exercer a crítica. Depois de dias intensos vivendo essa utopia, vamos à escrita de um texto único. Mas como escrever juntos sem perder a individualidade? Propus uma dinâmica de diálogo, mas que acontece sem que haja necessariamente uma coesão textual perfeita. Não pretendemos dar conta de analisar crítica e verticalmente todas as peças que escolhemos para compor esta cartografia. É um texto fragmentado, que deixa fagulhas e perguntas pelo caminho, que pretende apontar reflexões iniciais a serem desdobradas.

Baby Volcano é guatemalteca e suíça. Mulher, jovem, me lembra ao mesmo tempo Chico Science e Rosalía: a capacidade de misturar referências, ritmos tradicionais ao rap e ao hip-hop, a potência da presença de palco, a aura de diva pop sexy disruptiva, a leitura de mundo aguçada, a arte como modo de estar no mundo. Si me ves ir con todo, es porque a la noche lloro é ora explosão, ora sutileza e vulnerabilidade.

Na Casa da Frontaria Azulejada, construção de 1865 que serviu ao tráfico ilegal – por mais que pareça redundante – de pessoas escravizadas, foi erguido o palco da performance-show, que contava com projeções de vídeo, possibilitando camadas de percepções que vão se alternando e acumulando. Dos animais selvagens à liberdade do corpo, passando pela crítica à saturação dos estímulos e ao colonialismo, Baby Volcano, persona da artista Lorena Stadelmann, materializa em cena o pensamento-manifesto sobre o próprio lugar de migrante, sobre as contradições de pertencer a um circuito europeu de arte, sobre o que o seu corpo significa. Balançar a raba, quebrar as certezas, estabelecer novos mundos.

Duas tentativas colonialistas de salvacionismo: o branco, ocidental, europeu e o salvacionismo que o amor romântico impresso pelo patriarcado representaria para as mulheres, se relacionam e ensejam contradições em Ayoub – El amor me enseña a no amar, de Marina Otero e Ibrahim Ibnou Goush (Argentina e Espanha). Uma mulher que acredita precisar de um homem ao seu lado para salvá-la da solidão vai ao Marrocos em busca de alguém que aceite trocar os privilégios de ter um passaporte europeu, de viver na Europa, por um casamento. O acordo se mostra escroto e ambíguo. A migração para o continente europeu não é capaz de apagar quem se é, de onde se vem. Ao mesmo tempo, esse amor também é falho e inoperante, porque é falso. Esse homem teria a obrigação de fingir que sente algum afeto por essa mulher. Até que, em teoria, há uma quebra na ficção: a paixão por um vendedor de doces, quinze anos mais novo do que a artista, que sorriu porque ser simpático é uma premissa para quem vende qualquer coisa. Mas que, a partir das investidas dessa mulher, retribui o afeto. As barreiras entre ficção e realidade são borradas e podem ser questionadas, mas a discussão ultrapassa essa zona fronteiriça. O espetáculo nos leva a questionar os limites éticos esgarçados na feitura de uma obra, até que ponto a importância de uma pauta, neste caso o genocídio que vem acontecendo na Palestina, justifica a sua apropriação sem verticalizações de discursos, e em que medida a arte pode expor as suas próprias contradições, mecanismo evidenciado no espetáculo.

Nascido e criado na cidade de São Paulo, sempre tive acesso à cultura. Entretanto, por muito tempo, as minhas experiências teatrais foram resumidas a espetáculos comerciais. Não estava acostumado a ver muitas peças de uma única vez, muito menos as de estilo contemporâneo e experimental, propostas em festivais como o Mirada. Foi a primeira vez, por exemplo, que assisti a uma peça legendada e vi formas acessíveis de fazer teatro, como em Robot: Ecos neurodivergentes, do Coletivo Tercer Abstracto (Chile).

A escrita é a tentativa de elaborar a nossa experiência no teatro e alargar a nossa leitura de mundo. É pensamento em construção. Não necessariamente sabemos o que vamos escrever até que a escrita esteja efetivamente em curso. Lidar com o nosso não saber e buscar continuamente vocabulário comum com as criações é o cotidiano da atividade crítica.

Escolhemos os espetáculos com os quais gostaríamos de compor este recorte a partir das provocações que as criações nos trouxeram. Por conta do prazo de publicação, não escreveríamos sobre os mesmos. Na escrita deste texto, propus uma experimentação. Marcamos períodos de trabalho conjunto no Google Meet, divididos em ciclos de 15 minutos. A princípio, exercitamos a escrita livre. Escrevemos sobre os espetáculos tentando nos aproximar das discussões que entendemos que as criações reverberam, da linguagem poética e estética de cada um, ensaiando relações e aproximações com os nossos repertórios e ferramentas. No ciclo seguinte, lemos o que cada um escreveu e fizemos sugestões, na intenção de ampliar a experiência da análise crítica. Então voltamos aos nossos textos para refazê-los. Repetimos a mesma dinâmica várias vezes. Depois, assumi mais diretamente a tarefa de edição, mas pensamos juntos como montar este texto. As lacunas, as quebras e as reticências continuaram existindo. Reconhecemos que faziam parte deste processo pedagógico vertiginoso.

O Grupo Galpão é referência e inspiração para a história do teatro não apenas pela trajetória longeva – são quase 45 anos trabalhando juntos como grupo -, mas pela capacidade de continuar experimentando a linguagem teatral. Para além da força da atuação em conjunto, da importância da música nos trabalhos e da potência das encenações de rua, o Galpão se reinventa a cada espetáculo, ao convidar encenadores que vão propor ao grupo seus métodos de trabalho. Em (Um) Ensaio sobre a cegueira, a direção e a dramaturgia são assinadas por Rodrigo Portella, e a direção musical, trilha original e paisagem sonora são de Federico Puppi.

A adaptação da obra de Saramago explicita a disponibilidade desses atores para se experimentarem em cena. A história é narrada pelos atores ao mesmo tempo em que assumem os personagens, numa encenação que esconde muito pouco dos artifícios teatrais. A iluminação manipulada em cena, por exemplo, marca a cegueira dos personagens, vítimas de uma estranha epidemia que vai fazer com que os valores éticos e morais, a convivência em sociedade e a brutalidade dos nossos instintos sejam perscrutados.

A ilusão do pacto da ficção é quebrada em vários momentos, inclusive quando os atores chamam espectadores para participarem da peça, como pessoas que também teriam ficado cegas e seriam levadas ao manicômio. Com o ajuntamento desse coro, a encenação constrói imagens significativas. O momento mais devastador é a sequência de cenas de violências contra as mulheres. Não há reprodução de atos violentos no palco e, mesmo assim, imaginamos tudo que se passa. Desde que as mulheres saem juntas do nosso campo de visão, em fila, para serem abusadas e trocadas por comida, o silêncio ensurdecedor que se estabelece e é mantido pelos homens enquanto elas estão fora, e a volta delas, com a lavagem do corpo de uma que não sobreviveu. Como sociedade, aceitamos a violência contra as mulheres. Não nos rebelamos.

Em nossas casas, voltamos ao cotidiano, ao céu que parece que vai desabar a qualquer momento, nas próximas semanas. A chuva que caiu em Santos continuou em São Paulo. A intensidade do processo de escrita, no entanto, fez com que a experiência do festival se prolongasse nos nossos dias. O teatro extrapola o tempo que, já sabemos, não é cronológico, e escrever sobre a experiência teatral é uma forma de prolongar indefinidamente a sua existência. Espero que esta tenha sido apenas uma primeira vivência desse processo pedagógico radical que foi o Lab Crítica, no vislumbre que cada vez mais pessoas possam se achegar e se afeiçoar à prática da crítica.

Pollyanna Diniz é jornalista, crítica e pesquisadora teatral. Também integra a Associação Internacional de Críticos de Teatro e é idealizadora e editora do site Satisfeita, Yolanda?, especializado em artes cênicas.

Davi O. Alves Davi O. Alves é estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Apaixonado por teatro, cinema e literatura, sempre faz questão de que a arte permeie os seus textos. Esteve no LAB Crítica: Práticas de Crítica Teatral, no Festival MIRADA 2026, visando aprender ainda mais sobre o universo do jornalismo cultural que tanto ama. 

Este texto crítico foi produzido em parceria durante o LAB Crítica: práticas de crítica teatral, parte da programação de ações formativas do MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas. Realizado entre os dias 3 e 12 de setembro, o laboratório teve como proposta aproximar profissionais da crítica teatral e estudantes de jornalismo, letras, artes cênicas e áreas afins em uma experiência de acompanhamento, reflexão e escrita sobre a programação do festival. Saiba mais em sescsp.org.br/mirada

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.