Ao investigar um sinal misterioso recebido durante uma viagem espacial, a tripulação da nave Nostromo entra em contato com uma forma de vida desconhecida e extremamente hostil. Isolados no espaço e sem possibilidade de fuga, os tripulantes precisam enfrentar uma ameaça que transforma a própria sobrevivência em uma corrida contra o tempo.
Mais sobre Alien, O 8º Passageiro:
Dirigido por Ridley Scott, Alien acompanha a tripulação da nave comercial Nostromo, despertada de sua viagem interestelar para investigar uma transmissão proveniente de um planeta desconhecido. O que parece ser uma missão de rotina rapidamente se transforma em um pesadelo quando os exploradores entram em contato com uma criatura alienígena cujas características biológicas desafiam qualquer compreensão humana. À medida que a ameaça se desenvolve dentro da própria nave, os tripulantes são obrigados a enfrentar uma situação extrema de isolamento, paranoia e terror.
Lançado em 1979, o filme redefiniu a relação entre ficção científica e horror. Enquanto boa parte da ficção científica da época privilegiava a aventura e o espetáculo tecnológico, Alien apostou em uma atmosfera claustrofóbica, sombria e profundamente corporal. O terror não nasce apenas do monstro, mas da sensação constante de invasão, contaminação e perda de controle sobre o próprio corpo. A criatura concebida por H.R. Giger tornou-se uma das imagens mais influentes da história do cinema, justamente por fundir elementos orgânicos, mecânicos e sexuais em um design perturbador.
A recepção crítica foi amplamente positiva e, ao longo das décadas, Alien consolida-se como um dos filmes mais importantes de ficção científica. O filme também se tornou uma referência para discussões acadêmicas sobre gênero, corpo, sexualidade, capitalismo e tecnologia.
Seu diferencial para a história do cinema está na capacidade de fundir dois gêneros tradicionalmente separados. Alien transformou o espaço sideral, frequentemente associado à descoberta e ao progresso, em um território assustador. Para o cinema de terror, sua contribuição foi ainda mais profunda: o filme deslocou o medo para o campo da reprodução biológica, do parasitismo e da violação corporal, criando um repertório imagético que influenciaria profundamente o body horror nas décadas seguintes.
Além disso, Ellen Ripley tornou-se uma das protagonistas mais icônicas do cinema. Diferentemente de muitas heroínas da época, sua autoridade não é construída a partir da sexualização da personagem nem de uma posição afetiva em relação aos homens da narrativa, mas de sua competência, inteligência e capacidade de leitura da situação. Essa característica teve impacto duradouro sobre a representação das protagonistas no cinema de gênero.
O longa venceu o Oscar de Melhores Efeitos Visuais e recebeu indicação ao Oscar de Direção de Arte. Também venceu o Saturn Award de Melhor Filme de Ficção Científica, além de conquistar prêmios no BAFTA e o Hugo Award de Melhor Apresentação Dramática.
Título original: Alien
Título no Brasil: Alien, o Oitavo Passageiro
Ano: 1979
País: Estados Unidos e Reino Unido
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Dan O’Bannon e Ronald Shusett
Direção de arte/Design de produção: Michael Seymour
Fotografia: Derek Vanlint
Montagem: Terry Rawlings
Elenco principal: Sigourney Weaver (Ellen Ripley), Tom Skerritt (Dallas), John Hurt (Kane), Veronica Cartwright (Lambert), Harry Dean Stanton (Brett), Ian Holm (Ash), Yaphet Kotto (Parker).
Trilha sonora: Jerry Goldsmith
Design da criatura: H.R. Giger
Essa exibição integra a MONSTRA de cinema, uma mostra dedicada ao cinema de terror que propõe um percurso histórico e crítico sobre a representação das mulheres no gênero. A curadoria atravessa diferentes épocas e arquétipos femininos, acompanhando a transformação dessas personagens ao longo do tempo, até chegar à emergência de diretoras que passam a comandar as câmeras, as narrativas e os imaginários do terror.
Não apenas pela sua importância cinematográfica, Alien ficou imortalizado por um quadrinho da cartunista Alison Bechdel, em “Dykes to Watch Out For”. O quadrinho vai mais ou menos assim: duas amigas estão comentando sobre cinema e uma delas tem uma regra pra si mesma de três critérios básicos, ela só verá filmes em que (1) há pelo menos duas personagens mulheres que (2) conversem entre si sobre (3) qualquer tema não relacionado a homens. Ambas concordam que a regra é uma boa ideia, mas que o último filme que conseguiu ver foi Alien, onde duas mulheres falam sobre um monstro. É desta tirinha que nasce o famoso “Teste de Bechdel” e demarca para sempre Alien dentro da história de construção de um novo cinema de terror com protagonistas mulheres complexas, inteligentes, fortes e que sobrevivam.

Teste de Bechdel
Ellen Ripley desloca expectativas narrativas. Ela é sujeito político da narrativa, capaz de interpretar estruturas de poder que os demais personagens ignoram. Sua posição não é influenciada por romance, maternidade ou sexualização. Sua sobrevivência está associada à leitura crítica do ambiente que ela faz e à recusa em obedecer cegamente às ordens e instituições.
Alien propõe imagens muito simbólicas de inversão dos códigos tradicionais da reprodução. São reservadas aos corpos masculinos experiências ligadas à gestação, penetração forçada e invasão corporal. O famoso ciclo biológico da criatura transforma o corpo masculino em hospedeiro involuntário, produzindo uma metáfora recorrente sobre perda de autonomia corporal. Essa inovação do roteiro gera uma bizarra visibilidade, pois historicamente são as personagens femininas que enfrentam estes medos, mas o choque vem com mais força quando atinge as personagens masculinas. Todo o ciclo de reprodução da criatura envolve impregnação involuntária, gestação forçada e nascimento traumático. O horror surge justamente da perda de autonomia sobre o próprio corpo. Em vez de apresentar a maternidade ou a reprodução como experiências idealizadas, o filme as transforma em uma imagem de invasão biológica. Essa inversão tornou Alien um objeto recorrente de estudos sobre corporalidade, sexualidade e violência.
Outro aspecto central está no conceito de “abjeção”, desenvolvido pela filósofa Julia Kristeva. Para Kristeva, o horror emerge quando as fronteiras que organizam a identidade começam a desmoronar: interior e exterior, humano e não humano, sujeito e objeto deixam de ser categorias estáveis. O xenomorfo encarna exatamente esse processo. Sua anatomia híbrida, seus fluidos corporais e seu ciclo reprodutivo produzem uma constante sensação de contaminação e instabilidade. O monstro não assusta apenas porque mata; ele ameaça redefinir o que significa ser humano. Alien não tem gênero e não diferencia por gênero quem irá atacar.
O filme também articula o horror em níveis organizacional e econômico. A tripulação da nave é subordinada a uma corporação que trata vidas humanas como recursos descartáveis. Ripley é a personagem que compreende mais cedo que o verdadeiro conflito não está apenas na criatura alienígena, mas na lógica institucional que aceita o sacrifício dos trabalhadores para obtenção de lucro e controle biotecnológico. A empresa que administra a Nostromo trata os trabalhadores como material descartável e considera o organismo alienígena um recurso valioso, independentemente do custo humano. O corpo aparece como território de extração, experimentação e lucro.
A própria Ripley tem uma importância que não deriva apenas de ser uma mulher sobrevivente no final da narrativa. O que a distingue é sua relação com a autoridade. Ela é a única personagem que insiste no cumprimento dos protocolos de segurança, interpreta corretamente os riscos da situação e identifica a lógica corporativa por trás das decisões da missão. Seu conflito fundamental não é apenas com o monstro, mas com sistemas institucionais que normalizam o sacrifício de vidas em nome da produtividade e do conhecimento técnico.
Por isso, Alien ocupa um lugar fundamental em uma mostra dedicada à representação das mulheres no horror. O filme desloca a discussão da simples presença de personagens femininas para questões mais complexas: autonomia corporal, reprodução, trabalho, tecnologia, biopolítica e construção do humano.
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