Clara, uma enfermeira da periferia de São Paulo, é contratada para cuidar de Ana, uma mulher rica e grávida que vive sozinha. À medida que a gestação avança, comportamentos estranhos e acontecimentos inquietantes aproximam as duas. Misturando melodrama, fantasia e horror, o filme transforma uma relação de cuidado em uma narrativa profundamente singular.
Mais sobre As Boas Maneiras:
Dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, As Boas Maneiras acompanha Clara, uma enfermeira desempregada que vive na periferia de São Paulo e aceita trabalhar como babá e cuidadora de Ana, uma mulher rica, isolada da família e em estágio avançado de gravidez. O vínculo profissional gradualmente se transforma em uma relação de intimidade, afeto e dependência, enquanto acontecimentos cada vez mais estranhos passam a cercar a gestação.
A partir dessa premissa, o filme atravessa diferentes gêneros cinematográficos. O que começa como drama social e romance se converte em fantasia sombria, musical e horror fantástico, criando uma obra rara dentro do cinema brasileiro contemporâneo. Em vez de utilizar o horror apenas como mecanismo de sustos ou violência, as diretoras o articulam com questões ligadas à maternidade, classe social, raça, desejo e pertencimento.
A recepção crítica foi amplamente positiva. O filme foi particularmente elogiado pela originalidade de seu roteiro, pela mistura pouco convencional de gêneros e pelas atuações de Isabél Zuaa e Marjorie Estiano. A crítica também destacou sua capacidade de combinar comentário social e imaginação fantástica sem reduzir nenhuma dessas dimensões a mera alegoria. As Boas Maneiras estreou no Festival Internacional de Cinema de Locarno, onde conquistou o Prêmio Especial do Júri. Também recebeu reconhecimento em festivais dedicados ao cinema fantástico, incluindo o prêmio da crítica no Festival de Sitges, um dos mais importantes do gênero no mundo. Ao longo de sua trajetória acumulou 32 vitórias e 34 indicações em festivais nacionais e internacionais.
Compondo uma trajetória muito especial, a cinematografia de Juliana Rojas contribui para o cinema brasileiro articulando tradição melodrama, musical e fantasia para tratar de realidades concretas, em especial do contexto urbano de São Paulo. As Boas Maneiras é sobre relação de classes, é sobre amor, é sobre shopping e favela, é sobre lobisomem, é sobre amizade e distanciamento, é sobre onde o trem passa, é sobre condomínios de luxo e solidão, é sobre vizinhança, é sobre o carinho de mãe, é sobre nos perguntarmos quem são os monstros.
Título: As Boas Maneiras
Ano: 2017
País: Brasil
Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra
Roteiro: Juliana Rojas e Marco Dutra
Produção: Sara Silveira, Maria Ionescu, Clément Duboin e Frédéric Corvez
Fotografia: Rui Poças
Montagem: Caetano Gotardo
Trilha sonora: Guilherme Garbato e Gustavo Garbato
Elenco principal: Isabél Zuaa (Clara), Marjorie Estiano (Ana), Miguel Lobo (Joel), Cida Moreira e Andréa Marquee.
Essa exibição integra a MONSTRA de cinema, uma mostra dedicada ao cinema de terror que propõe um percurso histórico e crítico sobre a representação das mulheres no gênero. A curadoria atravessa diferentes épocas e arquétipos femininos, acompanhando a transformação dessas personagens ao longo do tempo, até chegar à emergência de diretoras que passam a comandar as câmeras, as narrativas e os imaginários do terror.
Quem são as monstras e monstros, de verdade? Essa é a pergunta que fica remexendo as entranhas após assistir As Boas Maneiras. Em uma narrativa complexa, de ritmos mutantes, construída a partir de perspectivas de mulheres sobre desafios que mulheres enfrentam e, majoritariamente, com personagens mulheres, esse filme fornece tanta identificação e emoção que chega a tomar lágrimas.
A desigualdade econômica e racial é pivô na relação entre Clara e Ana. Elas se reconhecem na relação desigual de trabalho (empregada-patroa), de poder (o que pode ou não fazer, ver, comer, etc) e de acessos (elevador social ou de serviço). Mas o afeto e a carícia permitem a elas ultrapassar esse nível de relacionamento e compartilhar alegrias, amor e maternidade. Mesmo que o sigilo sempre impere. Essa complexidade na narrativa é compatível com a realidade social do Brasil, e de São Paulo, em especial a complexidade do racismo estrutural nas relações de trabalho e nas relações de amor, bem como a complexidade da orientação de gênero de alguém.
Embora estes sejam temas extremamente relevantes em As Boas Maneiras, ainda é um filme de lobisomem. E o lobo-homem nasce matando. Um símbolo extremamente forte na construção do cinema de horror por mulheres e correlato ao que Barbara Creed chama de “Monstruoso Feminino” (monstrous-feminine, 1993). Mas este monstro que é parido unindo os mundos, não é automaticamente julgado em moralismos genéricos e punitivismo. Ao bebê é oferecida compaixão. Uma compaixão que não é oferecida por qualquer um e, possivelmente, uma compaixão que jamais seria oferecida por um homem.
A compaixão-crueldade de criar um monstro e prendê-la todas as noites de lua cheia, para que não devore a vizinhança, e ainda trabalhar incansavelmente por ser uma mãe-solo pobre, é o que puxa a segunda parte do filme. Nos compadecemos com o sacrifício de Clara, enquanto Joel é proibido de experimentar sua própria identidade e sua liberdade. O lobisomem não é apenas uma criatura fantástica. Ele materializa ansiedades ligadas à diferença, à herança, à transmissão dos afetos e à possibilidade de coexistência entre sujeitos considerados incompatíveis.
As Boas Maneiras pergunta quais formas de vida podem ser acolhidas por uma comunidade. Seu foco não está apenas na sobrevivência diante do monstro, mas na possibilidade de construir vínculos com aquilo que a ordem social define como monstruoso. O filme não utiliza a figura do monstro como metáfora simplificada da alteridade. Ao contrário, investiga como os mecanismos de exclusão produzem a própria ideia de monstruosidade e como práticas de cuidado, afeto e convivência podem desafiar essas fronteiras. As tramas se complexificam mais e mais, em um terror original e completamente brasileiro, de várias camadas e belo.
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