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Huesera

Dir. Michelle Garza Cervera, México, Terror, 2023. Legendado.

Pompeia

Duração: 97 minutos

14

atividade presencial

Local:  Espaço Cênico

Grátis. Retirada on-line a partir de 27/10, às 17h, e nas bilheterias 1/11, às 15h

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Valeria sempre sonhou em ser mãe, mas quando finalmente engravida, algo parece errado. Uma presença monstruosa e sinistra passa a assombrá-la, colocando em risco sua gestação, seu casamento e sua própria sanidade. Em meio a uma crise existencial e familiar, ela precisa confrontar seus desejos mais profundos para sobreviver.

 

Mais sobre Huesera:

Dirigido por Michelle Garza Cervera e escrito por Michelle Garza Cervera e Abia Castillo, Huesera acompanha Valeria (Natalia Solián), uma mulher que leva uma vida aparentemente estável ao lado do marido Raúl (Alfonso Dosal) e que sempre desejou ser mãe. Após a confirmação da gravidez, no entanto, a alegria esperada dá lugar a uma sensação crescente de estranheza. Na mesma noite em que descobre estar grávida, Valeria é visitada por uma presença sobrenatural e aterrorizante. A partir de então, uma entidade monstruosa passa a persegui-la, ameaçando seu bebê, seu relacionamento e sua própria vida . Enquanto tenta entender o que está acontecendo, Valeria se distancia do marido e entra em conflito com a família, que espera que ela se conforme ao papel tradicional de mãe. A protagonista, uma ex-punk com um passado rebelde, precisa revisitar suas origens e buscar ajuda em um grupo de bruxas, mergulhando em um mundo de magia negra e folclore mexicano que pode ser sua única salvação — ou sua perdição.

À medida que a gestação avança, Valeria passa a ser perseguida por aparições associadas a uma figura espectral ligada a sons de ossos quebrando e deformações corporais. Ao mesmo tempo, antigas questões relacionadas à sua identidade, seus afetos e suas escolhas de vida retornam com intensidade crescente. O filme articula horror sobrenatural, body horror, folclore mexicano e drama psicológico em uma narrativa que explora as tensões entre desejo individual e expectativas sociais.

Seu diferencial para a história do cinema latino-americano está em sua capacidade de articular tradições culturais locais com debates contemporâneos sobre subjetividade, gênero e sexualidade sem abandonar a força do horror de gênero. Huesera insere-se em uma renovação recente do horror latino-americano dirigido por mulheres, ao lado de obras que utilizam o fantástico para abordar experiências corporais e afetivas frequentemente marginalizadas.

Exibido pela primeira vez no Festival de Tribeca, o longa foi celebrado pela originalidade de sua abordagem da maternidade, pela atuação de Natalia Solián e pela forma como utiliza convenções do horror para discutir normas de gênero, desejo e autonomia. Críticos destacaram especialmente sua capacidade de evitar leituras simplistas sobre gravidez, recusando tanto a idealização da maternidade quanto sua representação exclusivamente como sofrimento.

Premiações Mais Relevantes:
Festival de Tribeca (2022): Vencedor na categoria Melhor Diretor Estreante (Best New Narrative Director) e Prêmio Nora Ephron.
Festival de Sitges (2022): Vencedor do Prêmio Cidadão Kane de Melhor Novo Diretor e Melhor Filme na seção Blood Window.
Festival de Morelia (2022): Vencedor do Prêmio do Público na categoria Ficção.
Prêmios Ariel (2023): 17 indicações, com vitórias nas categorias Melhor Roteiro Original, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Maquiagem.
Prêmios Gotham (2023): Indicado na categoria Melhor Diretor Revelação.

 

Título original: Huesera
Título internacional: Huesera: The Bone Woman
Ano: 2022
País: México e Peru (Coprodução) 
Direção: Michelle Garza Cervera
Roteiro: Michelle Garza Cervera e Abia Castillo
Elenco Principal: Natalia Solián (Valeria), Alfonso Dosal (Raúl), Mayra Batalla, Mercedes Hernández, Sonia Couoh
Gênero: Terror, Drama, Suspense Psicológico
Música: Gibrán Andrade e Rafael Manrique
Fotografia: Nur Rubio Sherwell


 

MONSTRA de cinema – um panorama da representação das mulheres no cinema de terror

Essa exibição integra a MONSTRA de cinema, uma mostra dedicada ao cinema de terror que propõe um percurso histórico e crítico sobre a representação das mulheres no gênero. A curadoria atravessa diferentes épocas e arquétipos femininos, acompanhando a transformação dessas personagens ao longo do tempo, até chegar à emergência de diretoras que passam a comandar as câmeras, as narrativas e os imaginários do terror.

Entre todos os filmes da mostra, Huesera talvez seja uma das críticas mais radicais àquilo que a teórica Adrienne Rich chamou de “instituição da maternidade”. Em seu clássico Of Woman Born, Rich distingue a experiência concreta de ser mãe das estruturas sociais que transformam a maternidade em obrigação moral e destino inevitável para as mulheres. Huesera se insere diretamente nesse campo de debate. Seu horror não está na gravidez em si, mas na violência produzida quando um ideal normativo de maternidade entra em conflito com a subjetividade da protagonista.

O horror não decorre apenas da possibilidade de uma ameaça sobrenatural, mas da impossibilidade de alinhar desejo pessoal, expectativa familiar, heteronormatividade e projeto de vida. A monstruosidade emerge da fratura entre o que a protagonista deveria desejar e aquilo que efetivamente deseja. Huesera recusa uma premissa muito comum na cultura ocidental: a de que o desejo de ser mãe constitui uma verdade natural e estável. Valeria descobre que a maternidade não resolve automaticamente conflitos existenciais, afetivos ou identitários. Pelo contrário, a gestação torna visíveis fissuras que antes permaneciam administráveis.

O filme também dialoga com uma importante tradição feminista e queer interessada nas relações entre corpo e dissidência. A monstruosidade da “huesera” não aparece como punição moral nem como mal absoluto. Ela surge como manifestação de uma subjetividade que não consegue adaptar-se integralmente às exigências da ordem familiar e heteronormativa. Nesse sentido, o filme aproxima-se de discussões formuladas por autoras como Sara Ahmed, especialmente em suas reflexões sobre orientação, normatividade e felicidade compulsória. Ahmed argumenta que determinadas instituições prometem felicidade em troca da conformidade. Huesera pergunta o que acontece quando essa promessa falha.

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