O cinema é uma arte tecnológica

21/09/2026

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Por Duda Leite*

O cineasta pernambucano Marcelo Gomes quer deixar o cinema invadir sua vida cada vez mais. Desde que estreou na direção de longas com “Cinema Aspirina e Urubus” (2005), Gomes voltou seu olhar para os personagens, fossem eles reais ou fictícios. Começou querendo reinventar a linguagem do cinema, e criou o primeiro road-movie modorrento e pacifista, filmado sem pressa, no ritmo do sertão. Os documentários e a ficção se misturam no seu cinema. Como um hábil contador de histórias, ele compartilhou algumas bem boas na entrevista abaixo.

Aqui estão as dez perguntas para Marcelo Gomes.

DUDA LEITE – Qual é a importância de “Cinema, Aspirina e Urubus”, na sua carreira?

MARCELO GOMES – Foi fundamental, foi meu primeiro projeto. O filme me disse muito sobre que tipo de cinema eu quero fazer, quais temas quero abordar. A decisão sobre qual vai ser o tema do seu primeiro filme é muito profunda. Eu estava no Recife, onde quase não havia cinemas de arte, e era muito cinéfilo. Estava indo para São Paulo, para ver a Mostra de SP. A gente pegava um busão, eram 40 horas de viagem. E meu pai me disse: “ filho, tem um tio avô que estava sumido, e ele reapareceu depois de 30 anos e queria que você fosse lá e tirasse umas fotos dele”. Eu falei: “visitar parente, a gente não visita nem em dia normal. Imagina de férias!”. Ele disse: “filho, se você for eu pago sua passagem de avião”. Na mesma hora, eu disse: “Já estou com saudades do meu tio”. Fui lá na porta dele, e ele até assustou. “Quem era aquela pessoa que queria falar comigo?” Eu parecia muito com ele fisicamente. Ele abriu a porta, e a gente teve uma conversa muito longa. E, no final da conversa, ele me contou que quando estava saindo da cidade dele do interior, conheceu um alemão que vendia aspirinas, e exibia filmes pelo Brasil. Ele se juntou a ele, e por conta disso, foi parar em São Paulo. Começou a mostrar fotos dessa viagem. Fiquei fascinado por aquele encontro de culturas. Era um encontro de alteridades maravilhoso. Naquele momento no qual o Getúlio não resolvia o problema da guerra, inventava essa ideia dos soldados da borracha, para os nordestinos irem trabalhar. Muitos morriam de doenças tropicais, como a malária. E no meio disso, esse encontro dessas duas alteridades, que estavam fugindo do seu país por contingências sociais e políticas. Um fugindo do sertão, e outro fugindo da guerra. Eles tiveram que construir uma amizade entre estas duas personalidades tão diferentes. Isso me impressionou muito. Logo depois, recebi uma bolsa para estudar na Inglaterra. E senti isso na pele. Eu, nordestino, enfrentando uma outra cultura, e estudando cinema. Quando voltei ao Brasil, disse: “essa vai ser a história do meu primeiro longa”. Quero falar disso, de alteridade e encontro. Quero fazer um cinema de personagens. Essa decisão foi muito importante. Você pode pensar que meus filmes são todos diferentes, mas eles têm comum sempre os personagens. São os personagens que determinam a forma como vou filmar, a arte, a fotografia, tudo é em nome dos personagens. Como dizem os americanos: character driven. “Cinema, Aspirinas e Urubus” foi muito importante para me dar este norte.

DUDA – De que forma o documentário entra na sua ficção e vice-versa?

MARCELO GOMES – Uma vez, fui assistir em Recife ao “Cinema Aspirina e Urubus”, como um anônimo. Tinha um casal na minha frente, e depois de dez minutos, uma das pessoas do casal virou para a outra e disse: “gente, você falou que a gente ia ver um filme, isso aí é um documentário. Vamos embora!”. E foram embora. Eu fiquei super emocionado. Estudei cinema na Inglaterra, primeiro eles têm um cinema documental super forte. Eu adoro documentários! Segundo, eles têm diretores como Mike Leigh e Ken Loach, que adoro e que têm essa pegada naturalista. Eu vim com essas influências. Queria que esse lado documental impregnasse essa história de ficção. Uma história completamente inusitada e singular, deste encontro entre essas duas pessoas no meio do sertão. Queria que aquilo fosse um road-movie pacifista, sem perseguição. Queria reinventar a linguagem do cinema. E mesclar um pouco com o documentário. Tem imagens documentais que aparecem no meu filme. Isso sempre está presente nos meus filmes. O tempo modorrento das cenas. É quase um documentário de época. Perdi dois espectadores naquele dia, mas fiquei muito emocionado. A verdade é fundamental para contar qualquer história.

DUDA – “Cinema Aspirina e Urubus” é um road movie. Quais road movies te inspiraram para fazer este filme?

MARCELO GOMES – É um road movie modorrento, com aquele clima do sertão. Alguns road movies foram fundamentais para mim. O primeiro é um “boat movie”, do cinema brasileiro, que é “Iracema” (1975). Eu acho esse filme fundamental na história do cinema brasileiro, que mostra aquela construção absurda da Transamazônica. Cruel para aquela região. E aquela menina, que traz a ingenuidade da Amazônia, que se encontra com o Tião, que é aquele personagem do motorista. Também tinha um encontro de alteridades diferentes. Acho um filme fantástico, que dialoga com o documentário e que fala de um Brasil que está terminando e outro que está começando. O segundo é “O Gosto de Cereja” (1997), que é um road-movie existencial, de um personagem que carrega uma questão existencial forte. É um filme que foca muito no drama daqueles dois personagens. E o terceiro é o “Vinhas da ira” (1940), de John Ford. Foram os americanos que construíram a ideia do road-movie. “Vinhas da Ira” é o primeiro e único road movie comunista da história. Fala das pessoas que estão indo embora da miséria de um lugar, e tentando um mundo novo na Califórnia. É a mesma ideia dos sertanejos vindo para São Paulo. E acontecem coisas terríveis no processo dessa família, querendo ir em busca de um mundo melhor. E o modus operandi americano rejeita aquelas pessoas. Foi muito importante eu ter visto aquele road-movie americano tão político e tão bonito.

DUDA – Em “Cinema Aspirina e Urubus”, você trabalhou com um colaborador de longa data: o cineasta cearense Karim Aïnouz, com quem você havia colaborado no roteiro de “Madame Satã. Como foi essa colaboração?

MARCELO GOMES – Conheci o Karim no final dos anos 90, quando ele estava fazendo seus curtas metragens. E tentando financiamento para o “Madame Satã”. Ambos tentando fazer cinema, eu em Pernambuco e Karim no Ceará. Era muito difícil para quem não vivia na Via Dutra. Em seguida começou a surgir “O Baile Perfumado”, o “Amarelo Manga”, mas ainda estava bem no início. E o cinema que o Karim queria fazer era bem parecido com o que eu queria. Comecei a trabalhar no roteiro de “Madame Satã”, e o Karim começou a trabalhar no roteiro de “Cinema Aspirina e Urubus”. “Madame Satã”, foi minha grande escola. Aprendi muito naquele filme. É um filme do qual me orgulho muito. Depois veio o “Aspirinas”. Mas entre um e outro, a gente decidiu fazer um filme juntos, que foi o “Viajo porque preciso, Volto porque te amo”, que começamos a filmar antes do “Aspirinas” e do “Madame Satã”, que também foi uma grande escola. Foi um filme que levou dez anos para ficar pronto. O Karim foi fundamental para o início da minha carreira.

DUDA – O cinema pernambucano é um fenômeno à parte na cinematografia brasileira, tem o Lírio Ferreira, a Karen Harley, o Cláudio Assis, você, o Kleber Mendonça, entre outros. De onde vem essa potência do cinema pernambucano?

MARCELO GOMES – Pernambuco não é o estado mais rico da federação. É o décimo, ou décimo segundo. E tem essa pulsação cinematográfica tão forte. É difícil explicar. Milagres não se explicam. O Cláudio Assis dizia: “é porque a gente come coentro!”. Pernambuco teve a cultura da cana de açúcar, que deixou marcas fortes, para o bem, e para o mal. Em termos de cultura, foi o lugar onde surgiu há 120 anos a literatura regional. Nos anos 1970, teve o ciclo do cinema feito em Super 8. Essas ondas culturais deixam marcas. Então, quando surge aquele movimento de curtas metragens do Cláudio Assis, do Paulo Caldas, do Lírio Ferreira, aos poucos essas pessoas começam a fazer longas. E teve um divisor de águas, nos anos 1990, que foi o surgimento do Chico Science e o Nação Zumbi, e o Mundo Livre. A Nação Zumbi e o Chico Science nos disseram: “você de Pernambuco também pode fazer cultura”. Eles foram uma revolução musical para este país. Ele deu uma cutucada na gente. Daí, veio o “Baile Perfumado”, o Kleber Mendonça Filho, o Gabriel Mascaro. A gente sempre teve uma preocupação de não deixar isso virar apenas mais um ciclo. Como foi o Ciclo do Super 8, como foi o ciclo do Cinema mudo há 10 anos atrás. No Recife não havia escolas de cinema. O Gabriel Mascaro e o Juliano Dornellas foram estagiários do meu filme. Foi uma decisão política isso. Espero que o cinema pernambucano continue firme e forte e que não seja apenas mais um ciclo.

DUDA – O Jean Luc Godard declarou certa vez que “as ficções são os melhores documentários”. Você acha que a realidade é mais estranha do que a ficção?

MARCELO GOMES – Bom, a realidade atual no mundo está bem complexa. Se você pegar a realidade de cada país, nenhum roteirista poderia imaginar. As coisas que vêm acontecendo no nosso país são impressionantes. Na Europa, nos Estados Unidos, no mundo inteiro. O mundo está muito complexo. Está uma coisa apocalíptica. Então, está muito difícil para o roteirista imaginar esse mundo ficcional. Mas também é muito interessante. Porque é muito estimulante. A gente tem que refletir sobre tudo isso. O legal do mundo ficcional, é que ele te leva para expandir os sentimentos e emoções que você traz para o mundo real. O Orson Welles também tem uma fase maravilhosa, ele diz que “na ficção o diretor é deus. E no documentário, Deus é o diretor”. Porque você não sabe o que vai acontecer no outro dia. Brincar de Deus na ficção está cada dia mais desafiador. Porque o mundo está te desafiando a cada dia.

DUDA – Em 1983, Peter Greenaway declarou que o cinema estava morto, com a chegada do controle remoto à sala de estar. Desde então, o cinema foi declarado morto diversas outras vezes, com a chegada do VHS, e mais recentemente, com os streamings. Por que você acha que, apesar disso, o cinema continua resistindo?

MARCELO GOMES – O cinema é uma arte tecnológica. Ele nasceu por conta da tecnologia. A tecnologia que criou as primeiras câmeras, e a química que existia nos laboratórios para revelar os negativos. Portanto, a tecnologia sempre foi muito integrada ao cinema. Estes progressos tecnológicos, como o 3D, a tela panorâmica, e tantos outros processos digitais, foram sempre incorporados. Nos anos 60, as pessoas diziam: “a TV vai acabar com o cinema”. Não acabou. Eu acho que sempre vai ter pessoas interessadas em assistir a um filme em uma tela grande que dá uma outra dimensão à história. Que te leva a entender as sutilezas da história. Que te instiga muito mais do que um filme que você assiste no streaming, rodeado de um monte de coisa, em uma tela pequena. O teatro nasceu há 3000 anos. O cinema ainda é uma arte muito nova. É um bebê, que ainda está na primeira infância. E o teatro não morreu. Eu vou ao teatro e as peças estão cada dia mais cheias. Eu acho que o ser humano vai sempre precisar disso. A arte está sempre aí, para instigar a imaginação das pessoas e ser um instrumento transformador.

DUDA – Como você definiria o seu Amor pelo Cinema?

MARCELO GOMES – O meu amor pelo cinema começou na minha tenra infância, quando eu fui assistir a “Branca de Neve”, e quando vi aquelas árvores se transformando em monstros, fiquei tão assustado. Eu gritei tanto, que eu pensei que nunca mais eu fosse querer voltar. Mas de uma forma ou de outra, foi algo que me tirou da minha zona de conforto, e me levou para o meu imaginário, e que eu voltei sempre. Esse amor por essas histórias, foi algo que bateu muito com o meu espírito. Gosto muito de literatura, de teatro, de artes plásticas, de música. Gosto de todas as artes, mas acho que o cinema foi o que bateu melhor com a minha personalidade, que é mais dinâmica e tecnológica. Gosto de investigar o mundo nessa amplitude que o cinema dá. Então, foi um amor que, desde criança, só vem aumentando. E não foi à toa, que criei um cineclube no Recife. Quando eu era jovem, não tinha um cineclube, nem cinema de arte, no Recife. Decidimos criar este cineclube que mostrava outras cinematografias, além da americana. Mostrávamos o Cinema Novo alemão, a Nouvelle Vague francesa. O cinema me ensinou tanto sobre o mundo, me mostrou tantos lugares. E me ensinou coisas bem profundas. O cinema tem um lugar muito importante na minha vida.

DUDA – O François Truffaut disse certa vez que “o cinema é mais importante do que a vida”. Você concorda com isso?

MARCELO GOMES – O cinema absorve tanto a gente. A gente trabalha o tempo todo. Se eu estou caminhando na rua e vejo uma cena, aquilo é trabalho. Se eu vou ao cinema ver um filme, aquilo é trabalho. Se eu vou ao teatro, aquilo é trabalho. Se eu sonho, aquilo é trabalho. Tudo você leva ao cinema. E o cinema começa a te exigir um certo tempo, que começa até a destruir suas relações afetivas, as suas relações pessoais. Fiz um filme que é “Estou me guardando pra quando o Carnaval chegar”, que é um pouco sobre isso. Sobre pessoas que são completamente absorvidas pelo seu trabalho. No caso, produtores de jeans. Trabalhar com cinema é maravilhoso, mas a gente tem que tomar cuidado. Porque, de uma forma ou de outra, o cinema pode destruir nossa vida privada. Hoje em dia, quero que o cinema seja tão importante como a minha vida privada. Quando jovem, não dava muito espaço para isso, e uma coisa interferia muito na outra. O Bergman dizia que o cinema acabou com todos os casamentos dele. Foi devorando tudo. O Truffaut disse isso de uma forma boa, mas temos que tomar cuidado, porque o cinema pode sufocar a nossa vida. E precisamos de ar para viver

DUDA – Você acha que o cinema pode mudar o mundo?

MARCELO GOMES – Fiz uma série, que se chama “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente”, que é sobre a explosão da AIDS nos anos 1980, no Brasil. E como a sociedade conservadora da época estigmatizou essa doença. E criou um enorme preconceito contra as pessoas que viviam com o HIV. Essa série me emocionou muito. Convivi com muitas pessoas que viviam com o HIV. Artistas, desconhecidos ou não. Foi um momento muito forte para mim. E decidimos visitar várias entidades que trabalham com pacientes que vivem com HIV. E apresentar a série para elas, e refletir com elas. Essa série é sobre comissários de bordo que decidem traficar AZT, que era o único remédio que existia na época contra o vírus. Em voos dos EUA ao Brasil. Era um contrabando do bem. E, um dia, uma pessoa se levantou e disse: “olha, eu era comissário de bordo nessa época. Eu contrabandeei AZT. Sou parte dessa história. Vivo com HIV há 35 anos, e essa é a primeira vez que eu assumo isso em público, e quem me deu essa coragem foi a série”. Isso me fez acreditar no poder transformador da arte. Foi muito emocionante.

Duda Leite é Jornalista, Curador e Cineasta.

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