
POR PEDRO BANDEIRA
ILUSTRAÇÕES NELSON CRUZ
Leia a edição de outubro de 2026 na íntegra.
Menino santista, caçula com irmãos muito mais velhos, não me lembro de sentir-me solitário, pois logo vivi cercado por uma multidão de companheiros: cacei onças com meu amigo Pedrinho, mergulhei nas águas claras dos riachos com minha namorada Narizinho, rolei de rir com as “asneiras” da Emília, voei em cipós com Tarzan e seus macacos, esgrimi contra os aristocratas com Scaramouche e contra os “guardas do cardeal” com D’Artagnan, estive preso na ilha de If com o Conde de Montecristo, fugi de Javert com Jean Valjean, sobrevivi numa ilha deserta com Robinson Crusoe, persegui Moby Dick com um comandante maluco de uma perna só, fui enganado pelo fantástico pirata Long John Silver, ajudei Miles Hendon a proteger o príncipe nas roupas do mendigo, vagabundeei pelo Mississipi com Huck e Tom Sawyer, demoli moinhos de vento com a lança de Don Quixote, espionei Arsène Lupin roubando colares de diamante, ajudei Quasimodo a badalar seus sinos pelo amor da cigana Esmeralda, enregelei-me no Alasca afagando o pêlo espesso de Caninos Brancos e cavalguei destemido pelos pampas gaúchos na companhia de Rodrigo Cambará. Que trabalheira! Quantos amigos! Que gostoso!

Começo dos anos 80 do século passado, já havia dez anos escrevendo histórias infantis para revistas de banca, eu recém havia me decidido pela dedicação total àquela atividade: depois de mais de 300 historinhas publicadas nas tais revistinhas, minhas invenções começavam a sair em livros. E, como todos do meu ramo, iniciava-se também a tarefa paralela de quem escreve para crianças e adolescentes: as visitas a escolas, para as chamadas “palestras com os alunos”, tarefa árdua que desempenhávamos com vigor e alegria. Sob o ponto de vista das editoras, o intuito daquela atividade era “promover” a venda dos livros, mas acabávamos comparecendo a escolas estaduais e municipais, cujas professoras jamais poderiam pedir aos alunos que comprassem nossos livros. Dentro de meu peito, porém, pulsava um coração esperançoso à espera do dia em que a injusta exclusão da maioria dos brasileiros diminuísse através da democrática oferta de conhecimento para todos os meus conterrâneos.
Foi nessa época que visitei uma escola municipal em São Paulo, na carente periferia. Tendo já visto tantas escolas públicas malconservadas, vidraças quebradas, comentei com a diretora a beleza daquela, toda reluzente, branquinha como no dia de sua inauguração. E a diretora explicou-me que, na verdade, a escola estivera tão destruída como tantas que eu conhecia, mas que acabara de ser reformada, pois havia sido totalmente incendiada… pelos próprios alunos.
Ainda sob o espanto da informação, fui conversar com uma pequena multidão de jovens daquela escola. Dentre eles, no meio de tantas expressões desconfiadas, algumas até agressivas, destacou-se uma adolescente ansiosa, que não parava de perguntar. Suas nervosas indagações eram sempre sobre livros, sobre enredos variados, numa demonstração rara de afinidade com a Literatura. Findo o encontro, fui tomar o costumeiro cafezinho na sala dos professores e indaguei à diretora sobre a menina, destacando que, apesar da admirável ligação com os livros, ela merecia cuidados especiais, pois sua ansiedade beirava o patológico. E a diretora me reservava mais uma surpresa: a menina morava nas condições mais sub–humanas que se possa imaginar, seu pai era um alcoólatra desempregado que surrava a mulher e os filhos todos os dias e a pobrezinha vivia em puro desespero. Como alternativa à loucura, ela havia descoberto um refúgio: os livros. Frequentava as aulas pela manhã e, apesar de a escola não oferecer ensino em período integral, alerta para as dificuldades da aluna a diretora permitia que ela almoçasse e jantasse na escola junto com os funcionários que com ela dividiam suas marmitas, e permanecesse na biblioteca durante toda a tarde, depois durante todo o período noturno do supletivo. Só quando a escola tinha de ser fechada, a garotinha ia para seu barraco, levando livros da biblioteca. Ela havia ganhado de uma professora uma lanterna a pilha e, refugiada em um canto da crueldade do pai alcoolizado, lia até adormecer.
Ela era o que eu fora! Mesmo sem ter morado em favela, mesmo sem ter tido pai alcoólatra, até porque meu pai falecera deixando-me ainda no útero de minha mãe que, em vez de tapas, só me encheu de carinho, a menina havia encontrado um refúgio para a loucura e para o desespero semelhante ao que eu encontrara para minha solidão infantil: mergulhada nos livros, ela vivia outras vidas, sonhava outros sonhos, consolava-se da vida injusta que lhe coubera e alcançava outras dimensões enquanto esperava passar as dores das pancadas do tresloucado pai.

Do ponto de vista de meus professores, talvez eu tenha sido um “mau” aluno, porque, na véspera de alguma prova de Física, eu varava a noite lendo romances ou peças de teatro. Mais do que pela escola, eu fui educado pela Literatura. Graças a essa educação heterodoxa, aprendi um mundão de coisas, estudei e estudo demais tudo aquilo que quero, fiz a faculdade que escolhi e hoje vivo feliz e cuido muito bem de minha família, tendo livros traduzidos até para o grego e o sérvio. Por que então outros meninos pobres como eu fui não poderão construir sua felicidade futura navegando por páginas impressas, sentindo o cheiro da cola nas lombadas e apalpando a maciez do papel enquanto sua mente viaja por mundos fantásticos, raciocina sobre as emoções humanas, aprende a viver?
O Brasil é pobre, violento, atrasado, porque os caminhos desastrados de nossa História produziram uma sociedade em que somente uma minoria dos brasileiros entende o que lê. Construímos um País sem livros, sem acesso democrático ao Sonho, ao Conhecimento e à Esperança. A maior parte de nossa população vive excluída, porque jamais lhes foi oferecida a única arma que pode levá-los à vitória na batalha pela vida: o livro. Em pleno século 21, como podemos sonhar com um futuro melhor nessas circunstâncias?
Mas hoje vivemos numa democracia e ouvimos já muita gente importante clamando por uma educação universal e de boa qualidade, exigindo o acesso ao livro, a todos os livros. Muitos professores concordam comigo. Mal pagos, pouco apoiados pelos próprios pais de seus alunos, nunca deixaram de ser especializados em amor, oferecendo essa que, para mim, é a única alternativa à loucura e ao desespero: a leitura prazerosa e livre. São civilizadores que espalham livros ao vento como um semeador planta a vida.
No meu entender, o aprendizado é uma tarefa individual – ninguém aprende com os professores, todos aprendemos sozinhos. O professor não ensina: sua missão é propor, estimular, provocar, seduzir, de modo que os alunos possam, motivados, buscar solitariamente nos livros os caminhos da liberdade e de sua felicidade futura.
Graças à sorte que há quase 60 anos me permitiu trilhar esses caminhos, eu pude construir uma vida feliz e realizada. Será que aquela menina da escola municipal conseguiu? Ah, eu espero que sim! Ah, eu sonho que sim! Eu gostaria de saber que as aventuras loucas que escrevi com paixão a tenham marcado mais do que as porradas do seu pai.
Querida menina nervosa de quem eu não guardei o nome, queridos meninos e meninas esperançosos que me leem há tantos anos: é para pessoinhas como vocês que eu escrevo. É pela felicidade de vocês que eu vivo.
Pedro Bandeira nasceu em Santos (SP), em 1942, e é escritor. Iniciou sua carreira artística no teatro e, em 1972, passou a publicar histórias infantis. Entre suas obras mais conhecidas estão A droga da obediência (1984), que deu origem à série Os Karas. Com mais de 100 livros publicados e mais de 25 milhões de exemplares vendidos, recebeu prêmios como Jabuti, APCA e o selo Altamente Recomendável da FNLIJ. Desde 2009, é autor da Editora Moderna.
Nelson Cruz é belo-horizontino, mora e trabalha em Santa Luzia (MG). Fez sua primeira exposição de pinturas em 1977, na Galeria de Arte Esthergilda Menicucci (MG). Em 1987, passou a se dedicar aos livros ilustrados. Em 37 anos de carreira, recebeu premiações da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY), Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Biblioteca Nacional (BN), Academia Brasileira de Letras (ABL) e Câmara Brasileira do Livro (CBL). Em 2021, o livro Sagatrissuinorana, em parceria com João Luiz Guimarães, recebeu o prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil e Melhor Livro do Ano. Em 2002, 2012 e 2024 a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, indicou-o ao prêmio Hans Christian Andersen de ilustração, sendo finalista na edição de 2024.diversos trabalhos na publicidade, utiliza suas próprias memórias para desenvolver um estilo pautado na brasilidade. Apaixonado por cores e texturas, utiliza o desenho para se conectar com o seu lado mais fantasioso e introspectivo, tentando influenciar as pessoas por meio da arte.
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