Mãos que alimentam

30/09/2026

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O cultivo de hortaliças e frutas pela agricultura familiar garante alimentos frescos para a população

Leia a edição de outubro de 2026 na íntegra

POR LUCINA ONCKEN

Antes de chegar à mesa, boa parte do que comemos passou pela mão de uma família. Presentes em todo o território brasileiro, no entorno das grandes cidades ou no interior do país, propriedades familiares cultivam hortaliças e frutas usando a enxada, o rastelo e a semente escolhida uma a uma, em um trabalho manual, quase artesanal. É esse feito em pequena escala que sustenta boa parte das feiras livres da cidade e garante alimento fresco no nosso cotidiano, constituindo uma prática com forte presença na economia brasileira, nomeada de agricultura familiar.

Uma dessas famílias é a de Lia Góes de Moura, agricultora orgânica na Fazendinha Pedaço do Céu e uma das lideranças da Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais e de Água Limpa da Região Sul de São Paulo (Cooperapas), no distrito rural de Parelheiros. “Comer é apenas ingerir qualquer coisa; alimentar-se é quando o alimento traz saúde para dentro de você e leva saúde para o planeta, para quem produz e para quem transporta”, defende.

A comida carrega história, relação e memória. É o que Lia traduz em linguagem própria como “agricultura afetiva”, que acontece, por exemplo, quando ela resgata e volta a cultivar a mandioca-cacau amarela movida pelo pedido de uma frequentadora da feira orgânica que busca reencontrar o sabor de sua infância. É exatamente a mesma ideia que o professor e economista Renato Maluf, ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), resume ao afirmar que a agricultura familiar é a provedora “daquilo que a gente chama de comida de verdade”.

A estatística amplamente repetida de que a agricultura familiar coloca 70% dos alimentos na nossa mesa é, na verdade, um dado defasado da década de 1990. Para Maluf, no entanto, o número exato pouco importa. O fundamental, segundo o pesquisador, é que a agricultura de base familiar é a mais propensa a fornecer uma alimentação saudável e a respeitar a diversidade cultural e socioambiental. 

O Brasil, inclusive, é um dos poucos países a reconhecer duas agriculturas institucionalmente em lei, separando a familiar do agronegócio de larga escala. 

Lia Góes de Moura, uma das lideranças da Cooperapas: relação afetiva com o cultivo e a colheita que se traduz no prato (foto: Nilton Fukuda)

Alimento como afeto
Para a agricultora de Parelheiros, a fronteira entre o agronegócio corporativo e a agricultura familiar não se mede pela metragem da propriedade ou pelo volume do maquinário empregado: mede-se pelo afeto. “Quando colocamos o produto no chão, a gente tá pensando não só na alimentação saudável, mas em uma atividade de carinho pela natureza e por quem vai consumir”, relata Lia. Nessa lógica transformadora, o cliente urbano deixa de ser um comprador numérico para virar “coprodutor” que, ao adquirir uma hortaliça da produção familiar, financia a permanência da família no campo e a proteção das bacias das represas Billings e Guarapiranga, vitais para milhões de paulistanos.

Esse elo afetivo transparece também no cultivo de variedades pouco comuns. “Às vezes eu planto um canteiro de uma hortaliça diferente, ou então do manjericão roxo. Eu quero surpreender os meus coprodutores, os meus clientes, com algo diferente que eu gosto”, conta Lia. A feira de troca de sementes da Cooperapas amplia esse resgate coletivamente, trazendo de volta variedades como a taioba e outras Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) que o mercado comum deixou de lado.

A escolha de arriscar esse tipo de cultivo não é casual: a produtora a atribui à sensibilidade feminina que molda o trabalho local. Na cooperativa paulistana, hoje a diretoria é composta só por mulheres. 

Não é um caso isolado no país. Maluf observa que houve um aumento recente no número de mulheres responsáveis por estabelecimentos rurais no Brasil. Ainda assim, o acesso ao crédito continua sendo mais difícil para elas. 

Quando colocamos o produto no chão, a gente tá pensando não só na alimentação saudável, mas em uma atividade de carinho pela natureza e por quem vai consumir
Lia Góes de Moura, agricultora orgânica

Conexão ambiental
Em 2019, um relatório da revista científica The Lancet cunhou um termo para descrever algo que pesquisadores já observavam: obesidade, desnutrição e mudanças climáticas não são três crises separadas, mas sintomas de um único sistema alimentar em colapso. O nome dado a esse entrelaçamento foi sindemia global – a sinergia entre pandemias que coexistem e se retroalimentam.

“Essas relações estão interconectadas”, resume a pesquisadora Jaqueline Lopes Pereira, do núcleo Sustentarea, vinculado à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). A prevalência de obesidade é crescente, mas a desnutrição persiste em regiões de vulnerabilidade. Em paralelo, as mudanças climáticas são favorecidas por práticas do próprio sistema alimentar.

Dentro dessa engrenagem, surge o debate sobre a “justiça climática”. Jaqueline aponta um paradoxo cruel: as populações com o menor impacto ambiental – como os pequenos produtores – são justamente as primeiras e mais duramente afetadas por enchentes e secas extremas. Maluf reforça o alerta, destacando que a agricultura familiar atua como parte da solução por adotar modelos de cultivo menos emissores, mas acaba sendo a principal vítima das perdas impostas pelo desequilíbrio do clima.

Outro sintoma visível dessa crise é a monotonia agrícola: Maluf alerta que cerca de 70% da produção de arroz do país sai de um único estado (Rio Grande do Sul), enquanto a soja avança incessantemente sobre áreas historicamente dedicadas ao cultivo de feijão. É uma concentração produtiva que empobrece tanto o nosso prato quanto o solo do país.

Letramento 
Essa dificuldade em enxergar a complexidade do campo se estende também aos consumidores nos grandes centros urbanos. A distância física e cultural entre a metrópole e a roça cria uma desconexão sobre a verdadeira origem da comida. Como observa a pesquisadora Jaqueline, as novas gerações perdem a noção do ciclo alimentar: “você pergunta para uma criança pequena de onde vem o suco? Ah, vem da caixinha. De onde vem a salada? Do mercado”. É esse fosso que a própria Lia tenta fechar na prática, recebendo turistas na cooperativa de Parelheiros para um “dia de campo”, em que acompanham o plantio, a colheita e a higienização, um processo que a maioria das pessoas desconhece.  

Segundo a nutricionista Gabriela Rigote, também integrante do Sustentarea, o acesso à alimentação agroecológica é um problema real em áreas urbanas, onde nem toda região tem feira de produtores por perto. “Temos sempre que tomar cuidado para não culpabilizar o consumidor”, ressalta, lembrando que as escolhas esbarram nos limites do orçamento e na disponibilidade geográfica.

Mas dentro do que está ao alcance, há escolhas concretas que passam pela sazonalidade e pela cultura. O pesquisador Gustavo Porpino, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), resume as ações imediatas do cidadão. “Sempre que possível, comprar localmente, valorizar alimentos da estação, planejar compra e refeições e ser criativo no reaproveitamento das sobras”.

A chave é a sazonalidade: alimentos da época “vão precisar de menos insumos para ser produzidos e têm uma qualidade, um aspecto sensorial melhor”, ensina Porpino. Quando a compra prioriza a sociodiversidade e os produtores estão “alinhados à cultura do consumo local”, o alimento cumpre seu papel. Porpino cita o caso de um supermercado em Natal (RN) que reservou um espaço fixo – o “cantinho da gente” – só para produtos de cooperativas locais, provando que essa valorização pode ocorrer também nas gôndolas do varejo tradicional.

Nenhuma dessas escolhas, porém, resolve sozinha o problema de acesso. O caminho estrutural passa pelo letramento alimentar: dar às pessoas ferramentas para reconhecer a diferença entre conceitos frequentemente confundidos. A agricultura familiar diz respeito a quem produz (a gestão da terra é feita pela família), mas não impede o uso de agrotóxicos. O orgânico garante como se produz (sem veneno ou adubos sintéticos), mas pode vir de grandes monoculturas industriais. Já o agroecológico amarra todo o sistema: é o alimento cultivado em harmonia com a biodiversidade, com foco na recuperação do solo e na garantia de relações justas de trabalho e comércio.

Compreender esses rótulos, no entanto, esbarra no gargalo da logística. Para que esse alimento chegue à mesa sem preços proibitivos, é preciso desmontar a complexa teia de distribuição atual e aproximar, fisicamente, quem planta de quem consome.

Ficar atento aos alimentos da estação é uma maneira de garantir frutas, verduras e legumes sempre mais frescos em casa (foto: Elias Rodrigues)

Do campo para a cidade
Circuito curto é o nome técnico para essa ideia simples: quanto menos atravessadores, menos intermediários e menos etapas de transporte entre a roça e o prato, mais rápido, barato e rastreável fica o alimento. É a lógica que já está em ação na cooperativa de Parelheiros e a mesma estratégia que a Embrapa defende em escala de política pública.

Em São Paulo, dois exemplos mostram esse escoamento em ação. O primeiro é o Instituto Chão, que conecta pequenos produtores diretamente a consumidores e restaurantes. Pesquisas acadêmicas, como as conduzidas por estudiosos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), apontam que essa parceria comercial funciona como um forte indutor de mudança no campo. Com a garantia de escoamento e a valorização da sociobiodiversidade, os agricultores deixam a monocultura para trás e diversificam o que plantam. Tubérculos, como a batata, e raízes versáteis, como o açafrão-da-terra, ganharam espaço nas lavouras em sistemas de rotação que controlam pragas naturalmente e recuperam os nutrientes da terra. A ponte direta não apenas distribui o alimento de forma justa, ela altera a própria paisagem agrícola na direção da agrobiodiversidade.

O segundo é o Sampa+Rural, programa municipal desenvolvido em São Paulo e reconhecido internacionalmente, que fornece um “Capital Semente” para ajudar na instalação de irrigação ou compra de maquinário agrícola. A iniciativa mantém um mapa atualizado conectando o campo aos coprodutores urbanos. É a mesma lógica dos circuitos curtos, estruturada como política de Estado.

Para incentivar o escoamento, Porpino, da Embrapa, defende que feiras e pontos de venda direta sejam localizados exatamente onde o acesso ao alimento saudável é mais difícil – inclusive no entorno de escolas, que até pouco tempo funcionavam como desertos alimentares repletos de produtos ultraprocessados. Um exemplo prático citado por ele é o programa Sacolão da Família, em Curitiba (PR), que funciona como um varejo social e vende frutas e hortaliças a um preço cerca de 30% inferior ao do mercado tradicional, neutralizando essas zonas de escassez.

É preciso dar às pessoas ferramentas para reconhecer a procedência dos alimentos que chegam à mesa (foto: Dani Sandrini)

Merenda escolar
A escola é o espaço com a política de escoamento mais robusta da agricultura familiar. O impacto nutricional dessa aproximação é direto: na alimentação escolar, os itens mais comprados do pequeno produtor são justamente frutas, legumes e verduras, categoria que a ciência reconhece como protetora da saúde.

Para fortalecer esse elo e contornar os desafios logísticos da distribuição em massa, a legislação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) ampliou a obrigatoriedade de compra do setor, que até então tinha o piso de 30%. A partir de 2026, a meta salta para 45% dos recursos federais destinados à merenda, priorizando comunidades tradicionais e grupos liderados por mulheres, conforme destaca Jaqueline.

Você pergunta para uma criança pequena de onde vem o suco? Ah, vem da caixinha. De onde vem a salada? Do mercado.
Jaqueline Lopes Pereira, pesquisadora do núcleo Sustentarea

A evolução é expressiva: a participação do setor nas compras do PNAE era de apenas 5% em 2010, atingindo um pico histórico de 37,3% em 2019, antes de sofrer impactos na pandemia. Para facilitar esse acesso contínuo, os produtores já conseguem fornecer para o programa utilizando apenas o CPF, o que reduz substancialmente a burocracia das licitações tradicionais.

O retorno de políticas como essa também é financeiro. Um estudo citado pela pesquisadora da USP revela que cada R$ 1 investido em agricultura familiar traz um retorno econômico de R$ 1,52, valor que ajuda a movimentar e fixar renda nos municípios. “Quando a gente pensa em colocar metas para as compras públicas, parece muitas vezes que é um gasto a mais”, observa Jaqueline, “mas, na verdade, não é um gasto, é um investimento”.  

Celebrar a comida
Projeto Experimenta! convida o público a refletir sobre os múltiplos caminhos que conectam alimentação, saúde, cultura e meio ambiente

Programação é inspirada no Guia Alimentar para a População Brasileira, e ocorre em 43 unidades do Sesc no estado (foto: Laura Aidar)

De 15 a 24/10, o Sesc São Paulo realiza a 10ª edição do Experimenta! Comida, Saúde e Cultura, iniciativa que convida o público a refletir sobre a alimentação para além do prato, reconhecendo suas múltiplas relações com a saúde, a cultura, os territórios, os modos de vida, o meio ambiente e os sistemas alimentares. Com ações em todas as unidades da capital, Grande São Paulo, interior e litoral, a programação reúne mais de 100 atividades gratuitas, entre oficinas, palestras, vivências, intervenções artísticas e feiras agroecológicas.

Inspiradas nos princípios do Guia Alimentar para a População Brasileira, as atividades promovem o acesso a informações qualificadas e experiências práticas que fortalecem a autonomia para escolhas alimentares mais conscientes, saudáveis e sustentáveis, contribuindo para a promoção da saúde das pessoas e do planeta.

A programação se organiza em sete eixos temáticos: Comer é Cultura; A Saúde Está na Mesa; Diversidade no Prato – Sabores da Natureza; Aqui se Planta, Aqui se Come; Se Está na Época, Tem na Feira; Cozinhar é Preciso e Conexão Comida. Juntos, eles expressam os princípios que orientam o projeto ao valorizar saberes e práticas relacionadas à alimentação saudável e culturalmente referenciada, fortalecer as conexões entre produção, territórios e modos de vida e promover o direito humano à alimentação adequada.

POMPEIA 
Abertura: Cozinhar como prática de cuidado, autonomia e transformação
Com Bela Gil e Tia Nice (do projeto Organicamente Rango), e mediação de Camila Spolon. Dia 15/10, às 19h.

PINHEIROS 
Biodiversidade, cultura alimentar e pães com ingredientes brasileiros
A pesquisadora Neide Rigo apresenta a riqueza dos ingredientes amazônicos e da biodiversidade brasileira numa conversa sobre cultura alimentar, seguida pela degustação de pães preparados com frutas e insumos típicos da Amazônia. Dia 17/10, às 15h.

BELENZINHO 
Sabores da Ancestralidade
Oficina com o chef Eudes Assis, utilizando ingredientes nativos da Mata Atlântica e do litoral paulista: cambuci, uvaia, taioba, pinhão e peixes da costa. Dia 21/10, às 18h.

FRANCA
Agricultura familiar, mulheres e direito ao alimento
Roda de conversa com as agricultoras Angélica Facirolli, Almerinda Maria dos Reis, Flavia Manoel da Silva e Laura Rosella, seguida de degustação de preparações com ingredientes da agricultura familiar. Dia 21/10, às 19h.

RIBEIRÃO PRETO
Sistemas alimentares e alimentação sustentável: do conceito à ação
Com a nutricionista Jennifer Tanaka, pesquisadora da Università di Catania. Dia 23/10, às 19h.

Programação completa e inscrições em sescsp.org.br/experimenta

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