
Cantora entregou-se à música com profundidade e sem fazer concessões (foto: Isabel Delia)
Leia a edição de outubro de 2026 na íntegra
POR LÍGIA SCALISE
No fim de uma noite em que sua voz atravessou o teatro como um vendaval — grave, densa, sem esperar permissão —, Nana Caymmi (1941-2025) saiu do palco e anunciou que não receberia no camarim. “Disseram que era gentileza abrir a porta, cumprimentar os amigos, os jornalistas, os fãs”, lembra Danilo Caymmi, irmão e parceiro musical de uma vida inteira. “Ela respondeu: ‘Não. Hoje eu não recebo ninguém.’”
A cena poderia soar áspera. Mas era simplesmente Nana. “Ela sempre foi uma mulher dona das próprias rédeas”, diz Denise, filha e produtora por mais de 30 anos. “Ela fazia o que queria, como queria, quando queria. Se você cutucasse, o cavalo empinava.”
Dona de seus quereres
Primeira filha de Dorival Caymmi (1914-2008) e da cantora Stella Maris (1922-2008), Nana nasceu em 29 de abril de 1941, no Rio de Janeiro. Cresceu em uma casa onde a música era idioma, mas nunca concessão. “Lá fora, você é Nana. Aqui você é Dinahir”, dizia a mãe, referindo-se ao nome de batismo da filha e marcando a fronteira entre palco e intimidade. Dentro de casa, com Dorival, valia o mesmo princípio: ali ele era apenas pai e marido. O peso do sobrenome viria depois.
Crescer ali significava ouvir jazz, ópera, bolero e samba–canção, além de absorver rigor e sensibilidade, como quem aprende uma segunda língua. Significava também aprender a existir à própria maneira. Os três filhos — Nana, Dori e Danilo — herdaram a música, mas construíram trajetórias próprias. Desde cedo, Nana entendeu que, para existir como queria, teria de contrariar expectativas.
Ainda adolescente, foi levada pelo pai à televisão para substituir a mãe na gravação de “Acalanto”, composta quando Nana ainda era bebê e que incorpora no refrão a cantiga de ninar da tradição popular “Boi da cara preta”. Anos depois, no documentário Rio sonata (2010), Nana diria com franqueza: “Nunca me imaginei famosa, porque tinha preguiça”.

E sem pedir licença, foi viver a vida como quis. Aos 16 anos, casou-se com o médico venezuelano Gilberto José Aponte Paoli e viveu fora do Brasil entre 1961 e 1965. Teve duas filhas, Stella Teresa e Denise Maria, e voltou grávida do caçula, João Gilberto, em 1966, decidida a recomeçar. Mulher separada, naquele momento, era quase uma afronta. Não pediu autorização nem ao pai, nem à sociedade. Vieram sete anos de silêncio e tensão familiar. “Era outra época com portas muito mais fechadas”, lembra a sobrinha Alice Caymmi. “Minha tia foi muito forte. Hoje eu sei disso. E com ela aprendi que coragem nunca faltou; prudência, talvez, mas coragem, nunca.”
Com filhos pequenos, ainda amamentando nos bastidores, Nana venceu o I Festival Internacional da Canção, em 1966, defendendo “Saveiros”, de Dori Caymmi e Nelson Motta. Ali, não foi apenas sua consagração artística, mas também a decisão de que viveria do próprio talento. “Me conscientizei de que a música ia me dar dinheiro para criar meus três filhos e que, em casa, homem não tinha vez”, disse.
Depois, viveu outras relações marcantes. Casou-se com João Donato (1934-2023) e com Cláudio Nucci e teve, com Gilberto Gil, uma união que ela sempre considerou um casamento — com ou sem papel passado. Amou, separou-se, recomeçou, mas nunca permitiu que a opinião alheia definisse seus afetos. “Ela nunca foi o que esperavam de uma mulher da geração dela”, avalia o jornalista e crítico Rodrigo Faour.
Sem modismos
Se Nana enfrentou desafios ao se posicionar na vida pessoal, no mercado fonográfico resistiu da mesma maneira. Não aceitava repertório imposto, não moldava o canto para caber à moda, não se deixava enquadrar. “Ela nunca quis ser cantora de bossa nova ou de tropicália. Cantava o que sentia que precisava cantar”, resume Dori. “Nana não tinha preocupação com sucesso; tinha preocupação com a verdade dela”, afirma o irmão.
Em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, em 1993, falou das pressões das gravadoras com ironia: “Se todo produtor que entrasse no estúdio eu fosse fazer o que ele queria, eu não teria a crítica especializada me enaltecendo tanto. Entrar no modismo? Não. Estou fora! Eu sou quem eu sou.”
Ao longo de mais de seis décadas e de cerca de 25 álbuns, construiu uma obra coerente e inegociável. Nana Caymmi (1975), Renascer (1976), Voz e suor (1983), Bolero (1993), Resposta ao tempo (1998) — vencedor do Prêmio Sharp — consolidaram sua posição como uma das maiores intérpretes do país.
Gravou Tom Jobim (1927-1994), Vinicius de Moraes (1913-1980), Milton Nascimento, Chico Buarque, Aldir Blanc (1946-2020), Cristóvão Bastos, além de inúmeras composições de Dori e Danilo Caymmi. Havia generosidade nesse gesto. “Ela sempre fez questão de lançar compositores desconhecidos e gravar as nossas composições”, dizem os irmãos. “E, quando a gravadora dizia ’isso não vende’, respondia: ’Então não vende. Mas é isso que eu vou gravar’”, conta Denise.
Danilo afirma que Nana escolhia a música pela densidade da letra e da melodia. E, ao gravar, deixava uma marca irreversível. “Ela tinha uma força que vinha de dentro, uma tomada de ar única que mudava o sentido da música inteira. Nunca foi formação técnica; era puro talento e intuição. Ela sentia, cantava e transformava. E nunca imitou ninguém.”

Entrar no modismo? Não. Estou fora!
Eu sou quem eu sou.
Fenômeno popular
Nos anos 1980 e 1990, a voz sofisticada ultrapassou o circuito dos teatros e entrou de vez nos lares brasileiros. Em 1982, “Se queres saber” tornou-se tema da minissérie de televisão Quem ama não mata. Em 1998, “Resposta ao tempo” embalou Hilda Furacão e lhe rendeu seu primeiro e único disco de ouro. No ano seguinte, “Suave veneno” marcou a telenovela das nove de mesmo nome. Em 2000, Sangre de mi alma levou boleros às trilhas de Laços de família. Nos anos 2000, revisitou a obra do pai em álbuns como O mar e o tempo (2002), Para Caymmi — 90 anos — De Nana, Dori e Danilo (2004), Quem inventou o amor (2007) e Caymmi (2013). Dori recorda a emoção de ver o pai feliz ao perceber que os três filhos haviam seguido na música. “Para ele, foi uma terapia; para nós, uma emoção.” Seus últimos álbuns foram Nana Caymmi canta Tito Madi (2019) e Nana, Tom, Vinicius (2020). “A qualidade de voz permaneceu intensa até o fim”, diz Mauro Ferreira, colunista e crítico musical do G1. “Era como se os sentimentos escorressem pela voz. Essa sempre foi sua marca.”
O preço de ser Nana
“Vocês vieram aqui para me ouvir cantar ou para eu ser simpática?”, respondeu certa vez a um jornalista que a acusava de pouca gentileza com o público. O olhar direto, a voz firme e uma certa soberania silenciosa causavam desconforto. Produtores a consideravam difícil. Jornalistas a classificavam como temperamental. Quem convivia sabia: se gostasse, defendia; se não gostasse, dizia. E dizia alto.
Mas se podia ser dura, era também leal e protetora com os seus. Dori recorda a infância no Jardim Botânico, quando a irmã saiu correndo com uma vassoura atrás de um garoto que o ameaçara. “Ela sempre defendeu a gente.” Danilo confirma: “Era irmãzona.”
Denise diz que o afeto nem sempre vinha em abraços, mas sim na presença. “Lembro-me de uma fase difícil, em que eu estava sem dinheiro, com uma filha de dois meses nos braços, e minha mãe aparecia em casa para passar a fralda de pano. A nossa relação sempre foi assim: brigamos muito e nos amamos muito. Não foi fácil ser filha de Nana, mas sei que ela foi a melhor mãe, avó e bisavó que podia ser.”
Legado
Nos anos finais, declarações polêmicas acabaram por eclipsar parte da obra da artista nas manchetes. Dori lamenta que, por vezes, a irmã tenha sido reduzida a ruídos e mal interpretada por causa de frases atravessadas. Danilo e Alice concordam: Nana era muito maior do que a imagem construída a partir de sua língua sem freio. Quem a conhecia de perto sabe disso.
Sua última apresentação foi em 2015, em um show em São Paulo. A saúde, já fragilizada, a afastou dos palcos. “Com 50 anos de carreira, posso dizer que fiz um trabalho tão bom que já posso parar”, declarou em Rio sonata. Falava do desejo de recolhimento: “Quero ficar no meu sítio vendo o abacate abacatar, sabe? Eu não vivo sem música, mas, em algum momento, quero que o silêncio faça música.”
Toda vez que eu existo como cantora,
é uma homenagem à existência dela.
Alice Caymmi, sobrinha de Nana Caymmi
Apesar desse desejo de silêncio, na última entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, quando completou 80 anos, manifestou vontade de continuar gravando. Queria registrar as parcerias do irmão Dori com Nelson Motta. Também desejava cantar Milton Nascimento, um de seus grandes amigos, e Beto Guedes. “Se eu não gravei, são inéditas para mim”, disse — frase que revelava uma inquietação permanente. Nos últimos anos, queixava-se da escassez de novos compositores que lhe oferecessem repertório à altura do que buscava.
Vieram as internações e os problemas cardíacos. “Foi tudo muito doloroso, nove meses de hospital”, diz Dori. Aos 84 anos, Nana Caymmi morreu no Rio de Janeiro, em 1º de maio de 2025.
Para além de qualquer ruído, permanece a obra. Ao ouvir Nana Caymmi, nota-se a respiração longa, o domínio do tempo, o fraseado que estica a emoção até quase romper. Há cantoras técnicas. Há cantoras carismáticas. E há Nana Caymmi, uma das grandes intérpretes do país, que cantou o que quis, gravou o que acreditava e desagradou quando foi preciso.
Para Rodrigo Faour, o legado é claro: “subversão, resistência e coerência artística”. Mauro Ferreira o define como “imenso, com uma discografia impecável até o último álbum”. Para Denise, a mãe provou que “personalidade não se negocia”. Dori resume a vida da irmã em três palavras: “música, música e música”. Alice vê na própria trajetória uma continuidade: “Toda vez que eu existo como cantora, é uma homenagem à existência dela”. E, para Danilo, ficam a saudade e a convicção de que “o Brasil ainda vai compreender o que Nana Caymmi fez pela música”.
Parceria marcante
Álbum do Selo Sesc reúne talentos de Nana Caymmi, Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Lançado pelo Selo Sesc em 2020, o álbum Nana Tom Vinicius apresenta Nana Caymmi cantando Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980), e celebra uma das parcerias mais marcantes da música popular brasileira. Com direção artística, violão e arranjos de Dori Caymmi, o trabalho apresenta releituras de clássicos como “Eu sei que vou te amar” e “Canção do amor demais”, além de “Valsa de Eurídice”, de Vinicius, e “As praias desertas”, de Tom.
Indicado ao 22º Grammy Latino na categoria Álbum do Ano, o trabalho marcou o retorno de Nana aos estúdios para projetos solo após uma década. O encontro entre a interpretação singular da cantora e os arranjos de Dori valoriza a delicadeza, a sofisticação e a permanência de um repertório fundamental da música brasileira.
Para ampliar a dimensão do projeto, as cordas foram gravadas pela Orquestra de Saint-Petersburg, na Rússia. A edição em vinil, com capa gatefold (que remete ao formato de um livro), reproduz o repertório do álbum digital e do CD e inclui encarte com as letras das canções e textos do Diretor Regional do Sesc São Paulo, Luiz Deoclecio Massaro Galina, além do músico Dori Caymmi e do compositor Hermínio Bello de Carvalho.
SELO SESC
Álbum Nana Tom Vinicius (2020)
Nana Caymmi canta Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Disponível nas plataformas de áudio.
A EDIÇÃO DE OUTUBRO DE 2026 DA REVISTA E ESTÁ NO AR!
Para ler a versão digital da Revista E e ficar por dentro de outros conteúdos exclusivos, acesse a nossa página no Portal do Sesc ou baixe grátis o app Sesc SP no seu celular! (download disponível para aparelhos Android ou IOS).
Siga a Revista E nas redes sociais:
Instagram / Facebook / Youtube
A seguir, leia a edição de OUTUBRO na íntegra. Se preferir, baixe o PDF para levar a Revista E contigo para onde você quiser!
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.