Desenhar livros

30/09/2026

Compartilhe:

Editores, designers, produtores gráficos e ilustradores discutem o panorama do design editorial brasileiro e sua importância na experiência de leitura de um livro (foto: Cecilia Arbolave)

Leia a edição de outubro de 2026 na íntegra

POR VANESSA D’AMARO

O conteúdo define a forma ou é a forma que define o conteúdo? A pergunta que guiou o artista gráfico, autor e pesquisador Gustavo Piqueira na criação de Bibi (Lote 42, 2019) provoca uma reflexão sobre as possibilidades da narrativa impressa e a maneira como os livros são concebidos no mercado editorial. Inspirado pela leitura do clássico de Italo Calvino (1923-1985), Se um viajante numa noite de inverno – que explora os limites do romance –, Piqueira resolveu brincar com as regras de cada formato, mudando radicalmente o projeto gráfico a cada caderno de impressão de 16 páginas.

A história do protagonista Fabiano, o Bibi, transita por diferentes gêneros e variados tipos de papel. Começa como livro infantil, passa por um livro ilustrado para adultos, assume a forma de um texto tradicional, vira fotonovela, “livro de artista” e termina com o que Piqueira chamou de “uma tipografia expressiva”.

Ao fazer isso, o autor questiona as convenções dos formatos, que deixam de ser apenas classificações editoriais e passam a participar da própria narrativa. “Eu queria tratar das categorias que a indústria criou para os livros. Então, tudo vai mudando: projeto gráfico, gênero, papel, cores. O resultado é que o leitor é convidado a se relacionar com Bibi de maneiras diferentes ao longo das páginas”, afirma.

Esse tipo de projeto pode parecer impraticável em editoras grandes – já que envolve, além do custo financeiro, estudos de viabilidade de impressão. Em um país em que o mercado editorial enfrenta dificuldades de escala – a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, por exemplo, revelou que 53% da população não leu nenhum livro nos três meses anteriores ao estudo –, iniciativas desse tipo costumam encontrar espaço principalmente em editoras pequenas ou independentes, que trabalham com tiragens menores e, portanto, conseguem experimentar mais.

Esse movimento, no entanto, é relativamente recente na tradição editorial brasileira. A palavra escrita costuma ocupar o centro da narrativa, enquanto o projeto gráfico muitas vezes aparece como elemento complementar – uma relação que vem sendo ampliada por designers, ilustradores e autores ao explorar outras formas de criar a experiência de leitura.

“No Brasil, o livro sempre foi – e, em grande medida, continua sendo – o território do verbo. É difícil pensar em livros em que o design fale com essa mesma força. Posso me lembrar de grandes capistas que marcaram época, como Eugênio Hirsch (1923-2001), mas o miolo do livro raramente teve esse protagonismo visual”, afirma o designer e pesquisador Chico Homem de Melo.

Para ele, a produção gráfica mais arrojada concentrou-se nas revistas impressas. Dos periódicos de sátira política do fim do século 19 aos títulos modernistas como a Klaxon, passando por revistas de variedades das décadas de 1940 a 1960, como O Cruzeiro, Senhor e Realidade, essas publicações abriram espaço para chargistas, cartunistas, ilustradores e, mais tarde, fotojornalistas.

Embora movimentos estéticos e artísticos tenham inspirado o design gráfico brasileiro, nunca houve a consolidação de uma linguagem predominante ou de uma escola estética expressiva aos moldes, por exemplo, do construtivismo russo do século 20. Por aqui, a influência de produções estrangeiras se uniu ao trabalho de artistas e ilustradores que desenvolveram propostas autorais.

Já a experimentação gráfica, mais comum em produtos efêmeros e de ampla circulação, demorou a chegar aos livros – com exceção dos títulos infantis, que tradicionalmente integram design, ilustração e texto. Chico Homem de Melo cita alguns marcos dessa trajetória voltada às crianças: Histórias de bonecos (década de 1920), de Benjamin Costallat (1897-1961), com ilustrações de Jefferson; O circo (1939), de Tomás Santa Rosa (1909-1956); e Flicts (1969), de Ziraldo (1932-2024).

Detalhe de Era preciso estar em sintonia com seu tempo (Lote 42, 2024), publicado pelo autor e designer Gustavo Piqueira (imagem: Casa Rex).

Grandes editoras
A partir da década de 1980, o design editorial brasileiro ganhou novos horizontes com avanços tecnológicos que facilitaram os processos de trabalho. “O primeiro grande impacto e mudança editorial no Brasil, a meu ver, ocorreu com a Companhia das Letras nos anos 1980 e 1990, transformando a concepção visual dos livros, a começar pelas capas”, comenta Chico Homem de Melo.

Ao fundar a editora, Luiz Schwarcz e sua equipe de arte estabeleceram um novo padrão com projetos que exploravam a tipografia e construíam uma identidade visual capaz de dialogar com o conteúdo das obras.

Segundo Alceu Nunes, diretor de arte da Companhia das Letras, a criação de capas sempre foi tratada como o início da experiência de leitura. “Reunimos um catálogo amplo, organizado em diversos selos. Cada selo possui uma personalidade própria, construída de forma consistente ao longo do tempo. Cada capa é desenvolvida para dialogar com essa identidade e com a singularidade de cada obra. Há um esforço permanente para revelar designers, ilustradores e artistas, ao mesmo tempo em que valorizamos nomes já consagrados do design brasileiro”, comenta.

Outro momento decisivo veio em 1996, com a fundação da Cosac Naify, por Charles Cosac e Michael Naify. Colecionador e estudioso de arte, Charles deixou a Inglaterra, onde cursava doutorado, para voltar ao Brasil e editar o primeiro livro da casa, Barroco de Lírios (1997), sobre o artista plástico Tunga (1952-2016). Considerada até hoje um marco do design editorial brasileiro, a obra reunia a produção contemporânea do artista e trazia, no miolo do livro, papéis, recortes e soluções inéditas para a época. Planejada com cuidado e impressa em gráficas italianas, provocou um furor no mercado que, na avaliação de Chico Homem de Melo, “ainda está para ser igualado”.

“O Tunga me deu aquilo de presente. Até hoje é o livro mais lindo – ele é insuperável, anacrônico, impressiona e não ficou datado. Na época, minha irmã [Simone Cosac Naify] cursava mestrado em Belas Artes e fazia o acompanhamento nas gráficas. O livro tinha todos os efeitos possíveis, todas as cores possíveis, tinha encarte… Mudava o papel! Era muito complicado, sobretudo para marinheiros de primeira viagem”, relembra Charles.

Depois da estreia, a Cosac publicou outros três títulos igualmente desafiadores: O silêncio (1997), de Miguel Rio Branco; A antropologia da face gloriosa (1998), de Arthur Omar; e, em 2003, a reedição de um livro sobre a obra do escultor Amilcar de Castro (1920-2002), organizada pelo crítico Alberto Tassinari. 

Apesar da sofisticação visual dessas publicações, Charles diz que só compreendeu plenamente o design editorial quando começou a trabalhar com diretores de arte como Raul Loureiro, que hoje integra a sua nova editora, a Cosac – inaugurada em 2024 justamente com um novo livro dedicado à trajetória de Tunga. “Eu já colecionava e comprava livros de arte e monografias, observava que havia livros mais atraentes e menos atraentes, mas não era tão ligado ao design de livro. Via os primeiros projetos como pontos independentes que não se comunicavam. Quando o Raul trouxe o primeiro catálogo e vi a beleza do que ele fez, foi ali que o design nasceu para mim”, recorda.

No início dos anos 2000, a Cosac Naify ampliou a sua atuação. Dos livros de arte, passou a editar literatura, ciências humanas e infantojuvenis sob a direção editorial de Augusto Massi. Para Raul Loureiro, a liberdade para pensar e experimentar, sempre de forma coletiva, diferenciava o processo de criação e acabou inspirando toda uma geração de novos autores e designers. “Algo muito importante que a gente fez na Cosac foi a questão da tipografia e do desenho da mancha gráfica no livro: pensar em como dar a melhor leitura possível. Isso era algo que não existia muito no Brasil até então. A partir daquele momento, criou-se essa cultura de olhar não só para a capa como elemento de inovação, mas para o livro como um todo”, reflete Loureiro.

Entre os projetos do escritor e ilustrador Daniel Kondo estão publicações em coautoria com Djavan, Gilberto Gil e Lulu Santos (foto: Nelson Kon)

Ilustrando a narrativa
Essa mudança de olhar foi aos poucos abrindo caminho para projetos autorais em outras editoras que integram texto e projeto gráfico desde a concepção do livro. O autor e ilustrador Daniel Kondo conhece bem esse processo. Vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil em 2022 por Sonhozzz e selecionado para o BRAW Amazing Bookshelf, que destaca as melhores obras da Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália), ele se define como um designer do “livro-objeto”.

Em obras voltadas ao público adulto, Kondo constrói narrativas sensíveis e cheias de poética visual. Nos últimos anos, publicou livros em coautoria com nomes da música brasileira, como Gilberto Gil (Andar com fé e Nós, a gente, ambos lançados em 2023 pela WMF Martins Fontes; Refazenda e Refloresta, de 2025, pela Elo), Djavan (Açaí + Seca, de 2024, pela WMF Martins Fontes) e Lulu Santos (Traço e verso, de 2020, pela Pancho Sonido). “Tento extrair da canção um elemento narrativo e estabelecer outra camada de leitura. Não é uma mera ‘ilustração’ da música. Digo que é uma tradução intersemiótica paralela do texto para a imagem. É uma gramática visual que cria enigmas completamente decifráveis para quem quiser navegar pela obra”, explica.

Em 2025, lançou também o livro infantil autoral Lobo Mau com dor de dente, pela Carambaia. Brincando com os desenhos e o formato da publicação, o autor propõe que o leitor adentre a história a cada virada de página. “O próprio códice [formato físico da obra] é um elemento narrativo: o livro morde o leitor”, explica. 

Caminho da experimentação
Antes de começar uma edição, Cecilia Arbolave faz uma extensa pesquisa sobre processos gráficos. Editora e produtora gráfica da Lote 42, ao lado de João Varella, ela é autora de O livro de fazer livros (2024), que percorre as etapas da impressão – da concepção à pós-impressão –, passando pela anatomia de uma publicação, a escolha do papel e os segredos das gráficas. O projeto gráfico do título, assinado por Gustavo Piqueira, também conduz o leitor por esse percurso.

Cecilia é uma das fundadoras da Feira Miolo(s), que reúne artistas e editoras independentes todos os anos na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Para ela, a evolução do parque gráfico brasileiro nos últimos anos ampliou as possibilidades de editoras pequenas e independentes. “Existe uma exploração do formato porque não temos um compromisso engessado com o padrão tradicional. Acho muito legal essa provocação, porque tira a pessoa da zona de conforto. O leitor descobre que existe um valor na escolha da técnica de impressão, dos materiais e dos formatos. É uma troca rica”, diz.

Na avaliação de Chico Homem de Melo, é justamente na cena independente que hoje surgem algumas das propostas mais originais do design editorial brasileiro. “O que há de mais alentador e oxigenado na cena editorial contemporânea do Brasil está justamente nessas editoras alternativas, presentes em feiras como a Miolo(s). Essa produção marginal está com um vigor e uma potência extraordinários”, afirma.

A parceria entre Cecilia, João Varella e Gustavo Piqueira deu origem a alguns dos projetos gráficos mais experimentais da Lote 42. Entre eles estão Era preciso estar em sintonia com o seu tempo (2025), publicado em uma caixa que brinca com a ideia de “livro de decoração”; Bibi (do início desta reportagem); Valfrido? (2016), relato metalinguístico construído a partir de malas diretas; e Seu Azul (2013), cuja capa recebe aplicação artesanal de areia. A produção, inclusive, anda intensa: só neste ano, já lançaram Warja Lavater: desenho como escrita como desenho e Infantojuvenil. E ainda há mais por vir. 

Em abril, Gustavo e Cecilia viajaram a Bogotá (Colômbia) para conhecer a região de Ricaurte, considerada o polo das artes gráficas na cidade. O contato com técnicas locais de impressão artesanal e com a cena editorial independente da América Latina – relação que ela, argentina, mantém com muito talento e orgulho – deu origem a Duty Free, previsto para o segundo semestre de 2026 no Brasil. Segundo Gustavo, trata-se do que ele mesmo apelidou de um “livro-invenção”, em que todas as etapas compreendem o processo de “escrita”. Afinal, para ele, nunca é apenas o texto que conta uma história. “Tudo isso também é escrever um livro”. 

Com um novo livro reunindo mais de 400 ilustrações de Tunga, Charles Cosac lançou sua nova editora, em 2024, mantendo o apreço pelo impacto visual das obras (foto: Cosac).

O papel do design
Publicações das Edições Sesc São Paulo buscam traduzir de forma visual o universo escrito em suas páginas

Livro sobre a obra do fotógrafo Eustáquio Neves são exemplos de apuro estético desde a capa ao projeto gráfico (imagem: Edições Sesc São Paulo)

Formatos, tipos de papel, texturas, cores e técnicas de impressão. Tudo faz parte da edição de um livro. No catálogo das Edições Sesc São Paulo, composto principalmente por títulos voltados às ciências humanas e às artes, essas escolhas são discutidas desde o início de cada projeto. “Tentamos sempre transmitir a nossa paixão por livros no trabalho de edição: unimos o conteúdo textual e o projeto gráfico para criar a melhor experiência de leitura”, comenta Clivia Ramiro, coordenadora editorial das Edições Sesc São Paulo.

Na concepção dos livros, editores, autores, designers, ilustradores, fotógrafos e produtores gráficos costumam trabalhar em conjunto. “O projeto gráfico é sempre pensado de maneira coletiva e em diálogo com o autor e as necessidades de cada obra. Cada projeto é único”, conta o coordenador de produção gráfica Fabio Pagliuca Pinotti.

Na prática, vários títulos se aproximam da categoria de livro-objeto, proporcionando uma experiência de leitura ao mesmo tempo sensorial e material. É o que acontece em Vestígios da floresta: povos indígenas refugiados da Amazônia (2024), de Daniel Cangussu. O desafio não foi apenas transformar uma dissertação de mestrado em uma publicação de não ficção, mas também trabalhar com uma fotografia de Sebastião Salgado (1944-2025) – uma obra de arte por si só – na capa. Como inserir título, nome do autor e identidade visual do selo editorial sem interferir em uma imagem tão significativa? A solução da designer Cristina Gu foi criar uma sobrecapa que funciona como envelope, produzida em papel pergaminato semitransparente. A fotografia permanece visível sob a camada translúcida, enquanto tipografia e logotipo aparecem nesta sobrecapa.

Já em O devorador: Zé Celso, vida e arte (2025), organizado pelo jornalista Claudio Leal, o projeto gráfico de Mateus Valadares busca traduzir o universo dramático do artista. O livro reúne ensaios e depoimentos de pesquisadores e artistas convidados, fotografias e textos do dramaturgo José Celso Martinez Corrêa (1937-2023). Com formato ampliado, a publicação trabalha com lombada aparente e duas cores principais, escolha que cria uma linguagem visual própria.

Outro exemplo mais recente é Outros Navios: Eustáquio Neves (2026), organizado por Eder Chiodetto. O desafio para o design do livro foi encontrar uma forma de apresentar a produção experimental e autoral de um ícone da fotografia contemporânea. Neves manipula suas imagens com pintura, recorte, colagem, desgaste e processos químicos, criando obras sobrepostas e fragmentadas que abordam memória, identidade, ancestralidade e resistência. O projeto gráfico de Rafael Simões precisava, portanto, valorizar essa iconografia ao organizar séries fotográficas, ensaios, textos, entrevistas e cronologia em diferentes camadas de leitura. Foi nesse encontro entre arte, design e produção gráfica que o livro se tornou um manifesto visual e material da obra do autor. Acesse o catálogo das Edições Sesc São Paulo em sescsp.org.br/edicoes.

A EDIÇÃO DE OUTUBRO DE 2026 DA REVISTA E ESTÁ NO AR!

Para ler a versão digital da Revista E e ficar por dentro de outros conteúdos exclusivos, acesse a nossa página no Portal do Sesc ou baixe grátis o app Sesc SP no seu celular! (download disponível para aparelhos Android ou IOS).

Siga a Revista E nas redes sociais:
Instagram / Facebook / Youtube

A seguir, leia a edição de OUTUBRO na íntegra. Se preferir, baixe o PDF para levar a Revista E contigo para onde você quiser!

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.