Causos e canções de Wandi Doratiotto

30/09/2026

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Entre a carreira de músico e trabalhos na televisão, músico reflete como o humor e a relação com São Paulo moldaram seu caminho (foto: Nilton Fukuda)

Leia a edição de outubro de 2026 na íntegra

POR MARINA PEREIRA

Para Wandi Doratiotto, músico, compositor, apresentador e ator, a veia humorística e, ao mesmo tempo, crítica e sagaz de ser um contador de causos está no DNA da sua família. Nascido no bairro da Lapa, zona Oeste de São Paulo, cresceu sob o olhar atento dos pais, que perceberam logo cedo seu talento para a música. “O meu pai, que era músico, tocava cavaquinho e violão, era muito engraçado, perspicaz, aquariano. Ele saía comigo, observando a rua e as pessoas e contava causos engraçados. O bairro era de muitos operários na época. A maioria dos filhos ia vender limão, trabalhar na fábrica, mas meu pai falou: ‘Não precisa ir, vai estudar’. Imagina o que significa isso para uma pessoa que não tem estudo formal, como meu pai”.

Wandi carregou o talento para as crônicas musicais e, junto aos companheiros Antônio Marcelo Galbetti, Claus Erik Petersen, Igor Lintz Maués e Mário Manga (Mário Augusto Aydar), formou o grupo Premeditando o Breque, que marcou a Vanguarda Paulista nos anos 1970. Em 2026, o Premê completa 50 anos em atividade e, para celebrar a trajetória, lança o álbum Dinheiro não é tudo?, pelo Selo Sesc, que reúne composições da história do grupo.

Wandi é figura conhecida das telas, tendo participado de propagandas e de atrações na televisão brasileira, como os programas Castelo Rá-Tim–Bum e Bem Brasil. No caso desse último, foi apresentador por 17 anos, entre 1991 e 2008, e voltou ao comando no último mês de junho, com o retorno do programa musical do canal, em parceria com o Sesc São Paulo. Neste Depoimento, Wandi conta sobre a sua relação com a cidade de São Paulo, a trajetória do Premê e como o humor e a crítica transformam o cotidiano.

lapa
A Lapa do Rio de Janeiro, que todo mundo fala e onde tudo acontece, é linda. Mas a Lapa de São Paulo era uma coisa incrível. Tinha até uma orquestra com naipes de metais regida pelo maestro Seu Chico Pereira Marques. Quando eu tinha 5 anos, ele me levava para concerto, eu tocava um pandeirinho. Para se ter ideia, a família era tão ligada na música que o filho do maestro se casou com a minha irmã.  Onde passássemos na Lapa, meu pai, que também era músico, tocava cavaquinho e violão, tinha que parar porque eu ficava fascinado pela sanfona e orquestra, foi uma riqueza. Sempre fui um garoto que ficava muito na rua. Meus pais eram simples, mas observaram que, quando eu pegava no instrumento, eu tinha algum talento.

composição
Sempre compus. Muita coisa ruim, mas outras tantas que eu considero boas. Fiz a primeira canção com uns 13 anos. Eu imitava aquele jeito cínico de cantar do Juca Chaves (1938-2023) [compositor, músico e humorista], criando umas modinhas, tirando sarro dos absurdos que nos cercam. Ele era fantástico, gravava álbuns LP com gozações, conversas, contava causos, piadas. E eu falei: “Um dia eu vou fazer isso”. À minha maneira, fui fazendo. Desde pequeno, sempre quis compor, sempre quis escrever, achava que podia escrever romances. Geminiano que sou, acho que posso fazer tudo ao mesmo tempo.

profissão
Estudei em vários conservatórios pequenos e, depois, fiz faculdade de música. A minha formação é de Educação Artística Plena em Música, na Faculdade Mozarteum de São Paulo (FAMOSP). Queria ter uma reserva para trabalhar, porque sabia que a música era jogo duro. Tanto que dei aula na rede estadual de ensino por quase quatro anos. No ano de 1976, comecei a frequentar a Universidade de São Paulo (USP) por ser um ambiente muito musical. Na faculdade de Física, tinha um grupo de choro incrível que havia se formado, por exemplo. Comecei a frequentar o departamento de música da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) como aluno ouvinte. Fui até aluno de orquestra, mas não era registrado na universidade. Foi ótimo, porque eu pegava os conceitos dos grandes mestres que estavam lá. Desse contato, começou uma brincadeira que, na época, não tinha nem nome, mas seria o início de Premeditando o Breque.

premê
Eu estava procurando alguém para fazer as minhas músicas solo. E me avisaram que um tal de Mário Augusto, da Orquestra da ECA, meu querido irmão Mário Manga, poderia ser essa pessoa. Nos encontramos e ele me falou: “Nós estamos começando uma brincadeira lá na ECA. Você não quer entrar?” Eles também gostavam de Jorge Veiga (1910-1979), Jards Macalé (1943-2025), esses estilos mais engraçados. Nós nos juntamos e foi um achado, uma confluência de fatores impressionante. Começamos a fazer choro, tocávamos Cachimbinho (Tomás Cavalcante da Silva, 1935-2022), Pixinguinha (1897-1973), a nata dos compositores de samba. À medida que nós vimos que o humor era a intersecção do grupo, entendemos que precisávamos inventar algo diferente, porque éramos novos na praia. Começamos a fazer música com letra, o que chamamos de “Espírito de Gandaia”. Tocávamos em vários departamentos da USP, na hora do almoço, na rua, no ônibus, e íamos buscar o público na frente dos cursinhos. Na saída, fazíamos algumas músicas, e convidávamos todos para o Lira Paulistana, um teatro que foi o principal palco do movimento do qual fizemos parte, a Vanguarda Paulista. Daí em diante, as coisas aconteceram à revelia da nossa vontade. O Premê foi a melhor coisa que fiz na vida.

Foto: Nilton Fukuda

festivais
Em 1979, aconteceu o festival da TV Cultura e o Premê ficou em segundo lugar com a música “Brigando na Lua”. Foi nesse momento que também vimos surgir nomes como Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Itamar Assumpção (1949-2003), entre outros. E o impulso que o festival deu se desdobrou em coisas bem legais. Para nós, foi o máximo, porque deu aquela confiança. Os festivais fizeram surgir tanta gente maravilhosa. Eles tinham esse caráter de que a vedete, uma palavra em desuso, não era o festival, não era o apresentador, não era a TV, era a música. Entre 1982 e 1986, participamos também de três edições do Projeto Pixinguinha que foi a melhor coisa que se inventou no Brasil. Era o encontro de um artista ou grupo consagrado com um principiante. Nós tocamos, por exemplo, com a cantora de choro Ademilde Fonseca (1921-2012) e com o músico e compositor Sérgio Ricardo (1932-2020). Foi uma maravilha, porque rodávamos por muitos lugares do Brasil. Tocamos no Piauí, algo quase inimaginável para um grupo outsider como o nosso, e fomos muito bem recebidos.

castelo
Não me sinto um ator, o meu barato é música. Mas a minha experiência na TV Cultura foi incrível. Era uma emissora que nos deixava totalmente à vontade. O Castelo Rá-Tim-Bum foi um projeto de altíssimo nível, ganhou prêmios internacionais, com uma equipe imensa de modestos profissionais ganhando uma graninha para viver. De repente, virou esse fenômeno. Era um lugar que tinha nomes como Rosi Campos, uma das maiores atrizes do Brasil. E com conteúdos que respeitavam a criança, que a tratavam como um ser humano capaz de abstrair, de perceber tudo aquilo. Deu certo demais. Televisão é uma ilusão, mas é uma maravilha, você tem que saber jogar.

bem brasil
O Roberto Muylaert [jornalista, escritor e ex-presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura] nos convidou para fazer um programa de chorinho aos domingos. O programa tinha estética maravilhosa, só ia gente boa, mas, como é que se faz um programa todos os domingos só com uma tendência? Abrimos a tampa e logo vieram nomes como Lulu Santos e Barão Vermelho. Havia muito mais possibilidade de artistas. Foi lindo poder voltar agora, depois de 17 anos, apresentando. A Beth [Carmona], hoje vice-presidente da Fundação Padre Anchieta, é uma grande amiga e insistiu para que programas como o Bem Brasil voltassem. Foi um projeto que ficou ligado pelo caminho afetivo, pelo encontro de diferentes gerações da música, e pela possibilidade de o público presenciar esse encontro de forma gratuita. Um exemplo emblemático foi o que rolou no programa que recebeu o Trio Mocotó, em atividade desde 1968, com dois artistas contemporâneos, o Vitão e a Duquesa. 

são paulo
“São Paulo, São Paulo”, uma das músicas mais conhecidas do Premê, surgiu de uma ideia baseada em “New York, New York” [canção famosa na voz de Frank Sinatra (1915-1998)]. Criamos uma levada no piano, meio blues, meio jazz. Abrimos um mapa da cidade, selecionamos os bairros e cada um entrou com uma ideia, um brainstorm mesmo. E, veja só, devemos ao maestro Nelson Ayres a aceleração da segunda parte, quando fazemos menção a esses bairros. Juntou tudo isso, deu uma música incrível, que ficou marcada. Esse meu álbum mais recente, Um passeio paulista (2026), é uma nova homenagem à cidade. As 15 faixas inéditas do álbum fazem menções a lugares como o Pico do Jaraguá, onde eu ia desde menino, o Theatro Municipal, a Praça Ramos. Então, falei de uma experiência única, da minha relação com a cidade.  

Após 17 anos à frente do programa, Wandi volta a apresentar o Bem Brasil, que retornou em junho deste ano, em uma parceria entre o Sesc São Paulo e a TV Cultura, e exibido diretamente do Sesc Itaquera, aos domingos.

Assista a trechos do Depoimento com o músico, compositor, apresentador e ator Wandi Doratiotto, realizado em agosto de 2026:

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