Silvero Pereira: ser tão visceral

30/09/2026

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Entre o teatro, a televisão, o cinema e a música, ator e cantor faz da arte um exercício de liberdade e reafirma o respeito pelo próprio ofício (foto: Agatha Gameiro)

Leia a edição de outubro de 2026 na íntegra

POR MARCEL VERRUMO

O corpo que ocupa o centro dos palcos e é iluminado pelo canhão de luz em shows e espetáculos de teatro é o mesmo que já andou quilômetros em busca de água, enfrentando os raios do sol no sertão nordestino. É o corpo de Silvero Pereira, artista nascido em Mombaça (CE), em 1982, cidade onde confrontou as adversidades ambientais e os preconceitos e imposições que o privavam de ser quem era. O corpo de um homem agarrado às oportunidades, que ganharia o mundo em busca dos sonhos.

Ator, diretor e cantor, Silvero é graduado em Artes Cênicas pelo Instituto Federal do Ceará. Destacou-se em trabalhos no teatro, como em BR-TRANS, com o coletivo As Travestidas; no cinema, com Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019); na televisão, com a telenovela Pantanal (TV Globo, 2022). Ganhou prêmios como o Grande Otelo do Cinema Brasileiro, Guarani e Extra de Televisão. Neste Encontros, o artista relembra os desafios do início da carreira e as relações que definiram sua trajetória.

Permissão para existir
Sou uma pessoa que nasceu no interior do Ceará, em uma família paupérrima, filho de uma mãe semianalfabeta e de um pai analfabeto. Estudei em escola pública a vida inteira. Fui uma criança que se identificou como uma figura fora dos padrões, que tinha a sensação de que não se encaixava. Tudo o que diziam para mim sobre como se comportar, se vestir, se relacionar, não pertencia à minha cabeça. Aos 44 anos, costumo dizer que, nos meus primeiros vinte anos de vida, eu era um morto vivo. Até os meus 13 anos, vivi em Mombaça (CE). Aos 14, fui morar em Fortaleza e tive outra perspectiva do mundo e das pessoas. Aos 17, conheci o teatro e descobri as permissões de quem você pode ser, de como pode se relacionar, do que pode falar, dos lugares onde pode andar, das roupas que pode vestir. Foi o teatro e a arte que me salvaram de todas as adversidades.

Do Turismo às artes
Quando cheguei em Fortaleza, entrei em uma escola técnica e fui apresentado a cursos que eram tidos como “para homens”, aqueles de tecnologia, mecânica, estrada. Só havia um curso de humanas, o de Turismo. Se o homem decidisse fazer esse curso, era como se estivesse se declarando não homem. A primeira vez em que tive uma grande coragem de romper com a estrutura machista e patriarcal onde cresci, quando me impus a partir dos meus desejos, foi quando eu disse “vou fazer Turismo”. Nessa escola técnica, a educação artística era uma área obrigatória; escolhi estudar teatro e entendi que era o que eu queria para a minha vida. Nessa época, a escola técnica se transformou em uma faculdade de artes cênicas e tive a oportunidade de migrar do técnico em Turismo para o curso superior em Artes Cênicas dentro dessa própria instituição.

Estreia solitária
Comecei a ler Caio Fernando Abreu (1948-1996) e descobri o conto “Dama da noite” [publicado originalmente no livro Os dragões não conhecem o paraíso (1988), aborda temas como a solidão, os afetos e as sociabilidades de pessoas marginalizadas]. Conheci a história do [diretor e ator] Gilberto Gawronski, que tinha ficado em cartaz com uma montagem do texto durante 15 anos. Pensei que, se isso já havia virado teatro, eu também poderia adaptar. Quando comecei, o objetivo era fazer com quatro pessoas, mas não consegui reunir um elenco para o projeto, porque a classe artística já estava encaixotando o texto [a peça era, frequentemente, interpretada por drag queens e artistas chamadas, à época, de transformistas]. Comecei a ouvir que eu queria me vestir de mulher e deveria apresentar a obra apenas em boates. Insisti que queria fazer no teatro e decidi montar um solo. Fiz vários convites para diversos diretores da cidade, mas nenhum quis me dirigir. Na adaptação, intitulada Uma flor de dama, tive que assinar a direção, adaptação, figurino, iluminação, sonoplastia, tudo.

Encontrar-se no coletivo
Também tive o desafio de convencer o público a ir ao teatro. Estreei com cinco ou seis pessoas na plateia, que foi a média diária de público da temporada. Até que tracei uma estratégia de fazer o Cabaré da dama, um espetáculo que acontecia depois das dez da noite no porão do Theatro José de Alencar. Com isso, finalmente o público de Fortaleza viu o que eu fazia. O espetáculo virou um fenômeno, a gente tinha que fazer duas, três sessões na mesma noite. Foi então que fui me aproximando das meninas, da Verônica, Alicia, Yasmin, Deydianne, da Mulher-Barbada. Fomos formando um grupo e decidi que não queria mais trabalhar sozinho, mas em conjunto. Surgia o coletivo As Travestidas. Depois do Cabaré da dama, montamos o espetáculo Engenharia erótica – Fábrica de travestis; fizemos o musical Yes, nós temos bananas; veio o BR-TRANS. Depois de dez anos, decidi que precisava fazer um estudo sobre o que a gente havia feito coletivamente nesse período. Construí uma metodologia para pensar nosso trabalho, refletir sobre como dirigir, adaptar, escrever, atuar, encenar. O BR foi o primeiro estudo sobre o que As Travestidas fazia.

Em seu trabalho interpretando as músicas de Belchior, Silvero relaciona a sua história com a do cantor cearense. (Foto: Agatha Gameiro)

Guinada à música
A minha mãe sempre foi apaixonada pelo rádio e pela televisão. O meu pai, pela música. Foi ele quem me apresentou o Waldick Soriano (1933-2008), o Reginaldo Rossi (1944-2013), o Luiz Gonzaga (1912-1989), o próprio Belchior (1946-2017). No espetáculo BR-TRANS, foi a primeira vez em que me coloquei na situação de cantor. Quando fui chamado para fazer televisão [a telenovela A força do querer (Glória Perez, 2017)], alguém achou que eu cantava e resolveu colocar números musicais. Como nordestino, entendo que, se a oportunidade que me dão é essa, vou fazer com o maior prazer e força para provar que eu sou bom nisso. Assim que a novela acabou, fui convidado para fazer o Show dos famosos, no Domingão do Faustão. Quando me sagrei vice-campeão, pensei que eu tinha potencial e podia dominar mais. Foi então que comecei a estudar música, em 2018.

Lunga e Bacurau
Quando terminei a novela, também veio a oportunidade de fazer um teste para o filme Bacurau e, depois, o convite para interpretar o Lunga, que originalmente era um personagem trans. Já estávamos em 2019 e as discussões de gênero já estavam muito mais afloradas [a telenovela A Força do querer havia gerado debates sobre a escalação de profissionais cis para representar personagens trans]. Eu disse que não poderia aceitar, que eles precisavam contratar uma atriz trans para o papel. Nisso, o Kleber me contou: “fiz alguns testes, mas o seu sempre ficou na minha cabeça e eu não gostaria de abrir mão de você como personagem”. Ele me disse uma frase ótima: “você tem cara de quem mata alguém, por isso eu quero você.” Respondi que ele tinha a opção de contratar uma pessoa trans ou mudar o roteiro e a identidade de gênero do Lunga. E ele mudou o roteiro original para um personagem queer. O Lunga foi uma grande virada na minha história, fez com que eu me tornasse um ator respeitado no cinema nacional. Sem falsa modéstia, o Lunga está entre as grandes figuras do nosso audiovisual, ao lado de personagens de filmes como Minha mãe é uma peça (André Pellenz, 2013), Tropa de elite (José Padilha, 2007), Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) e Pixote, a lei do mais fraco [Héctor Babenco (1946-2016), 1981].

Contar músicas
Durante a pandemia, recebi um convite do Festival de Cinema de Vitória para fazer um show online do Belchior. Foi o meu primeiro experimento como cantor, batizado como Silvero interpreta Belchior. Quando decido montar o show, crio uma dramaturgia e faço uma composição de músicas sobre a história que quero contar. O show não é só sobre a história do Belchior. A partir do momento em que abro a boca para falar de um rapaz latino-americano vindo do interior sem nenhum dinheiro no bolso e em busca dos seus sonhos, estou falando de mim. No show, faço a analogia com quem eu sou e com quem somos todos nós, que passamos por essa mesma situação, que abandonamos um lugar para ir em busca dos sonhos. Para mim, a música não é sobre cantar, é sobre contar.

Ser referência
Não quero representar ninguém, mas penso ser muito importante ter a consciência da minha referência. Na televisão, sou imagem para uma série de pessoas, principalmente por ter a oportunidade de contar a minha história. Algumas pessoas estão cansadas de me ouvir dizer que eu carreguei água na cabeça, que andei dez quilômetros para buscar água, mas eu tenho que falar sobre isso porque, em algum momento, uma pessoa pode me ouvir e descobrir que esse não é um mundo perdido, desde que a gente tenha oportunidades. Sou uma figura que teve oportunidades, e aproveitou e aproveita cada uma delas até hoje. Posso até não ser o melhor, mas eu sou uma figura de importância, porque respeito o meu ofício. 

O ator e cantor Silvero Pereira esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 28 de agosto. A mediação do bate-papo foi de Rafael Miranda, graduado e mestre em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP), e supervisor da programação do Sesc Pompeia.

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