
Celeiro de grandes atores e atrizes do país desde a década de 1940, Teatro Brasileiro de Comédia ajudou a profissionalizar as artes cênicas em São Paulo (foto: Acervo Klaus Werner)
Leia a edição de outubro de 2026 na íntegra
POR VANESSA D’AMARO
Na rua Major Diogo, no Bixiga, um antigo casarão de arquitetura eclética do início do século 20 guarda um dos grandes capítulos das artes cênicas brasileiras. Na noite de 11 de outubro de 1948 era inaugurado o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), com “grã-finos de paletó e madames de salto alto, exalando perfume francês”, como descreve Alessandra Vannucci no livro Teatro Brasileiro de Comédia: oito décadas de história (Edições Sesc, 2026). A partir dessa data, o local se tornaria a sede de uma das mais importantes companhias do Brasil.
A estreia contou com um espetáculo em francês: um monólogo de Jean Cocteau (1889-1963), dirigido e interpretado pela atriz francesa Henriette Morineau (1908-1990). Na sequência, a peça A mulher do próximo, de Abílio Pereira de Almeida (1906-1977), trazia o Grupo de Teatro Experimental com a atriz Cacilda Becker (1921-1969).

A criação desse espaço nasceu de uma paixão do italiano Franco Zampari (1898-1966). Ele havia chegado ao país em 1922, a convite do amigo Francisco “Ciccillo” Matarazzo (1898-1977), para trabalhar na Metalúrgica Matarazzo. Notou logo que, embora houvesse espaços em São Paulo, a maioria dos teatros estava convertida em cinema. Os endereços para espetáculos se resumiam a três: Teatro Boa Vista, Teatro Santana e Theatro Municipal.
“Existiam grupos profissionais de teatro importantes, como Os Comediantes, por exemplo, que encenaram Vestido de noiva (1943), de Nelson Rodrigues (1912-1980), no Rio de Janeiro. Em São Paulo, não havia nada disso. Tínhamos poucos grupos profissionais e amadores”, explica Alvaro Machado, crítico, pesquisador de teatro e organizador do livro lançado neste mês pelas Edições Sesc São Paulo (leia mais em História documentada).
Foi nesse cenário que Zampari passou a defender que a cidade precisava de um espaço moderno, com peças profissionais aos moldes europeus, para impulsionar as artes. A ideia ressoou entre seus amigos, e ele conseguiu reunir alguns deles, como o empresário Paulo Assumpção, na criação da Sociedade Brasileira de Comédia. Por indicação de Hélio Pereira de Queiroz, membro do Grupo de Teatro Experimental, foi conhecer o casarão no Bixiga – uma área de trabalhadores, imigrantes e ex-escravizados próxima ao centro – e decidiu instalar ali seu teatro.
Engenheiro de formação, Zampari assumiu a obra e teve a colaboração do cenógrafo italiano Aldo Calvo (1906-1991), que havia trabalhado no Teatro alla Scala, de Milão (Itália), e orientou tecnicamente os trabalhos para garantir visibilidade e acústica. Assim, o casarão ganhou um teatro de 365 lugares, área técnica, espaços administrativos e salas de ensaio.
Essa modernização, no entanto, não se restringiria ao espaço físico. Uma das principais ideias de Zampari foi eleger um diretor artístico que coordenasse a programação. O escolhido, o diretor Adolfo Celi (1922-1986), aportou em São Paulo em 1949 e, posteriormente, trouxe outros colegas europeus. “Adolfo Celi talvez tenha sido o mais completo artista de palco. Ele tinha um pensamento mais amplo na direção de seus espetáculos. Franco Zampari percebeu isso e deu a ele o cargo de diretor artístico”, conta Machado.
Sob seu comando, o repertório do TBC combinou autores nacionais e estrangeiros – com muitos clássicos internacionais de Jean-Paul Sartre (1905-1980), Tennessee Williams (1911-1983), Luigi Pirandello (1867-1936) e William Shakespeare (1564-1616). “Há um estigma de que o TBC privilegiava autores estrangeiros, assuntos e temas burgueses. Não é verdade. Quando catalogamos, vemos que há muitas peças nacionais como a própria peça de estreia, de Abílio Pereira de Almeida. O TBC trazia essa multiplicidade de vozes”, afirma Machado.
Foi na montagem de estreia que Cacilda Becker começou sua trajetória no TBC. Ela foi a primeira atriz profissional contratada pela companhia e protagonizou inúmeras montagens, incluindo Antígone, de Sófocles e também a versão de Jean Anouilh (1910-1987), e A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas (1802-1870). Saiu apenas em 1955, quando fundou sua própria companhia.
A trajetória de Cacilda fazia parte de uma transformação maior no modo de produzir teatro. O TBC consolidou o conceito de teatro de equipe e, conforme avançava nas produções, mais atores profissionais se uniam à companhia, que contou com nomes célebres como Paulo Autran (1922-2007), Sérgio Cardoso (1925-1972), Cleyde Yáconis (1923-2013), Tônia Carrero (1922-2018), Fernando Torres (1927-2008), Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg.

Esse movimento de conjugar profissionais de alto nível em produções complexas contribuiu para a profissionalização de toda a categoria. Nessa lógica, além da alta qualidade dos espetáculos, atores e técnicos, por exemplo, recebiam salário fixo, algo até então inédito na carreira. O modelo também se refletia no ritmo de produção: havia peças praticamente todos os dias. Tudo, porém, dependia do mecenato de Zampari.
No começo da década de 1950, o dinheiro começou a faltar. O empresário também havia criado a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, que acabou deficitária e contribuiu para a crise financeira do TBC e seu afastamento da administração da casa, em 1954.
A saída de Zampari marcou uma fase difícil, com o espaço sendo alugado a variadas companhias. Tombado pelo Condephaat em 1982, o imóvel foi adquirido em 2008 pela Funarte, que iniciou os estudos de restauro em 2011, sob a gestão de Sergio Mamberti (1939-2021). Diante do debate sobre seu destino, a mobilização popular evitou a privatização. “Lutou-se para que o TBC continuasse como equipamento público”, lembra Machado. Atendido o apelo, o prédio foi incorporado ao Sesc, que deve abrir uma nova unidade no local até 2030.

Ruth de Souza em Vereda da salvação (1964) (foto: Klaus Werner).
Trupe do Grupo Universitário de Teatro (GUT), que também se apresentava no TBC (foto: Acervo Daniel Marano)






para ver no sesc / gráfica
História documentada
Livro das Edições Sesc resgata trajetória e importância do TBC

Publicado pelas Edições Sesc São Paulo, o livro Teatro Brasileiro de Comédia: oito décadas de história reúne pesquisadores, professores de artes cênicas, dramaturgos, artistas e arquitetos para resgatar a trajetória do espaço que abrigou, no bairro paulistano do Bixiga, uma das companhias mais inovadoras da história cultural brasileira.
Organizada por Alvaro Machado, doutor em Teatro pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), a publicação reúne ensaios de Nadia Somekh e José Geraldo Simões Júnior, Elizabeth Azevedo, Alessandra Vannucci, Lígia Cortez, Ricardo Cardoso, Johana Albuquerque e Nabil Bonduki e José Cetra Filho. Cada autor aborda o TBC sob uma perspectiva diferente.
Elizabeth Azevedo resgata a história do teatro e o “desejo do moderno, do novo” nas elites paulistanas do pós-Segunda Guerra. Vannucci aborda a presença dos artistas estrangeiros, principalmente italianos, e recupera a trajetória do fotógrafo Fredi Kleemann (1927-1974), cuja obra ilustra toda a publicação. Lígia Cortez, filha de Raul Cortez (1932-2006) e de Célia Helena (1936-1997), que integraram o TBC, discute a contribuição das técnicas e práticas interpretativas desenvolvidas pelo elenco para o trabalho de palco contemporâneo. O livro também retrata a importância do TBC para a história do Bixiga nos textos de Nadia Somekh, José Geraldo Simões Júnior e Nabil Bonduki.
Machado, por sua vez, traça um panorama de todos os espetáculos de teatro, dança e performance que ocorreram no edifício após o fim definitivo do TBC, cobrindo um período que vai de 1965 até os dias atuais, quando o edifício foi cedido ao Sesc São Paulo para reforma e futura criação de uma nova unidade. O evento de lançamento do livro será em 28/10, quarta–feira, às 19h, no Sesc 14 Bis.
Teatro Brasileiro de Comédia (TBC): oito décadas de história
Álvaro Machado
Edições Sesc São Paulo
2026, 344p.
17 x 24 x 2 cm
600g
ISBN 978-85-9493-350-8
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