Turismo e territórios

30/09/2026

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Leia artigos de Andrea Rabinovici e Cláudia Fernanda Balthazar dos Santos (ilustração: Rafael Sica)

Leia a edição de outubro de 2026 na íntegra

Pensar a relação entre turismo e territórios exige superar a visão tradicional que enxerga um destino turístico apenas como um itinerário de atrações ou um produto destinado ao consumo de viajantes. Diante dos desafios socioambientais atuais e da necessidade de redefinir modelos econômicos, é preciso reconhecer que os locais visitados são, essencialmente, espaços constituídos por pessoas, memórias, identidades, modos de vida e saberes próprios. 

Sob essa perspectiva, o território deixa de ser um cenário de passagem e assume o papel de sujeito, garantindo às comunidades o direito de gerir seu espaço, decidir quais histórias compartilhar e definir seus próprios limites. A viagem, então, pode ganhar um caráter educativo e transformador, pautado pelo aprendizado contínuo, pelo respeito e pela escuta atenta das realidades locais.

“Quando uma comunidade conta sua própria história, apresenta seus lugares de memória, compartilha seus saberes, sua gastronomia, seus ofícios, suas festas e suas formas de se relacionar com a natureza, ela torna visíveis conhecimentos e pessoas, fortalece vínculos e cria possibilidades para que esses saberes continuem vivos”, analisa a professora Andrea Rabinovici. “A memória social pode, assim, funcionar como uma tecnologia social, ou seja, como conhecimento e prática construídos coletivamente, capaz de gerar renda, autoestima, desenvolvimento e pertencimento”.

É a partir do entendimento da localidade como sujeito ativo que a pesquisadora Cláudia Fernanda Balthazar dos Santos destaca a necessidade de inverter a hierarquia tradicional entre a atividade turística e o modo de vida local. “Há uma diferença substantiva entre desenvolver turismo no território e desenvolvê-lo com o território. Nem todo lugar precisa receber mais visitantes, nem toda manifestação cultural precisa tornar-se atração. O direito de receber inclui o direito de decidir como receber e aquilo que deve permanecer fora do turismo. Não são as comunidades que precisam encontrar seu lugar dentro de um turismo previamente organizado, é o turismo que precisa encontrar seu lugar dentro da vida do território”.

Neste Em Pauta, Andrea e Cláudia nos convidam a questionar o verdadeiro significado do que é promover o desenvolvimento por meio do turismo. As autoras discutem como a atividade pode se afastar do modelo puramente mercantilista ao incorporar práticas éticas e inclusivas, como o turismo social e o turismo de base comunitária. 

Desenvolver territórios via turismo: o que isso quer dizer? 
Por Andrea Rabinovici 

“O território não é um lugar onde a gente mora, o território é um lugar onde a gente é.” Nêgo Bispo (1959-2023) 

Territórios são lugares onde há pessoas, animais, montanhas, rios, espíritos, memórias, sentimentos e narrativas. Há também concepções de mundo, de desenvolvimento e de bem-viver próprias. É justamente isso que vai atrair turistas a conhecê-los, produzindo efeitos de todos os tipos.

O turismo, qualquer que seja a modalidade, é uma atividade com muitas facetas e intenções. Realizado com mais ou menos planejamento e cuidado, contribui para transformar as localidades. Está imbuído da lógica capitalista de consumir lugares e paisagens. Muitos turistas, especialmente aqueles formados por uma cultura urbana fortemente marcada pelo consumo, carregam consigo essa lógica e essa forma de viajar, sem muitas preocupações com os territórios.

Desenvolver territórios não é, originalmente, uma finalidade do turismo. Essa ideia ganhou força, entre outras razões, pela capacidade da atividade de gerar renda e movimentar economias locais. Educar pessoas para serem turistas, também não. Mas a atividade foi se complexificando e, com o tempo, assumindo diferentes papéis, contornos e expectativas, especialmente em algumas de suas modalidades. Afinal, é necessário cuidar dos “atrativos” e dos “destinos” para que sigam existindo e movimentando a atividade turística.

Passaram a ser esperados efeitos positivos, especialmente quando se trata de um turismo que se pretende responsável, sustentável e ético, como o turismo de base comunitária, o turismo cultural, pedagógico, de natureza, de experiências e de conteúdo, entre outros, incluindo o turismo social. Podem estar entre esses efeitos a geração de renda e trabalho, a autonomia e o protagonismo das comunidades, a valorização e a preservação dos patrimônios culturais e naturais, a melhoria de infraestruturas, a permanência de jovens nos territórios e a ampliação do sentimento de pertencimento e da autoestima comunitária.

Porém, nada disso acontece automaticamente. Desenvolvimento local envolve a capacidade de um território ampliar suas oportunidades sem perder as condições sociais, culturais e ambientais que sustentam sua existência. Antes de perguntar como fazer isso, talvez seja preciso entender como aquela localidade quer caminhar. Que sentidos atribui a conceitos como desenvolvimento, sustentabilidade, qualidade de vida e bem-viver? As respostas a essas perguntas podem ser muito diferentes entre os próprios habitantes e, certamente, entre quem vive ali e quem chega de fora. 

Por isso, por melhor que seja planejado, o turismo também produz conflitos. Um mesmo impacto pode ser lido como excelente ou terrível. O aumento da renda, por exemplo, pode significar mais oportunidades para alguns, mas também gerar novas desigualdades e violências. A valorização de uma festa, de um saber ou de uma paisagem pode fortalecer a identidade local, mas também transformar aquilo em mercadoria para quem visita.

É nesse ponto que a valorização das memórias, dos patrimônios, das paisagens e dos modos de vida locais pode fazer diferença. Quando uma comunidade conta sua própria história, apresenta seus lugares de memória, compartilha seus saberes, sua gastronomia, seus ofícios, suas festas e suas formas de se relacionar com a natureza, ela torna visíveis conhecimentos e pessoas, fortalece vínculos e cria possibilidades para que esses saberes continuem vivos. A memória social pode, assim, funcionar como uma tecnologia social, ou seja, como conhecimento e prática construídos coletivamente, capaz de gerar renda, autoestima, desenvolvimento e pertencimento.

Há algo de arrogante na ideia de que o turista chega a um território para “ajudá-lo”. Afinal, quem disse que aquele lugar precisa se desenvolver segundo os mesmos caminhos e sentidos de quem chega? Cada comunidade possui suas próprias histórias, cosmologias, referências e formas de habitar o mundo. Não seria interessante o visitante rever suas próprias certezas?

Os encontros provocados pelo turismo são interessantes porque envolvem trocas entre pessoas diferentes, de idades, formações, pensamentos, sonhos e expectativas diversas. A escuta e os aprendizados podem ser potencializados nessas ocasiões, abrindo oportunidades reais para imaginar mundos e futuros. São ocasiões para conversar, criar afetos e só isso já é transformador.

O turista precisa ser educado para viajar. Não basta não deixar lixo, não depredar, respeitar as pessoas e pagar pelos serviços. Tudo isso é fundamental, mas pode ser pouco diante da complexidade dos territórios visitados. Viajar pode ser uma oportunidade de aprender sobre outras formas de viver, de pensar a natureza, a cultura, a educação e o próprio desenvolvimento. Pode ser uma experiência de reconexão da pessoa consigo, com os outros e com o mundo.

É aí que o turismo social pode exercer um papel importante. Ao buscar democratizar o acesso às viagens, ampliar a inclusão e a acessibilidade e colocar as pessoas e as comunidades no centro da experiência, ele pode também contribuir para uma educação do olhar e da escuta. Viagens podem ser espaços de aprendizagem, convivência e valorização dos lugares visitados, aproximando pessoas de suas histórias, patrimônios, paisagens e modos de vida. O desafio é fazer com que essa experiência crie condições para conhecer o território, respeitá-lo e estabelecer com ele uma relação mais responsável.

Dificilmente as pessoas viajam pensando na melhoria dos territórios. Como incluir essa questão e a postura de visitar uma comunidade aprendendo e trazendo ideias, conhecimentos e recursos novos que talvez contribuam com o desenvolvimento local?

A graça do turismo está nessas possibilidades de encontros e trocas para todos. Desenvolver precisa envolver pessoas, histórias, saberes e forças diversas na construção de relações que façam sentido para as localidades. Como aprender a escutar, olhar e reconhecer os sinais de um lugar?

Um grande desafio é desenvolver questionando o desenvolvimento. É buscar sustentabilidade sem esvaziar a palavra, reconhecendo que o bem-viver pode ter significados diferentes e que os territórios são muito mais do que paisagens.

Seria muito bom o turismo contribuir com os locais visitados, valorizando-os. Seria excelente que, ao voltar para casa, o visitante enxergasse também outras possibilidades de estar no mundo e desenvolvesse o seu próprio local. Talvez um turismo melhor seja aquele que, ao valorizar e fortalecer as localidades visitadas, também nos ensine a olhar de outra maneira para “nossos” territórios. 

Andrea Rabinovici é Professora Titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pós-doutora pela Cátedra Olavo Setubal (IEA-USP) e pelo Programa de Pós-Graduação em Memória Social (Unirio). É doutora em Ambiente e Sociedade (Unicamp), mestra em Ciência Ambiental (USP), especialista em Turismo Ambiental (Senac) e bacharela e licenciada em Ciências Sociais, antropologia (Unicamp). É coordenadora da Cátedra Sustentabilidade da Unifesp.

Território: mais que destino, sujeito 
Por Cláudia Fernanda Balthazar dos Santos

Durante muito tempo, o desenvolvimento turístico esteve associado à capacidade de transformar lugares em destinos, identificar atrativos, ampliar fluxos, estruturar serviços, captar investimentos e aumentar a permanência dos visitantes. Essa perspectiva movimentou economias, mas também ensinou a olhar os territórios pelo que podem oferecer ao turismo. Diante da emergência climática, das desigualdades socioambientais e da Agenda 2030 [plano de ação da Organização das Nações Unidas (ONU) que tem como objetivo orientar o desenvolvimento sustentável até o ano de 2030], inverter essa lógica deixou de ser escolha. É preciso reconhecer os limites ecológicos e a vida de quem os habita. Antes de perguntar como tornar um lugar mais atrativo para quem chega, precisamos perguntar que turismo faz sentido para quem vive nele.

A pergunta sugere outra compreensão de território. Território não é cenário, superfície disponível ou conjunto de recursos à espera de aproveitamento. Milton Santos (1926-2001), em A natureza do espaço (Edusp, 2006), nos ajuda a compreendê-lo pelos usos, relações e práticas que lhe dão existência. É onde trabalho, circulação, memória, conflito, cultura e cotidiano se materializam. Beatriz Nascimento (1942-1995) amplia essa leitura ao aproximar território, memória e continuidade da vida coletiva. Há lugares constituídos por relações, lembranças, afetos e pertencimentos. Antes de ser destino, território é lugar vivido.

Um lugar pode receber mais turistas, movimentar mais recursos e, ainda assim, pressionar ecossistemas, elevar custos, descaracterizar paisagens ou expulsar aqueles que ajudaram a construí-lo. Crescimento da atividade não significa, por si só, desenvolvimento do território. Desenvolvimento para quem? A pergunta é econômica e política: quem decide, quem narra o lugar, quem recebe os benefícios e quem assume os custos? Se as comunidades receptoras permanecem quando termina a temporada, precisam participar da definição dos caminhos que o turismo percorrerá.

Essa mudança altera também nossa relação com memória, patrimônio e paisagem. Uma paisagem não é somente aquilo que o visitante vê, guarda também aquilo que uma comunidade lembra. Uma feira, uma receita, uma celebração, um edifício, uma roda de samba, um mercado, um caminho ou uma praça não nasceram como atrativos turísticos. Quando tudo precisa se converter em produto para adquirir valor, corremos o risco de produzir lugares cada vez mais interessantes para visitar e cada vez menos possíveis de viver.

Nêgo Bispo (1959-2023), em A terra dá, a terra quer (Ubu, 2023) oferece uma chave provocadora para essa contradição ao confrontar a lógica da exploração com relações orientadas pela partilha e pelo envolvimento. Daí surge uma pergunta incômoda: por que aquilo que tem valor para um território precisa adquirir valor de mercado para ser reconhecido? Nem todo patrimônio precisa ser consumido, nem toda memória, transformada em experiência vendável. Preservar também significa reconhecer o direito de estabelecer limites. A crise climática torna esse debate urgente. Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras, 2019), questiona a ideia de uma humanidade apartada da natureza. Praias, rios, montanhas, florestas e cidades não são cenários infinitamente disponíveis ao deslocamento e ao consumo. São sistemas vivos, atravessados por limites ambientais. Não haverá turismo sustentável se sustentabilidade significar apenas reduzir impactos sem questionar a lógica do crescimento permanente.

É nesse ponto que o turismo de base comunitária e o turismo social oferecem um caminho para outra relação entre turismo e desenvolvimento. Além de inserir moradores na cadeia turística, pressupõem reconhecer sua capacidade de decidir o que compartilhar, como receber, quais limites estabelecer e como os benefícios devem circular. Fortalecer negócios, produtores e redes locais favorece a permanência da riqueza no território. Mas sua contribuição vai além da economia: participação deixa de significar consulta e passa a significar poder de decisão.

Há uma diferença substantiva entre desenvolver turismo no território e desenvolvê-lo com o território. Nem todo lugar precisa receber mais visitantes, nem toda manifestação cultural precisa tornar-se atração. O direito de receber inclui o direito de decidir como receber e aquilo que deve permanecer fora do turismo. Não são as comunidades que precisam encontrar seu lugar dentro de um turismo previamente organizado, é o turismo que precisa encontrar seu lugar dentro da vida do território.

O turismo social acrescenta outra dimensão. Democratizar o turismo não significa somente permitir que mais pessoas viajem. Significa discutir como viajamos, quais lugares reconhecemos como dignos de conhecer, que histórias encontramos e que relações estabelecemos com quem vive ali. A educação para e pelo turismo amplia o deslocamento físico para uma experiência de formação, convivência e cidadania. Viajar pode produzir encontro e escuta e ensinar que conhecer um lugar implica reconhecer as pessoas e relações que o constituem.

O turismo de base comunitária e o turismo social encontram-se justamente aí. Um reposiciona quem recebe, o outro democratiza quem viaja. Juntos, permitem uma relação menos assimétrica entre visitantes, comunidades e territórios, combinando participação nos benefícios e nas decisões com responsabilidade sobre a maneira como conhecemos os lugares. Perguntar quanto turismo um território suporta, que recursos consome, que empregos gera e quanto da riqueza permanece no lugar é colocar sustentabilidade dentro das decisões sobre desenvolvimento e não depois delas.

Talvez o desafio não seja descobrir novos destinos, mas aprender novas maneiras de estar nos lugares. Um turismo comprometido com o desenvolvimento territorial precisa ser equitativo, gerar trabalho e renda sem reduzir desenvolvimento a crescimento econômico, valorizar patrimônios sem esvaziá-los de sentido, ampliar o direito à viagem sem retirar das comunidades o direito à permanência, e reconhecer que sustentabilidade exige limites, escolhas e responsabilidades compartilhadas. Território não é matéria-prima do turismo. O turismo é uma das atividades possíveis do território. Quando essa relação se inverte, muda nossa medida de sucesso. Em vez de perguntar apenas quantas pessoas chegaram, quanto consumiram ou quanto tempo permaneceram, podemos formular uma pergunta mais difícil e necessária: o que a presença do turismo deixa para quem permanece? Antes de ensinar os territórios a receber turistas, precisamos aprender a ensinar o turismo a escutá-los.  

Quando tudo precisa se converter em produto para adquirir valor, corremos o risco de produzir lugares cada vez mais interessantes para visitar e cada vez menos possíveis de viver.


Cláudia Fernanda Balthazar dos Santos é doutoranda e mestre em Planejamento e Gestão do Território pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Especialista em Educação Ambiental pelo Senac e bacharel em Turismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Consultora pedagógica e docente no ensino superior, nas áreas de Turismo, Hotelaria, Eventos, Gestão Ambiental, Comunicação e Produção Cultural, além de participação em programa de pós-graduação em Matriz Africana. 

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