Costurando os mistérios da Cabocla Mariana, padroeira do Tambor de Mina, com saberes e vivências de sua avó, a atriz amazônida Luiza Braga cria uma narrativa de cura que perpassa sua ancestralidade, modos de vida ribeirinhos e saberes da Encantaria amazônida, contando histórias particulares, mas que revelam a Amazônia negro-cabocla do norte do Brasil.
A dramaturgia do espetáculo teve como ponto de partida o registro de 4 horas de entrevista com a avó da atriz e o levantamento de histórias mitológicas, também em entrevista, acerca do universo da cabocla encantada Mariana, realizadas no terreiro de mina Nagô TEUCY – casa de Mina com 80 anos de existência e segundo terreiro mais antigo do estado do Pará.
A partir do estudo desse material bruto, foi-se desenvolvendo um trabalho de costura que revela pontos significativos de conexão entre a trajetória familiar da atriz e as narrativas míticas de Dona Mariana. E, nesse diálogo, falamos de um modo de vida amazônico que encontra na Mina uma cosmologia que atribui contornos e significação ao que se processa no cotidiano da vida comum das populações.
Quatro mulheres se encontram em cena, no corpo da performer. A mulher-encantada, que nos traz o universo fantástico, fabular, da Encantaria Amazônica. A mulher-avó, com histórias que vão desde os banhos de rio na infância até os segredos das ervas, utilizadas pela sabedoria popular, como instrumentos de cura e fertilidade. A mulher-neta, mulher imigrante deslocada de seu contexto originário, alocada em São Paulo e iniciada na Encantaria amazônica e A Mãe, figura que não se ouve, mas que recebe reverência como elo de conexão entre a mulher-neta-narradora e a ancestralidade apresentada.
A Mina e a Encantaria são saberes populares tradicionais da Amazônia brasileira que conectam cosmologias indígenas e negras.
Ficha Técnica
Idealização Coletivo Filhos de Iracema e Luiza Braga (PA)
Direção Victor Mendes (SP)
Dramaturgia Luiza Braga (PA)
Direção Musical Marco França (RN)
Direção de Fotografia Caio Oviedo (SP)
Direção de Movimento e Preparação Corporal Fabrício Licursi
Elenco Luiza Braga (PA)
Cenografia Wlad Lima (PA)
Consultoria em Encantaria Yá Gedeunsu, Babá Alá Omin e Yá Ejilaiê (PA)
Coletivo Filhos de Iracema é um coletivo afro-artivista que nasceu no chão da casa de mina Nagô T.E.U.C.Y, terreiro com 79 anos de história e segundo mais antigo do estado do Pará. O Coletivo reúne artistas da música, do teatro, da dança, do audiovisual e a comunidade de terreiro, em horizontalidade. Os envolvidos desenvolveram aberturas em suas práticas mediúnicas e receberam cuidado dentro da comunidade tradicional, através de sacerdotes e sacerdotisas, em especial Yá Gedeunsu e Babá Alá Omin. A partir desses conhecimentos, as produções artísticas de cada um, em suas individualidades, foi se transformando com os conhecimentos e vivências enquanto comunidade tradicional. A partir de então, o encontro em coletivo de criação se organizou e passou a propor intervenções que conectam os saberes tradicionais e as linguagens artísticas.
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