A Parada é Técnica / Mestres & Ofícios: os saberes que sustentam a cena 

06/10/2026

Compartilhe:

Projeto do Sesc Pompeia coloca em circulação experiências, técnicas e conhecimentos construídos nos bastidores da produção cultural 

Antes de uma peça chegar ao palco, de um filme chegar à tela ou de uma exposição receber o público, existe uma série de trabalhos que acontece longe dos olhos de quem assiste. Cenários são construídos, figurinos preparados, equipamentos testados, luzes posicionadas. No cinema, há quem cuide da câmera, do som, da conservação e dos arquivos. Nas oficinas, a matéria passa pelas mãos de quem conhece seus tempos, possibilidades e limites.

São conhecimentos que fazem parte da produção cultural, mas que nem sempre aparecem quando se conta a história de uma obra.

É nesse território que se concentra A Parada é Técnica / Mestres & Ofícios, projeto que coloca em circulação experiências de profissionais de diferentes áreas e gerações. Em quatro encontros, técnicos, mestres e mestras compartilham práticas de trabalho, trajetórias e formas de transmissão de conhecimento.

Por trás de cada resultado existe um conjunto de práticas que não se resume ao domínio de uma técnica. Há a experiência adquirida ao longo dos anos, a capacidade de reconhecer materiais, antecipar problemas, encontrar soluções e adaptar procedimentos. Há também aquilo que se aprende com outra pessoa e que, depois, pode ser transmitido novamente.

A pergunta que atravessa o projeto é simples: como um saber permanece quando passa de uma pessoa para outra?

Os saberes da mão

A primeira conversa parte das experiências desenvolvidas nas Oficinas de Criatividade do Sesc Pompeia, com a participação da tecelã Tiyoko Tomikawa, do ceramista Eng Goan e do desenhista Lourenço Mutarelli.

Da esquerda para a direita: Tiyoko Tomikawa, Eng Goan e Lourenço Mutarelli. Crédito: Divulgação.

Tiyoko Tomikawa atua com arte têxtil desde 1981 e integra o ateliê de arte têxtil das Oficinas de Criatividade desde 1986. Sua trajetória passa pela tapeçaria, pela restauração e pelo ensino da tecelagem.

Eng Goan trabalha com cerâmica, argila, vidro e outras técnicas. Professor do ateliê de cerâmica há mais de quatro décadas, construiu sua prática entre a pesquisa e a transmissão do conhecimento.

Lourenço Mutarelli é desenhista, quadrinista, escritor e professor. Sua produção atravessa diferentes linguagens e, nas Oficinas de Criatividade, o desenho também aparece como prática de aprendizagem e experimentação.

Os três percursos mostram que aprender um ofício envolve mais do que dominar procedimentos. É preciso observar, experimentar, fazer escolhas e encontrar formas de transmitir aquilo que foi construído ao longo do tempo.

A memória que se preserva

A segunda conversa amplia a discussão para os conhecimentos ligados à preservação da imagem e à comunicação. Participam José Maria Pereira Lopes, restaurador de acervos audiovisuais; Kátia Coelho, diretora de fotografia; e Sérgio Gomes, jornalista e profissional ligado à comunicação popular.

Da esquerda para a direita: José Maria Pereira Lopes, Kátia Coelho e Sérgio Gomes. Crédito: Divulgação

José Maria Pereira Lopes construiu uma trajetória ligada à conservação e restauração de filmes, programas de televisão e outros registros da memória audiovisual brasileira. Kátia Coelho iniciou sua carreira como assistente de câmera e passou a atuar na construção da luz e da imagem de filmes. Sérgio Gomes dedica-se há décadas à comunicação popular e à formação de novos profissionais.

As experiências apresentadas colocam em questão o que permanece de uma prática quando materiais, ferramentas e tecnologias mudam. Também tratam da transmissão de conhecimentos que, em muitos casos, não estão registrados em manuais, mas fazem parte da experiência acumulada de quem exerce o ofício.

Nos bastidores da cena

Entre os trabalhos que sustentam um espetáculo estão aqueles que acontecem antes de o público entrar na sala. Cenotécnica, figurino, máscaras, montagem e operação técnica fazem parte de uma cadeia de decisões que interfere diretamente na experiência de quem assiste.

É sobre esse universo que conversam Aníbal Marques (Pelé), Judite Lima e Heloisa Cardoso.

Da esquerda para a direita: Aníbal Marques (Pelé), Judite Lima e Heloisa Cardoso. Crédito: Divulgação.

Aníbal Marques, conhecido como Pelé, começou no teatro no final dos anos 1970 e passou pelo Theatro Municipal de São Paulo. Também trabalhou no cinema, na televisão e em shows. Hoje acompanha a formação de novos profissionais da cenotécnica.

Judite Lima construiu sua trajetória como costureira nos bastidores da televisão e do teatro. Seu trabalho parte dos desenhos de figurino e chega à execução das peças que vestem os artistas em cena.

Heloisa Cardoso atua no teatro desde a década de 1970 como mascareira, cenógrafa e figurinista. Sua trajetória também passa pelo ensino e pela formação de profissionais das artes cênicas.

Os trabalhos têm em comum uma relação direta com o espaço, os equipamentos, os materiais e as equipes. Cada montagem apresenta condições próprias e exige decisões que fazem parte do ofício.

Uma homenagem a Espirro

Espirro, técnico de palco, luz e som do Teatro do Sesc Pompeia por 38 anos. Crédito: Divulgação

A trajetória de Espirro, técnico de palco, luz e som do Teatro do Sesc Pompeia durante 38 anos, também integra o projeto. Seu trabalho acompanha parte da história da unidade e o cotidiano de profissionais responsáveis pela realização de peças e shows.

Produzida por Lili Antonello, a homenagem apresenta imagens, vídeos e depoimentos sobre sua trajetória e reconhece o trabalho técnico como parte da construção da cena.

A técnica que se renova

Os ofícios também mudam. Ferramentas são substituídas, materiais ganham outros usos e novas tecnologias alteram procedimentos. O conhecimento permanece quando encontra formas de se adaptar às condições de cada época.

É a partir dessa perspectiva que Alício Oliveira, Daniele Meirelles e DJ Tide compartilham suas experiências.

Cenotécnico, Alício Oliveira atua na construção de estruturas, volumes e elementos cenográficos. Sua prática estabelece uma relação entre procedimentos da cenotecnia e formas contemporâneas de construção da cena.

Da esquerda para a direita: Alício Oliveira, Daniele Meirelles e DJ Tide. Crédito: Divulgação

Daniele Meirelles traz para a conversa sua experiência profissional e as relações entre criação, produção e realização de projetos.

DJ, editor de som e produtor musical, DJ Tide trabalha com mixagem, edição e manipulação sonora em filmes, faixas musicais, festas e shows. Sua prática envolve escuta, equipamentos e processos de pós-produção.

Entre diferentes gerações e áreas de atuação, o projeto mostra que a técnica não é algo fixo. Ela se transforma conforme mudam os materiais, as ferramentas, os espaços e as próprias formas de produzir cultura.

O que se aprende fazendo

— detalhe de mãos trabalhando em um dos ateliês

Crédito: Safhira Delmondes

A experiência compartilhada pelos participantes aponta para um aspecto comum aos diferentes ofícios: parte do conhecimento nasce da prática.

Um gesto pode ser aperfeiçoado depois de anos de trabalho. Uma ferramenta pode ganhar um uso que não estava previsto. Um problema pode exigir uma solução que nenhum manual apresenta. E um conhecimento pode passar de uma pessoa para outra por meio da observação e da convivência.

É nesse espaço entre fazer e ensinar que A Parada é Técnica / Mestres & Ofícios coloca os profissionais dos bastidores no centro da conversa.

Mais do que apresentar profissões, o projeto permite conhecer os processos que sustentam a produção cultural e perceber quantas pessoas e saberes existem antes de uma obra chegar ao público.

Da esquerda para a direita: Rosana Rocha e Silva, técnica de programação do Sesc Pompeia e mediadora; Tiyoko Tomikawa, Lourenço Mutarelli e Eng Goan, participantes dos encontros realizados nos dias 1 e 2 de outubro. Crédito: Safhira Delmondes.

A transmissão de um ofício também acontece pela presença, pela observação e pela troca. A Área de Convivência, instalada em um dos antigos galpões da fábrica, preserva características da construção original e integra esse percurso como espaço de encontro entre profissionais, práticas e diferentes gerações.

É nesse espaço de troca que A Parada é Técnica / Mestres & Ofícios coloca em circulação conhecimentos construídos pela experiência.

O que faz um conhecimento continuar vivo?

A resposta está no fazer e em quem decide passar esse saber adiante.

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.