O reencontro

06/10/2026

Compartilhe:

Segredos e Mentiras começa num enterro, algo bem pertinente num filme que fala sobre viver e morrer — mais especificamente, sobre estar morto em vida, seja por solidão, desalento, fracassos ou mesmo sonhos e desejos que nunca se consumaram. E, em mesma chance, também sobreviver, ir num movimento ao encontro da vida.

É o que faz Hortense (Marianne Jean-Baptiste, numa atuação divina) após a morte de seus pais. Desde seus 7 anos sabendo ser filha adotada, agora, aos 27 anos, ela vai ao encontro de Cynthia, sua mãe que a teve aos 15 anos, mas nunca se conheceram. Oftalmologista bem colocada, esse tal “encontro com a vida” seria consigo própria, daí ir ao encontro da progenitora para assim ela, Hortense, saber mais sobre… ela própria, Hortense.

Cynthia é coalhada de problemas, sobretudo de solidão, mas não é a única. A filha dela, Roxanne, é problemática, outra aliás que não sabe quem é seu pai. E o irmão, Maurice, fotógrafo bem-sucedido, não está no seu melhor com a esposa. Estes citados geram um pequeno rol de profissões: Cynthia trabalha numa fábrica, sua filha Roxanne é varredora de ruas da prefeitura e Maurice, casado com Monica, é fotógrafo e tem uma loja. A lista diz respeito ao próprio Mike Leigh, cujos filmes mostram um estado de mundo através da vida, e esta sendo a experiência de ser e a de fazer — existir e realizar.

Mike Leigh segue aqui com seu método baseado no teatro em que cada integrante do elenco fica livre para “conhecer” seu personagem via improvisação. O que inclui o roteiro, também, que vai sendo desenhado pelas atrizes, atores e diretor. Esse processo é o de sempre: um “encontro com o personagem” e, de certo modo, o encontro do cineasta consigo mesmo. O acaso neste modo de direção não é de todo pleno e livre, claro. E, na prática, não muito diferente do ser e fazer citado acima.

Talvez pelo momento, Segredos e Mentiras tem uma energia muito próxima à dos filmes indie norte-americanos daqueles anos 1990. Exceto Hortense, todos os citados personagens atuam com uma pesada caligrafia expressiva, sobretudo facial, e, quando não irascível, numa carência agônica. Brenda Blethyn e Timothy Spall são os que esticam as duas pontas da corda: ambos sensíveis e ternos, Cynthia sempre numa intensidade desesperada e Maurice numa serenidade implosiva.

O que, em princípio, soa esquemático e uma atuação excessiva e caricata, vai revelando um processo, um andar dos acontecimentos que vai desvelando quem, de fato, são esses personagens. E as réguas mais bem aferidas são, de fato, as de Brenda Blethyn e Marianne Jean-Baptiste em cena. Ambas, cada uma ao seu modo, surpreendendo o espectador e revelando de fato quem são essas duas mulheres, como cada uma reage (e age) frente ao mundo. E um amor à primeira vista, recíproco, entre mãe e filha ambas “recém-nascidas” uma com a outra.

O fato de Hortense ser negra e Cynthia branca não é um recurso dramático com intençõesexageradas. Pelo contrário, esse primeiro encontro entre mãe e filha é um reencontro entre as duas e também cada uma delas reencontrando-se a si própria.

Segredos e Mentiras é, no mais, o filme em que Mike Leigh adota um trabalho de câmera extraordinário e revelador. O primeiro encontro das duas, numa lanchonete, uma ao lado da outra, numa sequência que dura 8 minutos, dá início a uma outra percepção que o espectador terá ao longo do filme a respeito de Cynthia, que não necessariamente vai mudando o mapa facial ao longo do filme, mas sim uma outra relação de expectação entre obra na tela e quem a vê — algo apenas possível com atrizes como Brenda Blethyn e um Mike Leigh em estado de graça, inclusive na escolha por Marianne Jean-Baptiste, na candura e força que sua Hortense mostra no rosto, no sorriso e na presença em cena.

Por fim, é importante reiterar que Hortense é a grande agente do filme, a personagem que aciona toda uma revolução de afeto, amor, reparação e, mais essencial, de vida. E, se influenciado ou não pelo cinema indie americano, um fato mais plausível e coerente é o de Mike Leigh ter encontrado a revelação através da experiência dialética do ensaio teatral.

SEGREDOS E MENTIRAS (1996), de Mike Leigh

Por Paulo Santos Lima, jornalista, crítico, curador, pesquisador e professor de cinema em atividade desde 1998, atuando em veículos como Folha de S. Paulo e Valor Econômico, além de cursos e mostras no CineSESC, SESC Consolação, SESC Belenzinho, entre outros. Membro da ABRACCINE.

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.