
A natureza e a arte estão fortemente ligadas. Desde a Pré-História, pinturas eram feitas a partir de pigmentos naturais extraídos de minerais, argila e carvão, como uma forma de registrar caçadas, rituais e memórias. Com o tempo, as cores sintéticas foram tomando espaço, mas é importante lembrar a sua origem.
Em setembro de 2026, o Sesc Guarulhos promoveu o projeto Naturalia – Conexões entre natureza e arte. Inspiradas na natureza como forma de conhecimento e expressão, as pessoas foram convidadas a explorar formas, cores, texturas, sons e dinâmicas dos ambientes naturais e a reinterpretá-los por meio de diferentes linguagens artísticas.
Durante o mês, foram propostas algumas oficinas e vivências como: A história da Arte Botânica e Ateliê de Botânica, com Anderson Santos, da Escola de Botânica, onde apresentou tipos de estilos, gravuristas e ilustradores e Tramoianas: arte e ambientalismo em diálogo, com Maíra Vaz Valente, propondo uma diversidade de tipos de tecidos descartados da indústria têxtil para então se tornarem matéria-prima para criação de objetos tridimensionais a partir das tramas e das amarrações, além do curso Narrativas Verdes Bordadas, ministrado por Monica Fontes, Agente de Educação Ambiental e Isabelle Bianchi, Educadora de Tecnologias e Artes.
Realizado de 3 a 24 de setembro, o curso convidou as participantes a traduzirem suas memórias, territórios e preocupações ambientais em arte. Reutilizando tecidos e linhas, o grupo se inspirou nas arpilleras, tradição chilena de bordados sobre juta ou linho nascida para expressar o cotidiano e manifestar denúncias políticas.
Partindo da premissa do aproveitamento de materiais para transmitir uma mensagem, Isabelle e Monica utilizaram itens já disponíveis no Espaço de Tecnologias e Artes: restos de tecidos, linhas, fitas, entre outros materiais. A intenção era conscientizar quanto ao uso de resíduos têxteis, já que, apenas no Brasil, cerca de 4 milhões de toneladas de tecidos são descartadas por ano, segundo pesquisa realizada pela consultoria internacional S2F Partners e divulgada pela Universidade de São Paulo (USP).
O que começou como um curso de costura para um grupo de mulheres tornou-se um ponto de encontro semanal sobre arte e transformação. Todas as quintas-feiras, elas mergulharam no universo do artivismo, inspiradas por obras de nomes marcantes como Mundano e Uýra Sodoma. Ali, perceberam que os bordados poderiam ir além da beleza estética, trazendo mensagens e ideias.
Leny Shizuka, aposentada de 73 anos, destaca a experiência e o impacto do aprendizado: “Eu não conhecia essa técnica de arpilleras […]. Dentre todas as ideias que pensamos, traduzir isso em um bordado foi o maior desafio.” A partir dessa proposta, Leny encontrou uma forma de manifestar sua visão crítica sobre a dinâmica urbana de Guarulhos. “Pensei em temas como a poluição sonora, a situação dos parques naturais e as invasões de terras motivadas por empreendedorismo e política. Fiquei muito satisfeita com o resultado e pretendo dar continuidade ao aprendizado”, afirma.









Durante a criação das peças, as ministrantes do curso perceberam a formação de um forte vínculo entre elas, consolidando um espaço seguro de troca, diálogo e criação coletiva. Para Leny, uma iniciativa como essa é essencial para se manter ativa: “Ter uma atividade na terceira idade é fundamental. Mas quando essas atividades trazem um grau de conscientização, como este trabalho, eu acho que estamos na vida para isso: por nós e pelos outros. Pensar no coletivo é extremamente fundamental… é o que faz a vida valer a pena. Quero que o Sesc faça parte da minha vida até o fim.”
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