
Leia a edição de novembro de 2026 na íntegra
Em 1991, saí de Marília para trabalhar no Sesc. Trinta e cinco anos depois, retorno à cidade onde cresci para participar da inauguração do Sesc Marília.
Pensando nisso, comecei a me lembrar da minha infância: muito do que vivi quando criança tem relação com aquilo que o Sesc realiza hoje. Não porque existisse um Sesc perto de mim naquela época. Mas porque encontrei essas experiências espalhadas pela escola, pela comunidade, pelos amigos e pelos espaços onde cresci.
No ensino fundamental, uma professora pediu que eu copiasse a ilustração da capa de um livro para a cartolina. Dias depois, vi meu desenho transformado em cartaz no pátio da escola. Como ela sabia que eu desenhava? Naquele mesmo pátio, havia um pequeno palco. Em uma apresentação, eu fazia o papel do morto. Comecei a rir durante a cena e a plateia inteira caiu na gargalhada junto. Naquele palco, também transformamos uma caixa de papelão em teatro de mamulengo. Cabeças de isopor e pedaços de tecido ganharam vida.
Nesses mesmos anos, eu frequentava o templo budista Honpa Hongwanji. Havia uma coleção de mangás em que eu “lia” sem saber exatamente como. Participei de danças, festivais e apresentações. No templo, havia atividades para crianças, jovens, adultos e idosos. A convivência era respeitosa e as tarefas se complementavam. Cresci aprendendo com pessoas de diferentes gerações e achando isso algo natural.
Também frequentei a escola japonesa. Foi lá que aprendi a usar giz pastel. Em uma competição regional, fiz três desenhos. O que eu considerava o pior deles recebeu uma fita vermelha de terceiro lugar.
Pratiquei beisebol durante alguns anos. Viajei por toda a Alta Paulista. Muitas vezes, a viagem era tão importante quanto o destino. A primeira vez que fui ao Bosque de Garça, foi em um desses passeios.
Lembro-me também dos banhos. O ofurô de casa era aquecido a lenha em um latão de óleo. A primeira vez que entrei em uma piscina foi na pré-escola. Já no lago do Country Clube, nadei muitas vezes. Eram domingos de duas ou três famílias reunidas para churrascos debaixo das árvores.
Comecei a trabalhar aos quatorze anos. Parei de frequentar o templo, de jogar beisebol e de estudar na escola japonesa. Mas não me afastei da arte. Aprendi que é possível fazer parte da experiência artística de muitas formas: criando, apoiando, aprendendo ou simplesmente assistindo. Talvez por isso eu tenha me identificado tão rapidamente com o trabalho do Sesc, onde a arte também é vivida tanto por quem faz quanto por quem aprecia.
Ao escrever sobre minha infância, percebo que grande parte dela passou pela arte, pelo esporte, pela convivência, pela cultura e pela curiosidade. Tudo isso esteve presente nos lugares que frequentei e nas pessoas que encontrei.
Hoje encontro essas mesmas possibilidades reunidas em um único lugar: o Sesc. Um espaço onde arte, cultura, esporte, convivência, educação e descoberta se encontram e se renovam todos os dias.
Talvez por isso eu tenha a sensação de estar voltando para casa duas vezes. Volto para Marília. E volto também para muitas das experiências que ajudaram a formar quem eu sou. Foi assim que muitas das minhas histórias começaram. Talvez seja assim que novas histórias comecem também.
Hideki Yoshimoto é graduado em Ciências Sociais pela Unesp de Marília. Funcionário do Sesc desde 1991, é gerente do Sesc Marília.
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