A vida ínfima

29/10/2026

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POR ODORICO LEAL
ILUSTRAÇÕES TÚLIO CERQUIZE

Cachorro. Férias em Fortaleza, Aldeota, 8:45. Abro a porta da casa dos meus pais, um homem de seus cinquenta anos arrasta pela coleira um vira-lata chamado Alfie. Na esquina de casa, Alfie recebe o chamado e se alivia. De saída, eu paro e observo. Os bons modos, a boa vizinhança, a civilização – tudo agora depende do humano. O cão não tem nada a ver com isso. Mas reparo: o homem de cinquenta anos não traz saco plástico. São escolhas que fazemos. Se queremos a alegria e a lealdade de um cãozinho, precisamos recolher o cocô da calçada. O humano, Alfie e eu nos entreolhamos. O humano hesita, mas Alfie quer seguir caminho, no júbilo das desvinculações éticas. É quando o humano começa a se afastar. Dobra a esquina. Eu sigo o par de bestas e dobro a esquina também. Antes que saiam do perímetro da casa, eu digo: “Senhor?”. No mesmo instante o homem se vira e grita: “Esse cachorro é da minha esposa!”. A confissão não faz sentido, é abrupta e patética. O que ele quer dizer é que não escolheu aquela vida. Que está ali desmoralizado. Olho aquele homem de seus cinquenta anos e sinto uma irresistível, profunda e triste empatia. Pelo cão.

O inquilino. Abro o aplicativo do banco: alguém andou vivendo uma vida às minhas custas. Mas uma vida modesta. Pagou uma prestação da Faculdade Estácio, no Rio de Janeiro. Pôs quarenta reais de crédito no celular. Comprou qualquer coisa em certa LC Refrigerações — um ventilador, talvez, para o verão. Necessidades imediatas. Brasileiras. Telefono ao banco e bloqueio o cartão. O meu clone seguirá sozinho. Talvez conclua ou não o curso na Estácio. No telefone, o atendente me recita as contas na fatura e pergunta se contesto essa ou aquela. Minha vontade é contestar tudo. Custa crer que gasto tanto com iFood. Há uma noite num tal bar Caracol. Contesto! Mas lembro e logo me retrato: foi o aniversário de Clara. “Ok”, o atendente me concede, aborrecido. Ao fim, faço as mesmas perguntas mil vezes. Confundo estorno com estorvo. O atendente — Leonardo — se impacienta. “Senhor, compras presenciais. O senhor pode fazer compras pre-sen-ci-ais.” Por que tão duro, Leonardo? Não quero desligar. As respostas respondem, mas não saciam. Mas tenho que desligar. Tudo bem, digo. Tchau. Desligo o telefone e abandono para sempre esse momento em que três vidas — a minha, a do estudante da Estácio e a do valente Leonardo — se entrelaçaram.

A inquilina. Ainda na casa dos meus pais em Fortaleza. A construção no terreno baldio vizinho — antes uma modesta casa de muro baixo e mosaico na fachada — finalmente começou. E chove. Talvez por isso, quando vou pôr o lixo para fora, me deparo — pela primeira vez aqui — com uma cobra, deslizando apressadinha pelo terraço de azulejo branco. Um bicho horrendo. Como mecanismo de defesa, tremo. Tento espantá-la à distância com uma vassoura e estranhas emissões vocais, um Siegfried franzino e bronzeado. Olheiros dos prédios vizinhos acompanham tudo. Alguém grita: “É cobra?” Eu digo: “SIM!”. “Liga pros bombeiros.” Abandono meu posto e vou telefonar. Prometem vir. Nisso a cobra se mete pela garagem escura. Fica impossível a Siegfried persegui-la. Não por medo, mas previdência. A cobra tem uma posição vantajosa. Os bombeiros chegam. São os bombeiros mesmo: com caminhão vermelho e tudo. Três homens feitos descem, e eu me sinto imediatamente humilhado. Digo: “Puxa, fico até com vergonha de mobilizar tantos recursos, é só uma cobra”, embora eu saiba que não é uma cobra qualquer, mas uma serpente horrenda e ancestral. Mostro a foto: “Cobra-cipó”, eles dizem. “Com certeza venenosíssima”, acrescento. “Nada. A mais inofensiva das cobras.” O líder dos bombeiros é de uma educação exemplar, pede licença pra tudo e me explica as características da minha inquilina: “Ligeira. Sobe paredes. Trepa em árvore. Deve estar em busca de alimento.” Engulo a seco: Que tipo de alimento?, penso comigo. A busca é inútil: a cipó sumiu. Por ora. Os bombeiros se vão e dizem que, precisando, é só ligar. Eu agradeço, e é isso: fico em casa com uma criatura reptiliana à solta que sabe que eu chamei as autoridades.

O autor compra os próprios livros. Precisando enviar Nostalgias Canibais a alguns contatos, tive de comprar meu próprio livro (esgotei a cota da editora). Escolhi a Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista, pois ouvi relatos de cópias encalhadas por lá. Na gôndola central, folheio A Vegetariana, que não li. Me intriga. Mas largo. Não vim gastar dinheiro ao léu. O propósito é claro: comprar meu próprio livro. Mas sofro sucessivos assédios. Tédio Terminal, de uma tal de Izumi Suzuki, um nome quase exageradamente japonês, me balança. Não compro. O propósito. Na seção de literatura brasileira, encontro duas cópias à vista de Nostalgias. Pego as duas e planejo uma fuga rápida. Enquanto espero na fila, vejo Carlos, com quem cursei anos atrás uma disciplina na USP. A última coisa que quero é ser flagrado comprando meu próprio livro. Talvez Carlos não se lembre de mim. Tanto tempo passou. Além disso, cumprimentar um conhecido de anos atrás é a deselegância suprema. Carlos não faria isso. A vida nos alforriou um do outro, não devo nada a ele, nem ele a mim, nem devemos nada conjuntamente a uma amizade circunstancial que não prosperou. Mas tão logo gira e me enquadra em seu campo de visão o desgraçado abre um sorriso. Odorico!, ele diz alto e bom som, chamando a atenção de toda a livraria para o fato de que alguém ali, contra todas as probabilidades e tendências onomásticas dos últimos 100 anos, se chama Odorico. Capto o espanto no olhar da atendente. Penso nos grandes avistados da literatura. Stetson, na “Terra Devastada”. O Esteves sem metafísica, em “Tabacaria”. Enquanto Carlos se aproxima, elaboro uma teoria do avistado, como detesto o papel do avistado e como a interpelação é uma brutalidade. A fila anda, é a minha vez de ser atendido. Carlos só quer saber duas coisas: como estou e que livros são esses. Ponho os livros sobre a bancada, a atendente confere título e autor, Carlos confere título e autor, e por um breve momento ficamos ali os três em silêncio, perplexos com o fato de que, numa tarde furtiva de domingo, nem de sol, nem de chuva, o próprio autor comprava o próprio livro. Na saída, Carlos e eu nos abraçamos e prometemos retomar a velha amizade.

Odorico Leal nasceu em Picos, Piauí, em 1983. Atua como professor de escrita criativa e tradutor, tendo vertido para o português obras de Hisham Matar, Toni Morrison e Joseph Brodsky. Estreou como ficcionista com Nostalgias Canibais (Âyiné, 2024), vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) na categoria livro de contos em 2025. Sonhos da Pessoa Física (Todavia, 2026) é seu livro mais recente, também de contos. Escreve crônicas mensalmente na revista Quatro Cinco Um.

Túlio Cerquize é um premiado designer e ilustrador formado em Comunicação Visual pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Atua no mercado há 15 anos como capista para diversas editoras de vários segmentos, além de manter uma forte relação com a produção de arte e jogos independentes. Acredita que a arte e o design podem ser ferramentas poderosas de expressão e transformação social.

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