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No mundo da hiperconexão, como manter uma relação saudável com as telas? Tecnologias quase onipresentes na rotina de muitos brasileiros, seja no trabalho ou nos momentos de lazer, os dispositivos móveis com acesso à internet, as redes sociais e as novas plataformas de serviços rearranjaram as relações sociais e culturais e alteraram muito do universo íntimo de cada indivíduo.
Para dar a dimensão de apenas um dos impactos negativos dessa alta exposição, em abril de 2026 o relatório World Happiness Report apontou que 12% dos adolescentes latino-americanos passam ao menos sete horas diárias nas redes socias. Além disso, o estudo apurou que acessar essas redes por mais de cinco horas por dia dobra a chance de um jovem desenvolver quadros de depressão.
Há ainda os profissionais que dependem das plataformas virtuais para obtenção de renda, e precisam estar online durante a maior parte do tempo, para garantir sua sobrevivência: entregadores de aplicativos de delivery, criadores de conteúdo, engenheiros de dados, entre muitas outras ocupações.
Por tudo isso, o debate sobre o potencial nocivo do uso excessivo de telas exige um esforço coletivo, como afirma Marcio Farias, professor do Departamento de Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Os limites individuais são importantes, mas insuficientes diante de problemas estruturalmente produzidos. Uma discussão consequente sobre saúde mental e telas precisa alcançar também o direito à desco- nexão, as condições contemporâneas de trabalho, a regulação e a responsabilização das plataformas, a proteção de dados e as desigualdades que determinam quem pode efetivamente escolher quando e como permanecer conectado”.
Quando se trata de proteção às crianças e adolescentes, é importante levar o assunto também para dentro de casa, na opinião da Diretora de Projetos Especiais da SaferNet Brasil, Juliana Cunha. “Na realidade brasileira, marcada por desigualdades profundas e por muitos lares monoparentais, frequentemente chefiados por mães que acumulam jornadas e vivem exaustas, a resposta precisa caber na vida real, e não num ideal que muitas vezes carrega um viés de classe. O mais importante não é dominar aplicativos ou ser especialista em tecnologia. É ter interesse genuíno: perguntar o que assistem, o que acham divertido, o que os incomoda. Cinco minutos de conversa sem julgamento valem mais do que horas de monitoramento”.
Neste Em Pauta, Farias e Juliana abordam diferentes aspectos da questão em seus artigos, alertando para um problema cada vez mais atual e apontando caminhos possíveis para repensar nosso vínculo com as telas.
Quem pode se desconectar? Raça, classe e saúde mental na vida digital
Por Marcio Farias
Minha aproximação com esse debate ocorre a partir dos diferentes lugares profissionais que ocupo, embora eu não seja um pesquisador diretamente dedicado às tecnologias digitais. Como profissional da saúde mental, professor universitário e supervisor atuante na interface entre políticas públicas, assistência social, cultura e saúde coletiva, tenho sido frequentemente convocado a refletir sobre aquilo que se convencionou chamar de uso excessivo ou abusivo das telas. Ansiedade, alterações no sono, dificuldade de concentração, sensação de esgotamento, comparação permanente e necessidade de estar disponível aparecem cada vez mais associadas a esse cotidiano hiperconectado.
Há, evidentemente, uma dimensão comportamental nessa discussão. Estabelecer limites, preservar períodos de descanso, reduzir notificações e reconhecer quando determinada forma de uso produz sofrimento são medidas importantes. A densidade do debate público, tanto nacional como internacional, acerca da assim chamada “economia da atenção” e seus efeitos sobre a subjetividade, no entanto, indica que estamos diante de um fenômeno social cujos impactos sobre a cultura podem redesenhar a maneira pela qual interagimos com o mundo e forjamos a nossa subjetividade.
Nesses termos, a convocação permanente para permanecermos conectados exige uma compreensão do adoecimento que vá além da dificuldade individual de desligar o celular. É necessário perguntar quanto tempo permanecemos diante das telas, o que fazemos nelas, em que condições permanecemos conectados e quem se beneficia dessa permanência. As plataformas que ocupam parte tão significativa de nossas vidas, como indica a ampla bibliografia sobre o tema, são estruturas privadas, organizadas segundo interesses econômicos, cujo funcionamento depende em grande medida de nossa permanência, de nossa atenção e dos dados produzidos por nossas interações. Aquilo que experimentamos subjetivamente como dificuldade de nos desconectar, portanto, deve ser refletido a partir da compreensão de que essas tecnologias são modelos de negócio concebidos precisamente para prolongar nossa conexão.
A expansão das tecnologias digitais inclui, ainda, outros determinantes sociais que precisam ser refletidos. Produzidas em sociedades atravessadas por desigualdades, essas tecnologias também carregam tais relações para o ambiente digital. É justamente a suposta neutralidade tecnológica que o pesquisador Tarcízio Silva, em suas várias publicações, coloca em questão ao discutir o racismo algorítmico, mostrando como sistemas automatizados podem reproduzir e atualizar desigualdades raciais existentes na sociedade. Isso ocorre porque os algoritmos são desenvolvidos a partir de escolhas humanas, alimentados por dados produzidos em contextos historicamente desiguais e empregados por instituições também atravessadas por essas relações. Assim, bases de dados que carregam distorções e padrões discriminatórios podem fazer com que sistemas de reconhecimento facial, mecanismos de busca, plataformas digitais e ferramentas automatizadas de classificação reproduzam associações e tratamentos desiguais.
Essas reflexões interessam diretamente ao debate sobre saúde mental porque somos afetados pela quantidade de estímulos que recebemos e, também, pelo mundo que as telas nos devolvem: pelas representações que encontramos, pelos padrões de beleza, felicidade, consumo e sucesso que se apresentam como desejáveis, pelas formas de reconhecimento que buscamos e pelas violências às quais somos expostos. Para pessoas negras, mulheres e outros grupos historicamente subalternizados, a experiência da hiperconexão pode envolver, além da sobrecarga comum ao ambiente digital, o contato reiterado com racismo, estereótipos, discursos de ódio e formas específicas de desumanização.
Essa desigualdade também aparece quando pensamos nas possibilidades concretas de desconexão. Desligar o celular pode ser uma escolha relativamente simples para quem possui autonomia sobre seu tempo de trabalho, redes presenciais de apoio, acesso ao lazer e condições materiais que permitem separar trabalho, descanso e vida privada. A equação é bastante diferente para trabalhadores submetidos à disponibilidade permanente, pessoas que dependem das plataformas para obter renda ou sujeitos para quem o ambiente digital constitui um espaço importante de sociabilidade, informação, produção cultural ou pertencimento. As possibilidades de desconexão, portanto, também são desiguais.
Os limites individuais são importantes, mas insuficientes diante de problemas estruturalmente produzidos. Uma discussão consequente sobre saúde mental e telas precisa alcançar também o direito à desconexão, as condições contemporâneas de trabalho, a regulação e a responsabilização das plataformas, a proteção de dados e as desigualdades que determinam quem pode efetivamente escolher quando e como permanecer conectado.
Ao mesmo tempo, responder às contradições desse cenário com uma espécie de ludismo 4.0 parece pouco produtivo. As tecnologias possibilitam encontros, circulação de conhecimentos, produção cultural, organização política, redes de solidariedade e formas de pertencimento que seriam impossíveis ou muito mais difíceis fora delas. Para populações historicamente invisibilizadas pelos meios tradicionais, inclusive, o ambiente digital abriu possibilidades importantes de produzir a própria narrativa, construir comunidades e encontrar referências.
Essa ambivalência exige uma posição crítica diante das tecnologias, capaz de reconhecer suas possibilidades sem ignorar seus efeitos sobre a vida social. Trata-se de construir relações nas quais a tecnologia permaneça como instrumento sem se converter silenciosamente em organizadora absoluta do nosso tempo, de nossos afetos, de nossa atenção e até de nossa percepção sobre nós mesmos.
Medidas como a instituição do ECA Digital contribuem para garantir direitos e orientar os cuidados de pais, educadores e responsáveis. Essa discussão precisa estar integrada a outras pautas da sociedade. O fim da escala 6×1, a ampliação e a melhoria das vagas em creches, as políticas de habitação e de acesso à terra, o transporte público gratuito e de qualidade, o acesso a espaços culturais e de lazer, a infraestrutura de parques e praças públicas e a presença da diversidade e da inclusão nos currículos escolares e universitários também dizem respeito às condições em que vivemos, convivemos e cuidamos da saúde mental. A possibilidade de reduzir o tempo diante das telas depende, em parte, de haver tempo, moradia, mobilidade, espaços públicos e condições concretas para viver outras experiências.
Marcio Farias é professor da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Para além do tempo: o que sabemos sobre o impacto das telas na saúde mental de jovens
Por Juliana Cunha
Toda família brasileira que cuida de crianças e adolescentes vive na pele os dilemas do mundo hiperconectado. É pelas telas que os jovens estudam, fazem amigos, se divertem e descobrem quem são, e tirar o celular pode significar excluí-los da conversa da turma. Ao mesmo tempo, os adultos veem noites mal dormidas, irritação quando o aparelho sai da mão, comparações com vidas editadas e humilhações que não terminam quando toca o sinal da escola. Entre o medo de proibir e o de permitir, fica a pergunta: o que a ciência nos ensina?
As revisões mais cuidadosas, incluindo as da Associação Americana de Psicologia, indicam que redes sociais e telas não são, por si sós, benéficas nem prejudiciais. Os riscos estão bem documentados: sono fragmentado, ciberbullying, exposição à violência e a conteúdos que idealizam corpos ou comportamentos nocivos, comparação social constante e contato com adultos mal-intencionados. Os benefícios também são reais: pertencimento, informação, criatividade e apoio entre pares, sobretudo para quem se sente isolado fora da tela. Os grandes estudos encontram, em geral, associações pequenas ou moderadas entre uso de telas e sofrimento psíquico, com enorme variação entre indivíduos. E associação não é causa. Um adolescente pode passar mais tempo no celular porque já está deprimido, e não o contrário. Muitas vezes, as duas coisas se retroalimentam.
Isso não minimiza o problema. Mostra que o efeito depende de quem usa, de como usa e das circunstâncias, porque saúde mental é um fenômeno multifatorial. Genética, histórico de vida, vínculos, condições econômicas, violência no território, discriminação, sono e acesso a cuidado pesam juntos. A tela entra nessa equação como amplificadora: pode aprofundar vulnerabilidades ou funcionar como proteção. Adolescentes que vivem solidão, conflitos familiares ou discriminação por raça, gênero, orientação sexual ou corpo tendem a ser mais afetados pelos riscos online, e também a buscar ali o acolhimento que não encontram em outro lugar. Segundo o Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), cerca de quatro em cada dez adolescentes de 13 e 14 anos recorrem à internet para lidar com questões de saúde.
Por isso, a pediatria e a pesquisa internacionais vêm propondo uma virada: sair da contagem de minutos e olhar para a qualidade do uso. Importa quem é aquela criança, o que ela assiste, com quem e onde. Importa, sobretudo, o que a tela está deslocando: o sono, o brincar, a convivência, o estudo.
Um vídeo assistido junto, na sala, pode virar conversa e conexão. O mesmo vídeo, em formato curto, consumido a sós no quarto à noite, favorece o isolamento e rouba o sono. O que pesa não é apenas o tamanho da tela, mas o desenho do produto. Pesquisas recentes associam o consumo intenso de vídeos curtos a dificuldades de atenção e de controle de impulsos, além de mais estresse e ansiedade. Rolagem infinita, reprodução automática e recomendação algorítmica tornam difícil parar, algo que um filme, com começo, meio e fim, não faz.
Como, então, onerar menos as famílias e fazer com que a indústria também assuma princípios de qualidade em seus produtos? Já há iniciativas de empresas que buscam levar princípios de qualidade para dentro de seus sistemas de recomendação, por exemplo. Entre os sinais de baixa qualidade estão padrões corporais estreitos, atos perigosos, humilhação e ódio, glamourização da riqueza fácil e comportamento agressivo. Conteúdos assim podem ser questionáveis isoladamente, mas problemáticos em série. Por isso, plataformas podem limitar sua recomendação repetida para adolescentes. Já os conteúdos de alta qualidade funcionam como fator de proteção: trazem alegria e conexão, despertam curiosidade, aprofundam interesses com informação confiável e ensinam habilidades para a vida. Critérios assim deveriam ser públicos, auditáveis e adotados por todas as plataformas. Boas práticas voluntárias, porém, não substituem regulação.
É aí que o ECA Digital (Lei 15.211/2025) inova: desloca parte do peso das costas das famílias para quem projeta os serviços e lucra com eles. A lei exige que produtos digitais acessíveis a crianças e adolescentes considerem seu melhor interesse desde a concepção, com configurações protetivas por padrão e verificação de idade mais confiável do que a autodeclaração. Também veda caixas de recompensa em jogos e prevê ferramentas de supervisão parental, como configurar a privacidade, restringir compras e acessar métricas de uso. Nas redes sociais, contas de menores de 16 anos devem ser vinculadas a um responsável.
Diante de um ecossistema digital tão vasto e intimidador, qual deve ser o papel da família? Na realidade brasileira, marcada por desigualdades profundas e por muitos lares monoparentais, frequentemente chefiados por mães que acumulam jornadas e vivem exaustas, a resposta precisa caber na vida real, e não num ideal que muitas vezes carrega um viés de classe. O mais importante não é dominar aplicativos ou ser especialista em tecnologia. É ter interesse genuíno: perguntar ao que assistem, o que acham divertido, o que os incomoda. Cinco minutos de conversa sem julgamento valem mais do que horas de monitoramento.
Vale também distinguir controle parental de mediação parental. Controle é o uso de ferramentas para filtrar conteúdos, limitar o tempo e bloquear contatos. Mediação é mais ampla: conversar, assistir junto, explicar riscos e construir acordos. As ferramentas ajudam, mas não substituem o vínculo. A supervisão também muda com a idade. Com crianças, o adulto escolhe e acompanha. Com adolescentes mais novos, configura e negocia junto. Com os mais velhos, orienta e confia mais, mantendo a porta aberta. Acordos claros, momentos livres de tela para todos, adultos inclusive, controles usados de forma transparente, a rede de apoio, a escola e canais como o Canal de Ajuda da SaferNet já são muita proteção.
A autonomia progressiva na internet se aprende na prática, com apoio. Quando crianças e adolescentes percebem que as regras de casa nascem do cuidado, e não do controle, é muito mais provável que procurem a família diante de qualquer incômodo online. Unindo a presença ativa e empática das famílias, a responsabilidade da indústria por conteúdos e algoritmos mais seguros e a proteção de leis como o ECA Digital, podemos construir um cotidiano hiperconectado em que a tela seja aliada da saúde mental, e não sua ruína.
Juliana Cunha é psicóloga, mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), e Diretora de Projetos Especiais da SaferNet Brasil, onde responde pelo Canal Nacional de Ajuda. Integrou o grupo de trabalho de elaboração do guia para uso saudável de telas por crianças e adolescentes e o grupo de especialistas em violências contra as escolas. É membro do grupo de especialistas da pesquisa TIC Kids Online Brasil (Cetic.br/NIC.br).
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