
Como a paixão pelas letras e as experiências no mercado editorial levaram à criação da revista Quatro Cinco Um e d’A Feira do Livro
Leia a edição de novembro de 2026 na íntegra
POR ELMO SELLITTI RANGEL
Em Fahrenheit 451, romance escrito por Ray Bradbury (1920-2012), somos transportados a um futuro distópico, com uma sociedade anti-intelectual, na qual livros são proibidos. Se alguém é encontrado em posse de alguma obra literária, é punido, e o livro é queimado. O título da obra faz referência, justamente, à temperatura de combustão do papel.
É a partir dessa imagem que surgiu o nome da revista Quatro Cinco Um, criada pelo editor e jornalista Paulo Werneck como uma espécie de ato de resistência contra a obsolescência dos livros. Prestes a completar dez anos, o projeto hoje tem perfil multiplataforma e estende-se até A Feira do Livro, evento realizado anualmente na Praça Charles Miller, na capital paulista, com bate- -papos, lançamentos, sessões de autógrafos e venda de livros.
Todas essas iniciativas partem da íntima relação de Paulo Werneck com as letras. Filho da professora de antropologia Marisa Werneck e do jornalista cultural Humberto Werneck, cresceu em uma casa de leitores. As conversas e rotinas nesse ambiente familiar o influenciaram a escolher a profissão de editor literário, o que o levou, posteriormente, a outras empreitadas no setor. Neste Encontros, ele fala dessa trajetória e de questões do mercado editorial.
CARREIRA EDITORIAL
Com 21 anos, fui trabalhar na [editora] Cosac Naify. Eu era assistente do Charles Cosac. Trabalhava fazendo um pouco de tudo. Cartas, releases e editava alguma coisa, de modo ainda muito inicial. Fiquei menos de um ano, e depois passei seis anos na Companhia das Letras, onde cheguei a editor-assistente e me tornei tradutor. Depois, voltei para a Cosac por mais cinco anos. Então, foi muito tempo desse lado do balcão. Sou dessa escola da Companhia das Letras, em que o editor atua em todas as etapas: na contratação, no trato com o autor, na edição do texto e depois ainda tem que ser um cara antenado com o jornalismo, a comunicação.
JORNALISMO CULTURAL
Depois da Cosac, fui trabalhar na Folha de S. Paulo. E saí do meu ofício de escolha, de editor de livros. Acabei virando jornalista para criar a Ilustríssima [caderno de jornalismo cultural lançado em 2010]. O Otavio Frias Filho (1957-2018), que me convidou, e o Sergio Dávila queriam trazer a cultura de edição de livro para dentro do jornal. A Ilustríssima era o único espaço em que cabiam textos enormes. Ao contrário do que estava acontecendo no jornal, de reduzir todos os textos, no caderno a gente chegou a publicar um texto de cinco páginas. E aí eu percebi que, desse outro lado do balcão, o espaço era muito reduzido para livros. Na Ilustríssima, eu tinha sete livros para dar naquele espaço. Então, notei essa superprodução de um lado, de se publicar mais livros do que somos capazes de vender, e, do outro lado, um funil superapertado.
QUATRO CINCO UM
Fiquei três anos na Folha e fui para a Flip [Festa Literária Internacional de Paraty], onde o funil era ainda mais apertado, porque lá eu tinha quarenta autores por ano para chamar. E a gente estava vivendo o auge daquela ideologia do fim do livro. Diziam “ah, vai acabar o livro” e “isso é obsoleto”. Mas eu observei que os leitores continuavam aí. O livro não foi destruído pelo digital. O comércio de livros, aí sim, você pode falar que teve uma mudança. Percebi que tinha espaço para fazer o que se chama de book review. O nome é meio nariz empinado, mas na verdade é um tipo de publicação, a revista de resenhas, igual a The New York Review of Books, a Paris Review. E tem um formato característico, grande, e é só resenha, resenha, resenha, uma atrás da outra.

BASTIDORES
Hoje temos contato muito aprofundado com as editoras, elas nos procuram muito. Mas isso é um perigo também. É natural que as editoras maiores tenham assessorias de imprensa mais estruturadas, profissionais excelentes, que conseguem tudo para você, como o livro antecipado ou entrevista com o escritor. Você acaba tendo um risco de publicar mais matérias sobre esses livros e não sobre aquele que é pequenininho, artesanal, maravilhoso, mas nem tem o seu contato. A gente tenta trabalhar nas duas pontas: com as assessorias e fazendo o que eu chamo de jornalismo investigativo. A gente olha as pré-vendas e descobre que vai sair um livro incrível. Ir em livraria é muito importante, acho que tem muito jornalista de livros que não vai. É obrigação você saber o que está saindo, conversar com os editores, perguntar do que eles estão gostando, o que estão lançando.
OCUPAR ESPAÇOS
São Paulo carecia de um festival literário de rua. Era um desejo, até porque eu tinha trabalhado na Flip e fiquei picado por esse bicho. Acho que a gente tem uma oferta cultural tão incrível e não tinha um festival desse modelo. Em 2021, surge um convite do pessoal do Pacaembu, para o Álvaro Razuk, que é o meu sócio n’A Feira. Era pandemia, e a gente disse: “Quando passar, a gente faz, só que a gente quer fazer na rua”. Criamos A Feira em 2022. Foi uma espécie de mutirão. Teve a adesão dos editores, foi muito legal a resposta. E os escritores, instituições e embaixadas aderiram também. Acho que isso vem de ser sem fins lucrativos, é uma filosofia e a sociedade entende a intenção. É difícil, porque festival literário, qualquer um, acontece num lugar que tem perrengue. O Pacaembu, embora seja um lugar muito privilegiado da cidade, é um espaço em disputa. Aquele estacionamento é um uso muito pobre do espaço público. Uma área daquele tamanho, destinada basicamente a estacionar carros e à feira livre. Essa disputa pelo espaço público implica você fazer política, negociar e compartilhar o espaço.
MULTIPLATAFORMA
No começo, eu não queria site. A gente teve discussões, porque eu estava querendo muito afirmar o negócio do papel. Acho que era uma miopia da minha parte. Hoje o site é fundamental, porque multiplica a nossa audiência. O grande negócio do digital é que a distribuição não só é mais barata e rápida, mas também tem um público teoricamente infinito, então, você faz muitas pessoas felizes, democratiza de fato. A grande questão é que depende muito de como você enxerga. Se você enxerga que as plataformas são só um caminho para chegar na sua publicação, é uma coisa. Se você acredita que a pessoa já está no seu projeto só de estar no seu perfil do Instagram, é outra coisa. Eu acredito nesse segundo lado. Acho que cada plataforma fornece uma dimensão de experiência cultural. Quando o público está na rede, se o meu perfil é bom, traz informação, não preciso que ele necessariamente clique para entrar no site. Eu não quero criar um projeto exclusivista. Eu acho que é poroso. A gente tem que abrir muitas portas para o leitor. Nesse sentido, minha audiência é um pouco a somatória de todas as plataformas. Claro que tem uma sobreposição. Tem gente que lê a revista e ouve o podcast, mas tem gente que não. Gosto muito mais de pensar que em toda plataforma a pessoa está na revista.
DESCONTOS
É um problemaço. Eu acho, sim, que os descontos criam uma cultura ruim para o mercado do livro. Acaba tendo um efeito parecido com o da meia-entrada. Os editores acabam elevando os preços para conceder descontos. É uma disfunção geral do mercado e desconto todo mundo pratica de alguma forma. A gente acaba deseducando o leitor, dando a ideia de que é possível dar 50% de desconto, e isso não acontece em nenhum mercado que eu conheça. Ninguém dá 50% em um carro. Nem o pão você consegue comprar com 50% de desconto. É uma ilusão que a gente dá para o leitor. E a gente também dá a entender que o livreiro é um mercenário. Mas essa situação dos descontos só vai ser resolvida pela legislação mesmo. Eu acho que a Lei Cortez [Projeto de Lei do Senado n° 49, de 2015, que estipula precificação única definida pela editora por prazo de um ano, punindo aplicação de descontos concedidos dentro desse prazo] é contraintuitiva, e acho que a população vai rejeitar. Se perguntarem “você é a favor ou contra desconto no livro?”, o que você responde?

MARCO REGULATÓRIO
O mercado do livro tem muitos outros problemas. As licitações, por exemplo. As vendas públicas são um problema gravíssimo hoje. Você tem um monte de picareta criando editora só para fazer livro para ganhar licitação. Tem problema de insumos do papel, de logística. Então, o que eu tenho defendido é que a gente tenha um marco civil do livro, para usar a analogia ali do Marco Civil da Internet [Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014]. Precisa ter um marco regulatório. Todos os mercados relevantes têm. Passou recentemente o dos seguros. O leite é regulado, a gasolina é regulada, o pão é regulado. Por que o livro não seria? A gente tem que lutar por uma regulação que inclua o problema do preço. Daria para colocar a proibição do desconto, como propõe a Lei Cortez, dentro de um arcabouço mais amplo e que cobriria de forma mais eficaz os problemas todos do mercado do livro.
O editor e jornalista Paulo Werneck esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 25 de setembro. A mediação do bate-papo foi de Francis Manzoni, doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e Gerente Adjunto das Edições Sesc.
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